|
Deslocando-se da questão do artista e sua relação com a sociedade para lançar um olhar sobre o homem, o homem do século XXI, através do universo beckettiano, repensando a interpretação e o estímulo do texto dramático. Com um elenco que trabalha junto há doze anos, a proposta agora é experimentar uma volta ao texto teatral “clássico”. Para direção convidamos Marcelo Lazzaratto, parceiro de muitas oficinas de investigação sobre a interpretação, parceiro de cena em Josefina (versão 2004) e light designer de Mr. K. Tendo verticalizado a discussão do papel do nosso próprio ofício, sentimos chegada a hora de voltar-nos às questões humanas mais abrangentes, nossa relação com o viver diário e o transcendente (Godot). |
|
E a espera continua... Samuel Beckett é, sem dúvida, um dos grandes dramaturgos do século XX, ao lado de Bertolt Brecht. Embora sua produção seja menor que a do alemão em quantidade de obras, ele traduziu, com grande poder de síntese, o homem contemporâneo e diria até, toda a condição humana. As questões que buscam esclarecer essa condição são amplamente trabalhadas e poeticamente materializadas. Utilizando-se cada vez mais de um menor espaço para desenvolvê-las (suas peças são, com o passar do tempo, cada vez mais curtas) ele comprime ao essencial as indagações humanas em relação à vida, à morte, aos desejos, aos fracassos, à impossibilidade da felicidade, uma vez que cabe ao homem exclusivamente saber-se sem respostas. Daí é que vem toda a tragicidade de seu teatro: por mais que o bicho-homem busque meios para a obtenção do conhecimento, por mais que desenvolva sua ciência, as tecnologias, que experimente novas formas de criação artística, invente novas linguagens, novos meios de comunicação, ele está, irremediavelmente, fadado a não saber. O espanto de tal constatação leva o homem a uma paralisia criativa que o impede de agir, pois mesmo a ação, e isso ele sabe, o levará ao nada. Seus personagens, peça após peça, romance após romance, traduzem esse estado de estagnação quando se deparam com a não-saída e constatam a inutilidade da vida humana. Muitos deles buscam no suicídio a alternativa para acabar com esse desespero. Mas não conseguem agir. E é aí que, contraditoriamente, o teatro e os personagens de Beckett ganham vida. Saem à luz. Iluminam-se e nos iluminam, a nós leitores de seus romances, espectadores de suas peças, atores de seus personagens. Eles não conseguem dar fim à sua experiência. Estão intrinsecamente atados a ela. Se essa experiência é doída, repleta de sofrimentos gerados pela solidão, seus personagens nunca estão sozinhos. Com toda dificuldade de comunicação que há entre eles, eles não conseguem se separar, embora o queiram muitas vezes. Mas este querer individual não é suficiente para transformar o estado de coisas que a vida impõe. É preciso, sim, mais uma vez continuar ao lado do outro, discutindo, provocando, brincando, inventando “arte” para passar o tempo. E é aí que entra outro grande tema da condição humana que Beckett espelha muito bem: o tempo, inexorável, ao qual estamos presos. Ele nos diz, a cada momento, que o fim se aproxima, que a morte espreita, que o jogo irá acabar. Se disso nós sabemos, então por que continuar esperando? Esperando respostas, soluções, decifrações de enigmas? Godot? Por quê? Porque devemos saber que enquanto se espera a vida continua e devemos vivenciá-la da melhor forma possível, a cada segundo, compreendendo-a ínfima e grandiosa ao mesmo tempo. Se Beckett fosse tão desesperançoso como muitos afirmam, se ele realmente tivesse certeza que a vida é somente um fardo que temos de suportar até a morte chegar, ele não teria escrito suas obras, ele não teria dirigido suas peças, ele não processaria a produção humana em busca de novas formas de expressão para comunicar aos homens de seu tempo. Ele não produziria obras que gerassem no outro a possibilidade de fruição estética, de devaneio, de encontro com a intimidade das coisas, de reflexão a respeito da condição humana. Ele pode ser somente um niilista de carteirinha para todos aqueles que têm como objetivo, a reta de chegada, o resultado como busca. A esses, o fardo da existência pesa nas costas, mesmo que inconscientemente, pois os desse tipo não são dados a reflexões profundas sobre o que quer que seja. Mas, aqueles que entendem a vida como busca, compreendem que Beckett nos alerta, nos guia, nos dá pistas de entendimento para melhor suportarmos a existência. Por essas e por tantas outras é que sempre será importante trazer a público, uma peça de Samuel Beckett, ainda mais se essa peça é Esperando Godot. Obra semeadora de toda produção teatral beckettiana, mas que, além disso, nasceu sob o ponto de vista estrutural de sua dramaturgia, do encontro apurado entre estrutura clássica e modernidade, que somente os grandes autores conseguem misturar. O novo levando em conta o passado para não se perder apenas em tendências, mas sim, se configurar como linguagem. Marcelo Lazzaratto |
|
Boa Companhia |


|
Esperando Godot |
|
Aproximamo-nos de nossa arte, compreendemos melhor suas esburacadas vias, entendemos poder colocar nesse momento essa compreensão um pouco mais madura a pensar sobre o sentido de nossa ação humana, de nossa espera infinita, de nossos medos escondidos. O elenco masculino de Primus, atual elenco da Boa Companhia, entra no jogo da cena enquanto a diretora artística, Verônica Fabrini, se afasta para realizar sua livre docência em Portugal - uma reflexão teórica sobre a Trilogia Kafka. Marcelo Lazzaratto será o condutor desse momento em que pretendemos rever o texto dramático, experimentar novos procedimentos criativos, e uma outra relação diretor-ator. |
|
“Todas as tentativas de separar-se fracassaram, em face da exigência que um tem do outro. Juntos, os dois podem esperar interminavelmente. O homem precisa do irmão, condenado que está a viver. E essa pungente fraternidade é a vitória sobre o nada.” Sábato Magaldi |










|
FICHA TÉCNICA Direção Marcelo Lazzaratto Elenco Estragon Daves Otani Vladimir Eduardo Osorio Pozzo Moacir Ferraz Lucky Alexandre Caetano Menino Fabiana Fonseca Texto Samuel Beckett Tradução Christine Röhrig Ambientação Sonora Daniel Maia Design Gráfic Alexandre Caetano Pintura Sérgio Fingermann Figurino Márcio Tadeu Confecção de Figurino Sandra Pestana Concepção Cenográfica Sérgio Fingermann Marcelo Lazzaratto Desenho de Luz Marcelo Lazzaratto Fotos Tika Tiritilli |