DRAMA (1)

Recitado no Teatro do Pará
ao princípio das óperas e comédia
nele postas pelo doutor
Juiz Presidente da Câmara,
e vereadores,
do ano de 1793.
Em aplauso
do
Fausto Nascimento
de
Sua Alteza Real
A
Sereníssima Senhora
D. Maria Tereza 
(2)
Princesa da Beira

e

Presuntiva herdeira

da Coroa de Portugal.

Lisboa, MDCCXCIV

Na Oficina de Simão Tadeu Ferreira.

Com Licença da Real Mesa da Comissão Geral sobre
o Exame e Censura de Livros.


Oferecido ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor João Pereira Caldas, do Conselho de S. Majestade, seu conselheiro ultramarino, e brigadeiro do Real Exército por seu autor, José Eugênio de Aragão e Lima, tavirense, substituto da Cadeira de Filosofia da Cidade do Pará, em lembrança das mercês e favores recebidos.

... A fé, o amor, o esforço e arte
De português.
                                Camões. Lusíadas, Canto IV, est.XV.


Camaristas que concorreram para a representação deste Drama e das óperas Ézio em Roma e Zenóbia (3) e da comédia a Beata Fingida, a que ele serviu de prelúdio.

O Doutor Joaquim Rodrigues Milagres, Juiz de Fora e Presidente da Câmara.
O Capitão Dionísio de Freitas Vasconcelos, da Ordem de Cristo, Cavalheiro fidalgo, Vereador.
Francisco Caldeira do Couto, da Ordem de S. Tiago, Cavalheiro fidalgo, Vereador.
O Alferes Francisco José de Sousa, Vereador.

 


INTERLOCUTORES

I. A NINFA PARÁ, tutelar da Cidade do Pará.
II. O GÊNIO tutelar do Estado do Pará.

III. GOAJARÁ, rio que banha a Cidade.

IV. GÊNIO, Mensageiro da Lusitânia, chamado aqui Mensageiro, para distinção do primeiro.

PROSTÁTICAS.
Séquito de ninfas que vêm com a Ninfa Pará.

Séquito de índios que vêm com o Gênio do Pará.

Séquito de ninfas do Rio Goajará que vêm com o mesmo Goajará.

Três gênios mais que trazem os retratos.

 


ATO ÚNICO

A cena representará um bosque contíguo à Cidade do Pará, lavada em ambas as suas margens pelo Rio Goajará, o qual quebra a sua primeira direção à vista do castelo da mesma cidade.

CENA I
No fim de uma alegre sinfonia, e ainda com o pano descido, cantam dentro a muitas vozes.

  Chegai, ó povos,
Ninfas, chegai,

As áureas liras

Ledos pulsai,

À real prole

Louvores dai.

Levanta-se logo o pano de boca e aparece o Gênio tutelar do Pará com os seus índios. Trará ele na mão um cetro, que na parte superior se dividirá em dois.

Gênio.
Este cetro, no fim em dois partido,

Sinal da confluência dos dois rios

Solimões e o Negro, que ambos juntos

Perdem águas e nome no Amazonas,

Rei dos rios do mundo e deste Estado;

Este cetro jamais foi testemunha

De tamanha alegria, glória tanta!

Ele nunca em meu peito viu pulsar-me

Com tanta pressa o coração contente.

  Mas uma justa alegria
Não se pode ocultar, não,

Que um interno prazer d'alma

Põe o peito em convulsão.

Sinto alegre o coração!

  Habitantes destes rios,
Que dividem meus estados,

Tocai ledos instrumentos,

Formai coros entoados;

São propícios nossos fados. (vai-se)


CENA II

Canta o coro dos índios.

  Quem há que oculte
Um grande bem,

Se à face e olhos

O prazer vem?

Mostra o semblante

Quanto a alma tem.


CENA III

Sai a Ninfa trazendo na mão uma esfera armilar (insígnia da Cidade do Pará) com o seu séquito de Ninfas. O Gênio virá mais do fundo, com passo vagaroso.

Ninfa.
Felizes habitantes, vesti galas,

Cubri-vos de luzente pedraria,

Entoai altos vivas, nunca tanta

Razão tivestes de mostrar-vos ledos.

Mas quem vejo? Sois vós, tutelar Gênio, (repara nele)

No país do Amazonas dominante?

Vós sois, sejais bem vindo.

Gênio.
                                          Excelsa Ninfa

Tutelar da Cidade e deste estado

Alma e cabeça, que do régio sólio

As leis participais e dais com elas

A meus domínios todos bens e vida,

Recebei a mensagem que vos rendo. (inclina-se)

Ninfa.
Nobre Gênio, a presença vossa agora

Mais que nunca me é grata, os rendimentos

Deponde; em meu aviso vede um certo

Indício de afeição que por vós tenho.

Gênio.
Beato sou com vossas honras, Ninfa.

Mais eis-me aqui, alegre e voluntário,

Dos vossos ao festim assistir venho.

Ninfa.
Chegais a ponto, Gênio, e o meu recado

Por certo vos achou já de caminho.

Vinde, e comigo animareis as gentes,

Que de prazer exultam co' a certeza

Do feliz parto da REAL PRINCESA.

Perto donde choramos o nefando

Caso do bom JOSÉ, roubado à vida

Em anos tenros pela Parca dura;

Perto donde os maiores da cidade

Têm feito aos céus render ações de graças

Pelo dom, que em MARIA nos concedem;

Perto, digo, daí ajuntar quero

Nobres e povo, damas e donzelas,

Para unidos em honra da PRINCESA,

Nascida para bem do luso império,

Darem de um são prazer festivas mostras,

De fiéis rendimentos misturadas.

Uns logo em rica cena representem

Altos sucessos, dignos de coturno.

Outros em tom mais baixo, mas faceto,

Mostrem ações domésticas, ensinem

Os sinais da virtude e fingimento.

Este afinem áureos instrumentos,

Toquem sonora tuba, e dêem acordes

Aos que dançam, calor, e o tempo marquem

Para os passos e saltos regulados.

O canto de alegria aos ares suba

Cós vivas dos que aplaudem. Eu já cuido

Que'stou em cena. Vamos Gênio, vamos. (querem ir-se, mas)

CENA IV

Sai Goajará com uma capela e cinto de limos, esmaltado de conchas, búzios, etc. e com um grande búzio retorcido na mão, vem seguido das suas ninfas e canta.

  As ondas minhas
Na praia dando

Um som alegre

Vão concertando,

Causa ternura

Seu bater brando.

Goaj.
Salve, ó numes do Estado tutelares. (tendo cantado )

Ambos.
Salve, ó rio famoso, glória nossa,

Goajará, neste porto dominante.

Ninfa.
Por ti soubemos ambos a notícia,

Que de prazer nos enche e faz felizes.

Goaj.
Nunca côncavo pinho foi mais leve

A minha espada, qu'este, onde a certeza

Nos veio do feliz parto da régia

PRINCESA lusa, em quem as esperanças

De eterna sucessão ao real trono

Tinha posto o império lusitano.

A notícia deii logo a vós, e aos rios

Destes vastos estados, neles reina

Uma geral satisfação e gosto.

A margem minha se vê já coalhada

De canoas, nem tenho aonde possam

Portar as que inda chegam.

Ninfa.
                                 Vamos todos

Dar calor ao festim que se prepara

Em honra das PRINCESAS, mãe e filha. (vão-se com seus séquitos)

 

CENA V

Vista de salas ricamente adornadas. Sai o Gênio Mensageiro da Lusitânia, o qual trará no peito, ou em um escudo embraçado no esquerdo braço, as armas de Portugal. Canta.

  A Lusitânia
A vós me envia,

E com mensagem

De alegria.

Ó paranenses

Que feliz dia!

 

CENA VI.
Saem a Ninfa, o Gênio do Pará e Goajará com os seus séquitos.

Ninfa.
Que me aguardais, já sei, ditoso Gênio, (para o Mensageiro)

E que da sempre excelsa Lusitânia

Mensagem me trazeis, também me afirmam.

Dai-me vosso recado, que de ouvir-vos

Estou ansiosa; começai, ouçamos. (para os outros )

Mensageiro.
A fama, que de noite sobre os tetos

Dos palácios, das casas e cabanas

Dos grandes, dos plebeus e dos pastores

Atenta escuta quanto dentro passa,

Que veloz e com vôo arrebatado

O que ouviu contar vai por toda a parte,

Seja bom, seja mau, falso ou veradde,

Tem dito à Lusitânia que vós tendes

Pelo parto feliz, quão desejado,

Da Princesa CARLOTA, e bom estado

Da Princesa MARIA, honra dos lusos,

Dado de um são prazer festivas mostras.

Afirmou-lhe que os vossos não põem termo

Aos sinais de alegria, e que apostados

A qual mostrará mais seu zelo ardente,

Uns após outros festas mil preparam. (4)
Isto sabendo a Lusitânia invicta
A vós me manda, porque muito louve

Dos vossos o ervor, e vos entregue

Os mais dignos presentes que podia

Mandar-vos de tais feitos como em prêmio.

Consistem nos retratos das princesas,

Mãe e filha e do príncipe sobr'ano,

Que hoje rege o império lusitano.

Ali'stão c'o pincel mais delicado

Copiados os rasgos dos semblantes

Dos mais ditosos príncipes desta era.

Transluz neles a glória e majestade

Dos monarcas dos lusos e d'hispanos,

Ali com lustre novo compiladas.

Que os guardeis, diz a invicta Lusitânia,

Para incentivo do amor mais puro,

Em que ardeis para os nossos soberanos.

Três gênios, que mos trazem, só esperam

Licença para entrar, depois de havermos

Com apressado vôo traspassado

Quanto espaço celeste vos divide

Da Lísia.

Ninfa.
             Que presentes, que tesoiro!

Quão gostosa mensagem! De que glória

Banhar-me vindes! Lindo Gênio, vamos. (para o mensageiro )

Encontrar quero os vossos companheiros.

Vou beijar, abraçar submissamente

Tão augustas imagens. Eu vou pô-las

Em decente lugar, onde os meus possam

Vê-las e venerálas, e ante elas

Derramar de prazer copiosas lágrimas.

Vinde todos comigo; alegres cantos (para os três )

Entoemos em honra daquel astro,

Que hora se ergue na Lísia, para lustre

De tantos povos, tão remotos climas.

Goaj.
Vamos.

Gên.
A glória nossa é sem medida.

(Vão-se a Ninfa, o Mensageiro, Goajará e o Gênio com os seus índios.)

CENA VII.
As ninfas da cidade e rio cantam a coros alternadamente.

  Sacras imagens,
Fiéis traslados,

Que vamos ver.
De tão amados
Originais;
D'almo prazer
Vós nos banhais. (Vão-se)

CENA VIII
Sai o Gênio do Pará.

Gênio.
Nunca, é bem certo, eu já o disse, nunca
Prazeres tais, ó peitom eu, provaste !...
Que lindos gestos, quão augustas faces!
Deveras não podia a Lusitânia
Mandar-nos mimo igual, se este não fora,
Nem mais a tempo do que veio agora!...
A Ninfa do Pará tem dado ordem,
Que os retratos dos príncipes augustos
Numa amplo pedestal já se coloquem.
Quatro estátuas lhes manda pôr dos lados
Com dísticos mui próprios e expressivos
Do Gênio da nação lusa e caráter
Que faz notáveis sempre os portugueses.
Dos nossos soberanos o paterno
Amor para os vassalos uma indica;
A outra o filial amor dos lusos
Para os monarcas seus; a obediência
Provada já do mundo em toda a parte
Est'outra lembra, a quarta o denodado
Valor com que os mais duros inimigos
No mar, na terra batem, domam, vencem
Decorações tem nobres e alusivas
A tão alto emblemas e conceitos.

CENA IX E ÚLTIMA

Aparecem os retratos num largo pedestal: o da sereníssima senhora princesa recém-nascida no meio, e os de SS. AA. RR. a sereníssima senhora pricesa D. CARLOTA e o sereníssimo senhor príncipe D. JOÃO à direita, e esquerda do primeiro. Estes dois últimos terão base em que descançam dois grande pedaços de alambre. Por baixo de todos estes estarão estas inscrições, que dos lugares em que se põem, se vê bem a qual retrato correspondem.

Da paz dos lusos
Certo penhor

NON VI / SED VIRTUTE.

Dos lados dos retratos se verão quatro estátuas. A primeira num lugar eminente à direita, representará um monarca respeitável, olhando porém com modo e ar favorável e benigno para um gentil guerreiro, vestido à portuguesa antiga, que lhe fica da mesma banda. Por baixo:

E com rogo, e palavras amorosas
Qu é um mando nos reis, que a mais obriga.

Camões, Lusiad. Canto IV. Est. LXXVIII.


A segunda representará um guerreiro, vestido ao uso português antigo, olhando, posto de joelhos, de um lugar mais inferior e da mesma banda do pedestal, para o seu monarca, com mostras de respeito o mais fiel. Ler-se-á por baixo:

É tão pouco por vós, que mais me pena
Ser esta vida cousa tão pequena.

Camões, Lusiad. Cant. IV, Est. LXXIX.


A terceira da parte esquerda, no lugar mais alto, será uma donzela, vestida de roupas brancas candidíssimas, levando com veneração à frente um cartaz, em que se lerá por fora: Por El-Rei; e na mão esquerda terá um tirso de olmo com uma parra muito viçosa enrolada nele. Por baixo estes versos:

Tinha por valor grande e mui subido
O do Rei, que é tão longe obedecido.

Camões. Lusiad. Canto II. Est. LXXXXV.


A quarta figura da mesma parte, e mais abaixo, mostrará um guerreiro português, vestido de armas brancas, arrancando até o meio a espada. Por baixo se lerá:

Vencerei não só estes adversários,
Mas quantos ao meu rei forem contrários.

Camões. Lusiad. Canto IV. Est. XXIX.


Do lado direito estarão a Ninfa e o Mensageiro, e, do esquerdo, Goajará e daí a pouco o Gênio do Pará. Os índios nele, as ninfas e os três Gênios que trouxeram os retratos, se dividirão por uma e outra banda. (5)  A Ninfa Pará canta:

  A real prole
Recém-nascida
Por largos anos
Goze da vida.
Cresça depressa,
Seja esposada
De lindo filhos
Ande cercada;
Viva princesa
Tão sublimada!...

Acabando ela, os dois Gênios, isto é, o do Pará e o Mensageiro cantam:

  Da paz dos lusos
Certo penhor,
D'África e d'Ásia
Vivo esplendor,
Do Brasil nosso
Glória e Amor.

  Sejam teus dias
Tão venturosos,
Quanto ditosos
Para a nação
Os de CARLOTA
Vemos que são!...

Logo imediatamente canta Goajará.

  Golfinhos do mar,
Pois me obedeceis,
Contai lá no Tejo
Quanto vós sabeis.

  Dizei que o Pará
Trasborda em prazer,
E que Goajará
Mais não pode ter.
Golfinhos, golfinhos,
Inda estais a ver!...

Os três Gênios que trouxeram os retratos cantam

  Sejam teus dias
Tão venturosos,
Quanto ditosos
Para a nação
Os de CARLOTA
Vemos que são!...

Ninfa.
Salve-te o Céu, princesa; e que possamos

Todos.
Ver teus filhos e os netos qu'esperamos!...

FIM

NOTAS

(1) Esta edição baseia-se no exemplar do libreto do  Instituto de Estudos Brasileiros, USP . O libreto também pode ser encontrado na Biblioteca do Conservatório de Santa Cecília, Roma, Coleção Carvalhaes. A ortografia foi modernizada e a pontuação atualizada; abolimos o uso de maiúsculas para os substantivos comuns. Edição em HTML e notas de  Paulo Mugayar Kühl . Projeto financiado pela FAPESP. As notas do autor estão indicadas como N. do A. Uma edição moderna foi publicada em Belém, Conselho Estadual de Cultura, 1978.

(2) Filha de D. João e D. Carlota Joaquina, nascida em 29 de abril de 1793.

(3) Ezio é um libreto de Metastasio, posto em música pela primeira vez em 1728 por N. Porpora. Diversos compositores usaram o libreto, entre eles D. Perez (1756?) e N. Jommelli (1771) para a corte portuguesa. Zenobia também é um libreto de Metastasio, posto em música pela primeira vez em 1740 por L. A. Predieri. Em Portugal, existe uma Zenobia de D. Perez (1765). O libreto não dá nenhuma informação sobre o compositor, se é que as obras de fato foram apresentadas com música.

(4) Espera-se impressa a relação das muitas e esplendidíssimas festas do Pará aqui indicadas. N. do A.

(5) Cinco vezes se representou este drama no Pará e nunca apareceu esta vista que não fosse vivíssima e geralmente aplaudida. Poupemos as reflexões que se podiam aqui fazer. N. do A.

11-Dec-2002