“As Aventuras Subterrâneas de Alice” é resultado do amadurecimento de algumas perguntas e conceitos que foram trazidos a superfície  pelo primeiro espetáculo. Porém diferentemente de “Improviso DVII”, recorremos a um enredo que fora transformado em roteiro, o “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, com coordenação da dramaturga e atriz Alzira Andrade e orientação artística de Márcio Tadeu.
 

Que  Alice é essa?

        Que seja um grande enigma  e que não seja apenas o resultado que nos satisfaça, pois com certeza não contém uma resposta definitiva. Seria limitado olharmos “Alice no País das Maravilhas”, apenas sob a ótica infantil, a ser esquecido, mas sim buscar a pluralidade de seu potencial interpretativo.
        A análise psicológica de Alice não considerará a análise representativa das alegorias presentes no texto, assim como outras vias de análises, sejam elas semântica, matemático-lógica, etc. Optamos, então, não pelas formas vigentes de análise, buscando, assim como no livro, o paradoxo destas e suas dialéticas. Havendo o fascínio de um jogo sem fim, por onde perdedores e ganhadores são desejos utópicos de jogadores que escondem suas verdadeiras buscas, suas identidades.
        Entendemos que as maravilhas de tal “país” não são meras descrições de cenas e diálogos sem sentido, mas sim a formação de paradoxos que identificam a condição humana na última década do nosso século, sendo ponto de referência de nossa própria condição de artísta no fim do século XX.

 
O Objetivo de “Alice”

         O nosso objetivo é, durante a encenação de “As Aventuras Subterrâneas de Alice”, estudar as seguintes linguagem do século XX: o Realismo via Stanislavski, o Surrealismo, o Teatro Dialético de Brecht e a Arte Total de Robert Wilson, para colocarmos praticamente nas cenas do espetáculo o confronto entre elas. Apartir disso queremos descobrir onde essasw linguagem se interligam ou tomas vias opostas.
         O Povinho quer atentar o público para o paradoxo que é viver o final do século mais terrível e ao mesmo tempo o mais maravilhoso da humanidade. É óbvio que algum cidadão do século XIX também tenha chegado a essa mesma conclusão, porém, não estamos somente envolvidos pela vivência de uma época mas também imbuidos da trajetória da humanidade que nunca conseguiu matar tanto em tão poucos instantes. Carregamos, ao mesmo tempo, um conceito que divida os extremos de um final de época , tornou-se claro numa consciência  de que precisamos repensar até mesmo aquilo que tínhamos como mais certo e até mesmo o mais palpável.
         O Povinho quer mostrar por meio da história recente das artes cênicas que tamanhas foram as possibilidades levantadas de como deveriam ser as artes, ora fundamentadas, elaboradas e conscientes, ora ser vanguarda por ser vanguarda, efeitos especiais por efeitos especiais que chegamos à última década não acompanhados de discernimento, pois também essa palavra em seu significado foi multiplicada e assim reduzida nos atingindo enquanto ser hunano. Assim, o Povinho pretende provocar a reflexão do público sobre a perda da   identidade  artistica, cultural e social.
 

Encenação
 

         O despertar da conciência na criação de imagens, até então, palavras impressas em uma página em branco, orienta a encenação de nosso espetáculo. O fascínio de termos em mãos um livro nos proporciona prazer ao fluir nosso pensamento. Este prazer será vivido, em nosso espetáculo, por um ator que representará o próprio artista em suas divagações diante do fenômeno artístico. Criará as imagens do livro que está lendo no tempo presente: “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll. Assim , a encenação é constituida pelas imagens que esse artista cria de acordo com suas influências. Definimos ser esse artísta um ator - homem de teatro - em seu universo, rodeado pelas várias linguagens interpretativas.
         Esta crise de várias possibilidades se manifesta através das pesquisas desenvolvidas no campo das artes cênicas. Questões que já transcendem o próprio espaço físico denominado Teatro ou buscas de codificação dos elementos cotidianos da modernidade permeiam as finalidades do fenômeno teatral para nosso tempo.
 Se nos resta a dúvida sobre se são os fatores históricos que desencadeiam as manifestações artísticas ou se são elas as inspiradoras de tais fatos, a crise de identidade aliada a uma expectativa de futuro perdem em que se apoiar numa explicação. O que intensifica nossa angústia enquanto classe.
         Com essa premissa teremos com primeiro estágio do desenvolvimento dos ensaios o estudo sistemático e analítico do texto do livro de Lewis Carroll para selecionarmos quais as linguagens interpretativas que serão necessárias para atingirmos os fins de cada paradoxo de cada cena.
         Nossa seleção se limitará às descobertas e experimentos desse século. Por exemplo, nas cenas em que está a personagem artista, poderemos usar o Realismo de Stanislávski, enquanto nas cenas em que Alice cresce e diminui de tamanho, poderemos usar o Surrealismo.
         O espetáculo como um todo se amarrará pela forma (com os conceitos de arte total de Wilson e Craig) e pelo conteúdo (que revela a crise de identidade da própria arte cênica diante das possibilidades de sua recente história no século XX).

         O Espetáculo é dirigido ao público adulto, uma das razões para optarmos não pelo título convencional e sim “As Aventuras Subterrâneas de Alice”. Isto não significa que os mais jovens não apreciem a montagem, considerando as diversas leituras possíveis.
 

A Dramaturgia

         A nossa intenção não é chegar a um texto convencional para teatro, nem escrever coletivamente um roteiro. Faz parte da idéia de encenação usar a sequência de imagens presentes no texto de Carroll da maneira mais fiel possível, usando para tanto, o próprio livro como uma espécie de “romance-roteiro”. Assim, não necessariamente as palavras da narrativa estarão em cena, podendo ser substituídas por sequências corporais, efeitos especiais etc, de modo que em prática será desenvolvido um estudo sistemático de mesa para identificarmos todos os jogos  (paradoxos) de cada cena para então selecionar a linguagem ou linguagens que deverão ser adotadas.

A Interpretação

        Os atores desenvolverão a pesquisa de mesa sendo estimulados em repensar suas influências teatrais. Logo é provável que em uma mesma cena cada ator siga uma linha (de interpretação) diferente, podendo ocorrer, tanto a justaposição quanto a sobreposição das linguagens. Em outro caso, nada impede que em determinada cena, a opção seja o uso convencional de uma única linguagem.
        Selecionadas as linguagens, faremos o estudo prático destas no corpo, para em uma última etapa elaborarmos as cenas.
 

Cenografia, Indumentária,  Sonoplastia e Iluminação
 

         Estes ítens, estão diretamente ligados às diretrizes explicitadas no ítem “Encenação”, de forma que serão desenvolvidos no decorrer do processo, assim como as demais partes.

 


Ficha Técnica
Grupo
Povinho
Elenco
Alexandre Ulhôa
André Salvador
Cacá Toledo
Daniela De Vecchi
Cenografia e Figurinos
Márcio Tadeu
Trilha Sonora Original
André Frateschi e Arthur Guidi
Iluminação
André Salvador
Maquiagem e Adereços
Helô Cardoso
Roteiro de Encenação
Alzira Andrade e Luciano Gentile
Direção
Luciano Gentile
Coordenação
Alzira Andrade
Orientação Artistica
Márcio Tadeu
Produção
ACADEC - Ação Artística para Desenvolvimento Comunitário