AÓDIA (1)

Drama
recitado no Teatro do Pará
antes da ópera
nele representada pelos auxiliares
do Regimento
denominado da Cidade
em aplauso do Fausto Nascimento
de
Sua Alteza Real
A Sereníssima Senhora
D. Maria Tereza
(2)
Augusta sucessora

do

Reino e dos Domínios de Portugal.

Lisboa, MDCCXCIV

Na Oficina de Simão Tadeu Ferreira.

Com Licença da Real Mesa da Comissão Geral sobre
o Exame e Censura de Livros.


Oferecido ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Luiz de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, do Conselho de S. Majestade, seu conselheiro ultramarino, coronel da cavalaria, dos reais exércitos, por seu autor, José Eugênio de Aragão e Lima, tavirense, substituto da Cadeira de Filosofia da Cidade do Pará, em sinal de reconhecimento aos favores recebidos.

Daquela portuguesa alta excelência
Da lealdade firme e obediência.

                                 Camões. Lusíadas, Canto V, est. LXXII.


INTERLOCUTORES

AÓDIA, Donzela irmã de
LÚCIO, Porta-Estandarte.

JOSINO, Alferes.

Ambos de um dos dois Regimentos Auxiliares do Pará, denominado Cidade.


ATO ÚNICO

Vista do gabinete contíguo ao tablado. Aparecem Aódia no meio, Josino à direita, e Lúcio à esquerda dela, estes dois fardados com os seus uniformes, e Aódia com um qualquer vestido ao uso das senhoras portuguesas.

CENA I.

Jos.
Vistes, Aódia bela, o artifício,

Com que movem na cena os bastidores

Todos num tempo, e as vistas se revezam?

Agradou-vos acaso?

Aód.
                                   Muito gosto

Tenho tido de ver quão simplesmente

Se variam na cena as perspectivas

Mais dignas de atenção.

Jos.
                                   Folgastes acaso

De ver as damas e os gentis galantes,

Seu garbo, seus vestidos, e os conceitos

Das pantomimas, que hão de vir fazer-se?

Aód.
Tudo me deu prazer, e mais me agrada

A cortesia vossa e belo termo,

Com que tudo quisestes ir mostrar-me.

Porém cousa mais grande me tem preso

O pensamento. Lúcio, já entraram.

Lúc.
Inda não, cara irmã, porém não tardam?

Sossegai, pois quem tem heróico peito,

Qual o vosso, não deve ter receios.

Aód.
De que receios, de uma ação gloriosa?

Não é receio em mim, é só desejo

De em breve executar o meditado.

Jos.
Posso saber, senhora, este segredo,

Que vos dá tal cuidado?

Aód.
                           Eu vo-lo digo:

Nem devo com Josino ter reservas,

Muito menos em cousa que está perto

De ser vista de todos no teatro.

Hoje que o vosso terço da cidade

Em aplauso do fausto nascimento

Da princesa MARIA, digna herdeira

Do cetro lusitano, põe em cena

Danças, ópera e farsas de bom gosto;

Hoje que todos vêm alvoroçados

Ver dos vossos o zelo, o brio e artes;

Lembrei-me de sair eu de repente,

Quando o pano se erguesse, ao tablado,

E antes de tudo uma ária e recitado

Cantar em honra do sublime objeto,

Que é dos vossos festejos o motivo.

Esta a razão aqui da minha vinda,

Que andar vendo o teatro foi disfarce.

Jos.
Belo, excelente! Não se aparelhava

Para tanto prazer este meu peito.

Que generosa idéia, que lembrança!

Mas vós, senhora, sois capaz de tudo.

O recitado é obra do bom Lúcio?

Aód.
Meu mano o fez, mas eu que o pus em solfa.

Jos.
Deve estar primorosa a poesia,

E a música melhor, e o vosso estilo,

As graças do semblante, este repente,

Tudo deve causar um geral gosto.

Hoje retumba o teto desta casa

Co's vivas, co's aplausos. Mas já oiço

Mover-se tudo, a peça principia.

Aponto estai, senhora, em acabando

O coro de cantar, saí, que eu tenho

Com Lúcio mão em todos os atores,

Que não vão perturbar o canto vosso.

CENA II

Aparece o teatro como ele deve estar no princípio da ópera. E cantam dentro a muitas vozes.

  Gentis guerreiros
Ledos chegai,

Não à parada,

Cá vos juntai:

A lusa herdeira

Louvai, louvai.

CENA III
Sai AÓDIA cantando o recitado.

Aód.
Enquanto um grande reino, dividido,

Em bandos, a si próprio se arruína,

Os vizinhos inquieta, e ... mas os olhos

Viremos destas cenas lastimosas,

Que o mundo enchem d'horror, d'espanto e mágoa ...

Enquanto o bom polaco patriota

Luta em vão por firmar o bem da pátria,

Que tão tarde! Vê'star no cetro herdado

E oprimido de russos e prussianos

Se queixa aos céus de suas graves perdas.

Entanto os portugueses, mais felizes

De quantos povos sobre a terra pisam,

Vivem na paz, sem ter temor à guerra!

O respeito do trono nos defende

Dos insultos de fora, e reina dentro

O mesmo antigo ardor de sinalar-nos

Em defensa da pátria e soberanos,

Que entre nós sempre foram pais dos povos.

A sucessão dos deuses tutelares

Do nosso Portugal, aos céus pedida,

E dada pelos céus, é a ventura

Maior que eles podiam conceder-nos.

Vemos perpetuar-se a glória nossa!

Vemos fruto brotar o tronco antigo

Dos lusos reis, do mundo em toda a parte,

Adorados dos seus, dos mais temidos!...

Vemos continuar-se os defensores

Dos bens nossos, das vidas, liberdades!

Avante irão cultura e artes nossas,

Será nosso comércio protegido,

Será perpétua a fama e o nome luso!...

Nossos bons cidadãos, aqueles mesmos,

Que em paz vejo armar-se para a guerra,

De prazer exultando co' prospecto

De uma felicidade permanente,

Vêm pública fazer sua alegria:

Depois de haver aos céus rendido graças,

Por tal bem, que em si todos recopila.

Dignos auxiliares da cidade,

O vosso empenho tem de ser louvado.

Enquanto o Sol brilhar nos horizontes.

  Viva MARIA
Gentil princesa,

Do luso trono

Certa firmeza,

Princesa amável

Dos céus querida,

Que a nós por eles

Foi concedida.

  Glória durável
Mostras MARIA,

O século d'oiro

Já principia.

É bem fundada

Vossa alegria.

 
CENA IV E ÚLTIMA.

Quer ir-se Aódia, mas saem JOSINO e LÚCIO.

Jos.
Não é justo, senhora, que vos vades, (detendo-a )

Sem o louvor devido vos ser dado.

Vós o estais recebendo nos contínuos vivas e palmas da platéia inteira.

As damas, e senhores das tribunas

Se debruçam a ouvir-vos, todos pendem

Dessa divina voz, que animar sabe

Os conceitos e adornos da poesia.

Nos olhos vossos, no gentil semblante

Inda trasluz o espírito generoso,

Que vos moveu a tão sublime empenho!

Aódia ganhou hoje um nome eterno!

Estes armados cidadãos, que vedes,

De quem Aódia foi panegirista,

Jamais se esquecerão do nome vosso.

Nós o repetiremos nos combates,

E enquanto o Amazonas caudaloso

Do oceano adoça as falsas ondas,

Nós lhe faremos honra, hemos de dar fama.

Aódia, vós sereis a glória nossa.

  Quando algum duro inimigo
Nossas possessões ofende,

Todo o peito generoso

Alegre a pátria defende;

Não por soldo, nem por prêmio,

Porque a honra o peito acende.

Porém quando uma heroína

Vem os guerreiros louvar,

Quando a mesma formosura

Vem as tropas animar,

Basta ver os inimigos

Para vitórias cantar.

Aód.
Eu não mereço tanto, bom Josino,

Sede mais parco nos louvores vossos.

Anima-me, isto é certo, o amor da pátria,

E quis louvar a quem da pátria cuida.

Se rompi nisto as leis, que nos prescreve

O decoro às donzelas, não decido:

A minha intenção pura me defenda.

Jos.
Nunca vi grande ação sem entusiasmo.

Vós tereis entre os bons eterna fama,

Dos outros eu não sei, nem é preciso.

Lúc.
Basta, deixai que eu fale, que eu explique

Todo o meu coração, toda a minha alma.

O peito em si não cabe de alegria,

Contemplando as venturas, que nos cercam!

Arde em guerra cruel a Europa inteira,

E do seus canto o bárbaro argelino

Também nos perturba a paz. Nós lusitanos,

Das nações européias respeitados,

Vemos pedir-nos trégua o africano,

Cansado de prova o ferro nosso.

Nossa bandeira corre os mares todos

Ufana, sem temer dano, ou insulto!

Praticando justiça e estando prontos

Para fazer a guerra, a paz gozamos,

E os bens dela, que os mais choram perdidos.

Este sistema há de ser da augusta filha.

De JOÃO e CARLOTA, lumes claros,

Que brilham no hemisfério lusitano.

Felizes têm de ser os nossos netos

Tanto quanto nós somos co'a regência

De príncipe tão justo e poderoso.

As espadas, que em paz vamos limpando

Para suster a pátria, quando em guerra,

Defenderão do reino a sucessora,

Toda nossa esperança e glória nossa.

Este o juramento é, que aos céus fazemos,

Esta nossa vontade e firme intento;

Nem nos entra temor de caso adverso!

Duram inda entre nós os apelidos

Dos Costas, Maciéis, Soisas, Teixeiras

Monizes e Albuquerques, domadores

D'holandeses, britanos e franceses,

Que a furto no Amazonas pretenderam

Fixar morada e ter domínio certo.

Vós, Hosdan, vós, Porcel, vós, Frai, e outro,

Que vistes vossos fortes demolidos,

As naus tomadas e os amigos mortos,

Espirando increpastes vosso arrojo,

Em querer vir provar do luso a espada.

Tal sorte espere ter quem quer, que ousado

Entre nossos limites, ou a glória

Por qualquer via da nação ofenda

Costumada a vencer, jamais vencida.

  Um valor exp'rimentado
Nada tem que recear,

Muito mais sendo ajudado

Da indústria militar.

  Por MARIA, alta princesa,

Tudo iremos debelar,

Seja quem for o inimigo

O luso há de triunfar.

Jos.
Nunca, melhor do que hoje, estais divino!

Repeti, repeti, que me dais gosto.

Lúc.
Pois quereis, que outra vez a ária cante?

Jos.
É digna disso.

Aód.
                        Quanto a mim dissera,

Que cantásseis vós ambos o dueto,

Que ontem vos vi estar metendo em solfa.

Ele é próprio do assunto, é expressivo

Dos sentimentos nossos neste dia.

Jos.
Dizeis bem, mas o ponto é que me lembre. (detém-se um pouco refletindo)

Lembra sim, pois a ele amado Lúcio.

Cantam ambos.
 

  Enquanto a paz
Nos engrandece,

Artes, cultura

Tudo floresce;

Tal vem aos lusos

Reis se agradece.

  Porém se a guerra
Precisa for,

Quem há que sofra

Nosso vigor?

Do rei da pátria

Em nós o amor

Obra prodígios

D'arte e valor.

Os três.

  Viva MARIA dilatados anos,
E seja mãe de muitos soberanos.

 
 

FIM


NOTAS

(1) Esta edição baseia-se no exemplar do libreto da  Biblioteca do Conservatório de Santa Cecília, Roma, Coleção Carvalhaes. O libreto também pode ser encontrado no Instituto de Estudos Brasileiros, USP. A ortografia foi modernizada e a pontuação atualizada; abolimos o uso de maiúsculas para os substantivos comuns. Edição em HTML de  Paulo Mugayar Kühl . Projeto financiado pela FAPESP.

(2) Filha de D. João e D. Carlota Joaquina, nascida em 29 de abril de 1793.

 
  11-Dec-2002