O JURAMENTO DOS NUMES.
DRAMA
(1)

Istuc est sapere, non quod ante pedes modo est videre,
Sed etiam illa quæ futura sunt, prospicere.
       Terêncio (2)

ADVERTÊNCIA

  Este drama é alusivo à peça que há de representar na noite da abertura do Real Teatro de S. João, que tem por título "O Combate do Vimeiro" e serve como de prefação à mencionada comédia. É desnecessário lembrar aos leitores judiciosos que nas composições deste gênero, que servem mais para deleitar que para instruir, não se deve exigir o severo cumprimento dos preceitos dramaticais [sic]: hajam [sic] vista a Voltaire, Metastasio, Molière, Goldoni, e outros, que sendo aliás tão prolixos na exata perfeição das suas grandes obras o não quiseram ser naquelas de que trato.
 Se me criminarem acerca do estilo que sustento um tanto levantado, e porventura impróprio da poesia dramática, responderei que a locução rasteira é vergonhosa na boca de uma divindade, e que os objetos grandes devem ser grandemente tratados.

 Niil parvum aut humili modo,
 Nil mortale loquar.
    Hor. Liv. 3. Od. 20 (3)


O
JURAMENTO DOS NUMES.

DRAMA.
Para se representar na noite da abertura
do Real Teatro de S. JOÃO
em aplauso
ao Augusto Nome de

SUA ALTEZA REAL (4)
O
PRÍNCIPE REGENTE
NOSSO SENHOR,

POR
D. GASTÃO FAUSTO DA CÂMARA
COUTINHO.
RIO DE JANEIRO, NA IMPRESSÃO RÉGIA.
1813
Com Licença de S. A. R.


 

ATORES

VULCANO                        Domingos Botelho
VÊNUS                               Estella Joaquina de Oliveira
A PAZ                                Laura Joaquina de Oliveira
O GÊNIO LUSITANO      Bernardino José Correa
AS TRÊS GRAÇAS

Coro de Ninfas
Coro dos Ciclopes
Dança dos Ciclopes
Dança das Ninfas.

A cena é parte nas faldas do monte Etna, parte no templo do Heroísmo. A música é de Bernardo José de Souza e Queirós, Mestre e Compositor do mesmo teatro .
As máquinas e pinturas são do arquiteto, pintor e maquinista do mesmo teatro, Manuel da Costa .

O vestuário do alfaiate Antônio Vieira Guimarães.


 

ELOGIO A SUA ALTEZA REAL O PRÍNCIPE REGENTE NOSSO SENHOR.

Para se recitar na noite da abertura do Real Teatro de S. João, alusivo ao feliz aniversário de Seu Augusto Filho o Sereníssimo Senhor D. PEDRO DE ALCÂNTARA, Príncipe da Beira.

 
Chi vuol goder degli agi,
Soffra prima i disagi:
Né da riposo infruttuoso e vile,
Che 'l faticar’ abborre,
Ma da fatica, che virtú precorre,
Nasce il vero riposo.
   Guarini, Past. Fid. Ato 4º (5)

Não se afundam no pélago dos tempos
Feitos preclaros do porvir credores,
Nem do próvido rei usado à glória,
O sidéreo fulgor se apaga e morre;
Mais longe e mais além desdobra a fama
Co' a férrea voz os cantos reforçados,
Mais longe e mais além seu nome alteia
E vai com ele reluzir na esfera;
De Tito e de Trajano, heróis que vivem
Anos por dias, séculos por anos,
Inda, em memória, pelo etéreo espaço
As funéreas pirâmides se escondem,
Que os raios, que os tufões abaixo escutam;
Votadas à virtude, inda hoje brilham,
E à sã posteridade, as obras claras
De Fídias, Polidoro e Praxiteles;
Deste modo, Grão-Príncipe, que tendes
Tronos quatro, do mundo em quatro partes,
Cuja base imortal se acosta e lia
Aos dóceis corações d' imensos povos
Vários no trajo, no falar diversos,
Deste modo, no trilho luminoso,
Vereda estreita d' íngreme cabeço,
Que há muito vos deixou aberto a planta
Dos vossos Régios Ínclitos Maiores,
Ireis subindo ao majestoso alcáçar
Dos sóis de Lísia, criador luzeiro.

Mas enquanto co' as tubas bronzeadas
Espalhando não vão castálios brilhos
Do Tejo os cisnes cândidos e graves,
E não cresce co' a Vossa glória e nome
Colosso aéreo que se ri dos evos,
Permiti, que as primícias encetadas
Do muito que vos deve, hoje vos renda
A Nação que do céu vos coube em sorte,
Neste artefato que rasteja às sombras
Dos dois pomposos de Marcelo (6) e Balbo;
Onde, contudo, a lucinda virtude,
Fechando o mundo em círculo pequeno,
Rotas as névoas da calúnia infame,
Descortina, detesta e pune o crime,
Onde a profícua mímica ciência,
Que o berço deve à portentosa Atenas (7) ,
Dentre as cinzas revoca e mostra aos olhos
Bravo qual fora, independente e sábio
O finado varão salvando a pátria
A preço de suor, vigília e sangue;
Onde os homens quais são (8) , quais ser lhes cumpre
Aponta e mostra, mascabando os vícios.
Se, contudo, esgarrado à natureza
Não pode o luso cênico farsante,
Nos afetos, ações, viveza e modos,
Imitar os esforços altaneiros
De Grandval, Montfleury (9) ,  Baron, Dufresne,
Ao menos as fadigas bem lidadas
Acolhei com sereno e grato aspecto,
Bem como Jove do estrelado Olimpo
Gasalha a tênue, cordial oferta;
Dia tão claro, desta graça é digno;
Hoje, q' um elo à bragancina adoba
Se prende e baixa na sagrada essência
Do filho vosso e grão penhor do trono,
Que promete imitar inteiro e vasto
Seus augustos avós, que vivem, medram
Da viva (10)  tradição nas áureas vozes,
Que avultando (11)  nos séculos futuros,
Serão sempre os faróis da régia estirpe,
Té que o sopro, que presta a vida e a morte,
Do GRANDE, que do nada tirou tudo,
Apague de uma vez a luz aos astros,
E ao calado embrião se torne o globo.


 O JURAMENTO DOS NUMES.

O Teatro representa o monte Etna, sob cujas faldas se divisa a Oficina de Vulcano.

ATO ÚNICO
 

CENA I.

Os Ciclopes trabalhando e cantando. Brontes o 1º, Pirácmon o 2º, Estéropes o 3º. Os mais Ciclopes estarão repartidos pelas fráguas em diversos empregos.

CORO
  Valor, amigos,
Ferir nos cumpre
Com força ingente
O ferro ardente
Que em brasa está.

  E o som que parte,
Das férreas tochas,
Por ínvias rochas
Troando vá.

Vulcano, depois de haver visitado as fráguas, vai-se encaminhando para os três que cessam de malhar na safra.

Vulcano
Companheiros fiéis que armais a destra
Do excelso rei do Olimpo onipotente,
Que o raio atroador que pune o crime,
Forjais, bateis na sonorosa incude;
Hoje, não vista, não vulgar tarefa
Comete o zelo meu à industria vossa,
Não são por certo as lâminas fulgentes
Do encoirado pavês do grego ardido,
Nem do piedoso herói, romúleo tronco,
O trêmulo, mortífero, montante
Que no Lácio erigiu barreira ao mundo:
De têmpera mais forte e molde novo,
Cumpre-nos aprestar fulmíneas armas,
Que os corpos robustíssimos adornem
Dos guerreiros heróis que Lísia cria.
Implorando favor tremendo às fúrias
Voa bramindo a polvorosa Erínis,
E não farta de haver crestado as flores,
Crestado os frutos com seu bafo imundo
À mor parte da Europa escrava e curva,
Tenta invadir a belicosa plaga,
Onde a terra se acaba e o mar começa.
Eu, que tenho afeição, que amor conservo
Àqueles que por feitos singulares
Têm ganhado o laurel que a glória tece,
Não me posso esquecer da gente lusa
Que estreitada em terrão opimo e escasso,
Já mal cabendo em si, foi conquistando
Por mar, por terra, incógnitos lugares
Não trilhados té  'li por planta estranha.
Ó briosa nação! Ó gente ilustre!
Mas inda mais e mais me obriga e move
Seu Príncipe feliz, que em trono avito
Leis ditadas no céu dócil promulga,
E os dias seus solícito consagra
À publica ventura, ao bem de todos.
Portanto, sócios meus, aos heróis lusos
E àqueles que lhes dão auxílio e mando (12) ,
Britanos capitães que o escudo embraçam
Contra o largo poder do mundo em armas,
Aprontemos riquíssimos arneses,
E a fulminante espada que não ceda
Em brilho, em peso ao farpeado fogo
Que as etéreas abóbadas abala;
Armas se prestem a quem honra as armas,
Demos armas a quem transborda em brios:
Eu inda espero, (eu que folheio apenas
As longas margens dos anais futuros
Onde a sombria mão do fado austero
Borda os pesares dos mortais e as ditas)
Que estas duas nações que hão sustentado
O jus alheio no equilíbrio próprio,
Venham a ser um dia ... Oh céus! e devo
Mostrar os elos das cadeias d' ouro
Que prendem dous a dous troféus e palmas?
Não, não me toca, a Júpiter só cabe
Volver a chave do destino oculto;
Vamos a trabalhar que o tempo voa.

Os três Ciclopes
  Valor, amigos, etc.

  E o som que parte etc.

CENA II.
Os mesmos e Vênus.

Vênus.
Digno consorte meu, tão caro aos numes,
Tão caro à terna esposa, que insofrida
De agradar-te somente aspira à glória;
Aqui só por te ver aos céus me furto,
E aborrecem-me os céus quando me lembra
Que a mãe vaidosa, que te dera ao dia
(Juno, minha rival, meu ódio eterno)
Tivesse coração com que sofrera,
Que o rei dos deuses que nos astros mora
Dos sidéreos assentos te privasse;
Oh, despiedado pai! Oh mãe tão crua!
Mas injustiças tais e agravos tantos,
(Iras impróprias de celestes peitos)
Tu sabes premiar proscrito e leso,
Quando das furnas dos trinácrios montes,
Associado aos Ciclopes cuidosos,
Mandas ao duro pai, turbado e opresso,
A chuva horrível de sulfúreas lanças
Com que as serras altíssimas derrube
Dos gigantes impávidos que ousavam
Escalar as muralhas venerandas
Dos penetrais do céu, morada nossa;
Que mais fizera um coração sensível
Às magoas paternais num peito grato!
Graças aos teus serviços que me deram
Inda mor bem e sólida ventura,
Na disputada glória de gozar-te
Em laço conjugal eterno e doce.

Vulcano.
Vãos encômios, incensos lisonjeiros,
São para mim baldados artifícios,
Bem sabes que, dos céus banido há muito,
Tomei desta oficina o regimento,
A lida em que me vês é feia, é triste,
É grosseira, e grosseiro me há tornado
O duro trato dos que vês presentes;
O que tens a dizer, dize sem susto,
Deixa as ambages que de nada servem.

Vênus.
Sim, compassivo deus, presta-me ouvidos,
Que eu principio a narração sincera.
Tu sabes que os ilustres portugueses
Me são caros há muito, e que os escudo
Co' o braço inerme que te pede abono;
Bem viste como outrora os defendera
Das mauritanas, pérfidas ciladas,
Como a salvo os levei ao porto amigo,
Por indulto de Júpiter superno,
Depois de haverem ledos amansado
Tormentas, escarcéus de virgens vagas,
Sem que pudesse o filho de Semeles,
Várias formas tomando e gestos vários,
Dar-lhes sepulcro eterno em praia ignota.
Mas a inveja cruel de olhar oblíquo,
Que a si mesma faz guerra e se devora
Quando vê melhorar fortuna alheia,
Não cessa, não descansa e teima e volta
A perseguir de Lísia os moradores,
Escoltada por fúrias sanguinosas
Que na Gália gerou monstro implacável;
Hoje, oh dia fatal!, hão de medir-se
Em forças, em destreza e manha e brios,
Co' as carnívoras águias que atrevidas
Têm das testas augustas arrancado,
D' algumas, os diademas luminosos,
D' algumas, porque os céus inda tem olhos.
Nem perdoando a si, nem mesmo àquela
Que o ser, que a vida e que mil bens lhe dera;
Ah! que pode a si, nem mesmo àquela
Que o ser, que a vida e que mil bens lhe dera;
Ah! que pode a mortal, terrena espécie
Obrar de acerto quando os erradios
Passos lhe não dirige a mão divina!
A ti consorte meu, a ti compete,
A ti, que deste amparo ao rei dos numes,
Dar-lhes socorro por que tanto anelam;
Verás então como insofridos fervem
Entre o granizo de fatais pelouros,
Nadando em sangue imigo que avermelhe
A verde relva do Vimeiro ovante;
Como invocando o nome idolatrado
Do PRÍNCIPE JOÃO que levam n' alma,
Voam sedentos por viela estreita
Que pelo chão da honra à glória os guia.
Mas se a constância de tão brava gente
E a sábia intrepidez te não comovem,
Se a fortuna, que às cegas corre e pára,
Fados propícios lhes não tem guardado,
Mereçam-te sequer o dom pequeno
De repelir com força avantajada
Os duros golpes das francesas hostes;
E se inda é muito o que hei pedido e peço,
Acabem de uma vez, pereçam todos,
Acabem que são meus, isto lhes basta. (chora)

Vulcano.
Hão de vencer, e sempre; hão de arrojados
À ponta da baioneta arremessá-las
Além dos Pireneus que ao longe avultam
Sempre entoados de alcantis nivosos:
Hão de enturvar-lhe os ânimos cobardes;
Hão de a caterva vil sumir no abismo,
E colocar no trono ermo e saudoso
(No trono que não presta assento a outrem)
Seu devido SENHOR que em terras longes
Torna contente o Trópico orvalhoso:
Há de o SEXTO JOÃO PRÍNCIPE augusto,
A par do grande rei que rege os mares,
Britano corifeu, levar dum golpe
A cerviz venenosa ao monstro ingente,
E dar segura paz ao mundo aflito.
Porém quero saber que outros motivos,
Além desses que há pouco me alegaste
Tanto te obrigam, tanto te penhoram
A bem fazer aos lusitanos povos,
Que te empuxam do empíreo a baixar prestes
À medonha morada onde me acoito?
Quero sabê-los pois, se acaso há outros?

Vênus.
Sem dúvida são muitas e mui graves
As causas que me põem da parte deles;
Pois quando à mente que atropelam mágoas
Me sobe a triste, lutuosa imagem
Da teucra gente que sorvera a idade,
E sisuda examino e enfim cotejo
Do Lácio e da Ulisséia, as nações duas,
Noto que em tudo nobres se assemelham,
Nos costumes e leis, idioma e trato,
Nos gestos, nas feições e garbo e tudo:
Olha bem como até nos fados turvos
Correm parelhas as nações lustrosas;
Como aquela depois da pátria em cinzas
A vida entrega aos ventos, e vai logo
Firmar seu mando no terreno ausônio;
Como esta, ameaçado o lar nativo
Pela fera dobrez da Gália indigna,
Demanda o pólo austral e vai na rota
Do magnânimo PRÍNCIPE, que firme
Se embrenha pelas ondas marulhosas
Em menoscabo de Netuno e Éolo;
Té que chegando às praias fortunadas,
Que o famoso Cabral pisou mais cedo,
Arreiga o Império seu, que há de ser inda
Atalaia e farol do mundo inteiro;
Vê como té nos títulos se ajustam
Os dignos chefes das nações preclaras,
Fundadores d' impérios dilatados,
Ambos de sangue divinal nascidos,
Ambos piedosos, justiceiros ambos.

Vulcano.
Basta, que tudo sei, não mais prossigas ...
Céus! que terão comigo ações pasmosas,
Feitos ilustres de renome eterno,
Que só de ouvi-los se afogueia o rosto,
E pula e cresce o coração no peito!
Deixa ao meu braço a glória de servi-los,
Sobe ligeira ao céus, que hei pressa à obra.

Vênus.
Em penhor da promessa em que confio,
Dá que em meus braços trêmulos te aperte (Abraçam-se )
E sele o voto a gratidão sincera.
E vós, fieis artífices, que tendes (Voltando-se para os Ciclopes)
Dado começo à marcial tarefa,
Não ficareis sem prêmio avantajado;
Ninfas quatorze, que a meu cargo tenho,
De tez nevada e pudibundas faces,
Hão de ser para vós (13) ,  hão de ser vossas;
A ti, Brontes feliz, darei Deiopéia,
Que a todas sobressai em formosura,
De corpo elegantíssimo e soberbo,
E, deste festival doce consórcio,
Novas estrelas nascerão que esmaltem
O sólio majestoso ao rei dos astros;
Tanto prometo e cumprirei bom grado. (Vai-se)

Brontes.

ÁRIA
  Do nosso braço,
Que os céus defende,
A sorte pende
De Portugal.

  Eia forjemos
Os diamantinos
Terçados finos
De brilho igual.

  Que a mãe das Graças,
Formosa e nua,
Protege a sua
Nação leal.

Volvem os Ciclopes a trabalhar.

  Valor amigos &c.

  E o som que parte &c.

Brontes.

  Mas subam mais leves
Os malhos pesados,
E mais apressados
Os golpes se dêem.

Os dous repetem.

Brontes.

  Mas certos, mas certos,
Que assim não vai bem.

Os dous.

  Pois mais apressados
Os golpes se dêem.

Brontes dando o compasso.

  Tatatá, tatatá, tatatá,
Assim devem bater à porfia.

Os dous.

  Tatatá, tatatá, tatatá,
Assim vamos batendo à porfia.

Brontes.

  Oh que bela, que doce harmonia
De acertado compasso o melhor.

Os dous repetem.

Brontes.

  Dêem pressa ao que fazem
E tragam e levem
Os ferros que devem
Na guerra servir.

  Cuidado nos golpes
Que vão falseando,
Quando um for baixando,
Deve outro subir.
 

Movem-se os Ciclopes com presteza, e dá principio o baile do primeiro intervalo.

CENA III.

Vista de bosque onde haverá um arbusto que preste assento à personagem que entra.

Paz.
Que não possa encontrar na terra abrigo!
Eu que a bem dos mortais baixei do empíreo,
Do seio imenso do monarca eterno!
Prole minha infeliz, ciências, artes,
Cândidos frutos que nutri vaidosa,
Quando os não via o facho fumegante
Que a mão das Fúrias acendeu no Averno;
Vós, penhores da paz, vós bens celestes,
Que além da natureza e a par dos numes
Tendes mil vezes elevado os homens,
Hoje sois (ai de mim!) ai filhos tristes!
Por vossos duros, bárbaros inventos,
Que a fatal ambição tem posto a jeito,
Peste, ruína e corrupção dos povos.
Ó bárbaras nações, que indignamente
Haveis de cultas granjeado o nome,
Vossas proezas de ignomínia prenhes
Hão de ser o labéu da espécie vossa,
Hão de convosco, sem lauréis, sem palmas,
Pela noite dos tempos esconder-se,
Que o mérito moral vos tolhe o aplauso;
E estes a que vós chamais sem dor, sem pejo,
Áureo, ditoso século de luzes,
Talvez bem poucos lustros postergando
O século de trevas se apelide.
Eis-me aqui assustada e foragida
De clima em clima, por sertões errando,
Sem que um momento de prazer me caiba,
Sem trono, sem altar, sem dons, sem culto:
Vós, brutos animais,
Vós sois quem ternos
Doce guarida me há prestado ao menos,
Vós, a quem nega o previdente Olimpo
Aguçosa razão, saber profundo;
Ah! Mesquinhos mortais, envergonhai-vos!
Mas que súbito horror me tolda a vista,
Me apalpa o coração e o prende e aperta!
Céus espaçosos a quem toca e cumpre
Fraternizar os ânimos discordes,
Dai-me o socorro que impetrar não posso. (14)

Coro dentro.

  O Rei que os astros regula,
Que humilde o potente faz,
Dê justo prêmio à Virtude;
Dê seguro asilo à Paz.

Paz, levantando-se.
Que não possa encontrar na terra abrigo,
Eu, que nos dias da primeva idade
Meu império alonguei dum pólo a outro!
Insígnias, que me ornais sem glória a fronte,
Que as mãos inúteis me prendeis debalde;
Emblemas festivais, símbolo grato
D' unânime concórdia indissolúvel,
Vós não sois para mim, nem de vós cuido (15) :
Do que fui ao que sou desdigo em tudo,
Quimérico fantasma que deseja
Fugir da luz às mortuosas sombras,
E que surdo a meus ais, cego a meu pranto,
Um deus que tudo vê, mas ais não ouça!...
 

CENA IV.

O Gênio Lusitano que entra.
Não te lastimes mais, não desesperes,
Formosa diva, desejado enleio
Dos impérios e reinos opulentos,
Que os deuses que nos orbes sempre em giro
Às vezes por mistérios venerandos
As rédeas do poder supremo afrouxam,
Condoídos de ti, dos teus, do mundo,
Do mundo que em vulcões se rasga e ferve,
Mandam aos sábios reis, aos reis amigos,
Aos dous monarcas, de Britânia e Lísia,
Que os braços potentíssimos distendam
Em meio aos combros do sanguíneo lago,
Que o mar, que a terra em borbotões torneiam,
Té que sobre troféus de eterna dura,
E sobre imigos sórdidos cadáv'res
O templo te se eleve e qual já fora
Torne outra vez a ser pomposo e pio;
Não desesperes pois que amigos fados
Os campos do Vimeiro hão de outorgar-te.

Paz.
Que semideus se atreve a prometer-me
O que os deuses té  'qui me hão denegado?
Acaso serás tu? ... oh céus! Que observo!
Serás ...

Gênio.
            O nume tutelar dos lusos,
Aquele que defende, ampara e guia
A guerreira nação, que invicta e sábia
Se tem da lei da morte libertado,
Que tão pequena em número não teme
As bravas iras da bifronte Gália:
Alegra-te, e de novo assombra e cinge
De virente laurel a fronte augusta. (16)

Paz.
Ó Gênio defensor dos lusitanos,
De tão digna nação guarda mais digno,
Que ousaste penetrar a estância escura
Onde contínuo horror me enluta a vista
Há mais de quatro retardios lustros;
Da tua grata voz consigo e colho
O fausto anúncio de propícia estréia:
Só reservado a ti, guardado aos lusos
Fora o bem de lançar com vivo arrojo
Do templo meu a lápida primeira,
Do templo meu que derrocado havia
A sanha horrível d' hiperbóreos tigres,
Ah! quem pudesse ...

Gênio.
                                Em frívolas delongas
Não se esperdice o tempo que promete
Desenvolver a bem da lusa estirpe
Nova série de lúcidos sucessos;
Se pertendes de todo gloriar-te,
E pôr baliza extrema ao teu desejo,
Corre comigo ao sacrossanto alcáçar
Do supremo heroísmo, e verás nele
Raiar sobre montões d' ígneas estrelas
A cintilante efígie portentosa
Do monarca maior que hão visto as eras.

Paz.
Do Primeiro, talvez, ou Quinto Afonso?..
Do Terceiro João? Ou do pai deste
Do grandioso Manoel o afortunado,
Que sobre todos o diadema exalça
Esmaltado de pérolas do Ganges,
Dos sanguíneos rubis e dos diamantes
D' ambas as Índias, que abrangeu co' a sombra?

Gênio.
De nenhum dos que apontas veneráveis
Sobr'anos d' alto nome e fama eterna
Ora verás a efígie assemelhada;
É do SEXTO JOÃO, que apôs de tantos,
De tantos e tais reis eleva o cetro
De assombrosos prodígios carregado,
Quando pensavam que na história lusa
Não teriam lugar feitos mais nobres;
É ele o que primeiro aos reis ensina
A curtir as tormentas fadigosas
Que a fúria de Netuno assanha e aumenta,
Transpondo ileso os trópicos chuvosos,
Limites entre os quais Febo passeia;
Eis aqui novo assunto extenso e fértil,
Que de Clio e Calíope merecem
Desenlear os cânticos celestes
Que dêem longo rebombo além dos tempos;
Vem portanto comigo, eu te conduzo
A ver de perto o semideus de Lísia,
Verás como seu rosto fulgurante
Chove prazeres sobre a gente sua.

Paz.
Guia-me, ó nume.

Gênio.
                           Eu te dirijo, ó diva. (Vão-se)
 

CENA V.

Vista do Monte Etna, vêem-se, pelos pórticos das furnas, algumas armaduras portuguesas.
Os Ciclopes trabalhando e Vulcano como que anda registando a obra já feita.

Os três Ciclopes.

  Valor amigos &c.

  E o som que parte &c.

Gênio, que entra.
Filho de Juno, artífice divino
A quem foi dado o cansativo empenho
De armar de Jove o braço avermelhado,
Tu que animaste o cão de brônzeos membros,
Que o palácio do deus que espanca as trevas
D' oiro maciço fabricaste outrora,
Tu me ostenta as mavórcias armaduras,
Que a pedido da cípria divindade
Forjadas foram por teu sábio aviso,
A prol da gente que protejo e guardo.

Vulcano.
Ei-las aqui por ordem penduradas, (apontando)
Tudo já pronto está; estas primeiras
De chapa diamantina e tisso d' oiro
São do grande Wellesley, por quem desprende
A penígera deusa de cem línguas
Por cem bocas de ferro a voz inteira.
Além vês os dois elmos emplumados
Dos dois Freires irmãos, que não receiam
Perder por entre o fumo e fogo e ferro
A bem da pátria as vidas fugidias.
Aqui tens de Forjaz, discreto e grave,
O triplicado arnês de estreita malha,
Varão que até dormindo estuda e vela,
Que a mente empreendedora alteia e manda
A ver de perto os pósteros segredos.
Olha bem por miúdo esta armadura
Do terrível Silveira que lacera,
As bravas hidras de que abunda a França.
Estoutra mais a cá é de Trigoso,
Que tem lavrado os coloridos campos
Co' a espada e pena de Minerva e Marte.
Ali reluz a tresdobrada cota
Do grande Bacelar que ardendo em glória
Rodeia o ferro que troveja e brilha.
Essoutras mais que vez são de Piçarro,
De Rego, de Sepúlveda e do forte
Canavarro e de muitos celebrados
Ilustres campeões de esforço e arte. (17)
Não posso graduar prolixo e exato
O marcial valor d’heróis tão raros,
Pois que aos p'rigos se arrojam por tais modos
* Que nenhum dizer pode que é primeiro.
Agora podes, se te apraz, à frente
De alguns dos meus, levar esse armamento,
Que mancha pouco a pouco e dana e perde
O fumoso clarão sulfúreo e tardo
Desta nossa oficina.

Gênio.
                                    Eu o conduzo
E o levo ao templo santo do Heroísmo,
Que as arcadas multíplices escora
Sobre os robustos bem formados ombros
Das prestantes virtudes que encaminham
O baixel dos mortais no mar do mundo.

Vulcano.
Se dás que te acompanhe, eu vou contigo?

Gênio.
Bom grado, excelso deus.

Vulcano.
                                            Amigos, presto,
Tirai, trazei as armas que fizemos,
Vamos, mas devagar.

Gênio.
                                      Como te agrade.

 

CENA ÚLTIMA.

Vista do Templo do Heroísmo, no fundo do qual, em prospecto, se divisa o retrato de S. A. R. O PRÍNCIPE REGENTE Nosso Senhor.
Aparecem todas as personagens do drama: o Gênio Lusitano e a Paz ocupam o lado direito das aras; Vulcano e Vênus o esquerdo; os três Ciclopes e as três Graças ficam por detrás de Vulcano e Vênus, nos seus respectivos lugares; os mais seguem para diante como lhes cabe.

ÁRIA
Cantada por uma das Graças.

  PRÍNCIPE augusto,
Astro luzente,
A vossa gente
Vinde alegrar.

  Baixai das nuvens,
Nume sagrado,
Que o nosso fado
Vai melhorar.

  Que, as nossas penas,
Festivas cenas
Vão terminar.


Coro dos Ciclopes, respondendo aos acentos da ária precedente.

  Depois da horrível
Procela feia,
A luz febéia
Vemos raiar.

  E as sombras tristes
De névoa espessa
Já vão depressa
Descendo ao mar.

  Zéfiro brando
Vem adejando
De lar em lar.

As Ninfas e os Ciclopes, que põem sobre as aras as armaduras portuguesas, vêm cantando o seguinte

CORO

  Às armas lusos,
Briosa gente,
Que o céu clemente
Vos dá favor.

  Trilhai da glória
Os sãos caminhos
Por entre espinhos
De viva dor.

  Ó ireis subindo
Com rosto enxuto,
De fruto em fruto,
De flor em flor.

Findo este coro, dão princípio as danças do 2º intervalo.
Gênio, voltando-se para o retrato de S. A. R.

JURAMENTO
Perante a vossa efígie augusta e sacra,
Vasto sob'rano de nações diversas,
Cujo braço ostentoso alcança e rege
Os hemisférios dois co' as rédeas fulvas;
Perante a vossa efígie e sobre as aras
Onde eterno fulgor as nuvens doira,
Juramos pelo escuro estígio lago (18) ,
Nós, do grão-rei dos reis família e sangue,
Que os povos de Ulisséia esclarecidos
Inquietados serão, mas não vencidos.

Pirácmon (recitado)
PRÍNCIPE excelso, que regeis clemente
O mundo antigo e novo,
Da plaga ocidental ao Sol oriente
De variado povo,
Volvei benigno os paternais luzeiros
Às ínclitas falanges d' Ulisséia,
Vereis heróis guerreiros
Que afrontando a terrível morte feia
Gritam destros co' a espada sempre em uso
VIVA o SEXTO JOÃO REGENTE LUSO.

Os Ciclopes.

  Salve PRÍNCIPE excelente,
Salve ditosa nação,
Que dais ao mundo oprimido
A suspirada união.


As Graças.

  De grandes sucessos,
A mão justiceira,
Vos abre a carreira
D' ’eterno clarão.


Os Ciclopes.

  Salve PRÍNCIPE excelente,
Salve ditosa nação,


As Graças.

  Que dais ao mundo oprimido
A suspirada união.


Os Ciclopes.

  Nos fastos brilhantes
De Lísia incansável,
Será memorável
Um SEXTO JOÃO.

As Graças.

  Salve PRÍNCIPE excelente,
Salve ditosa nação,

Todos.

  Que dais ao mundo oprimido
A suspirada união.

FIM


NOTAS

(1) Esta edição baseia-se no exemplar do libreto da Divisão de Obras Raras da Fundação Biblioteca Nacional , Rio de Janeiro (37.6.3). A ortografia foi modernizada e a pontuação atualizada; abolimos o uso de  maiúsculas para os substantivos comuns. Edição em HTML e notas de Paulo Mugayar Kühl . Projeto financiado pela FAPESP. As notas do autor estão indicadas como N. do A.

(2) Syrus a Demea, em Adelphoe: "Saber é não apenas ver aquilo que está diante de nossos olhos, mas, também, antever o que existirá".

(3) Na verdade, a citação é da Ode XXV do Livro 3, vv. 17-18: "Nada de limitado e humilde/ nem de mortal falarei".

(4) Existe alguma confusão com relação aos dados desta apresentação. O libreto e a Gazeta do Rio de Janeiro indicam que a obra foi apresentada na abertura do Teatro São João, em 12 de outubro de 1813, "em aplauso do augusto nome de S. A. R.", ou seja, o nome do teatro como homenagem ao príncipe regente D. João, mas não em seu dia onomástico (24/06). Mais adiante, o libreto apresenta o elogio a D. Pedro. A Gazeta de 17/10/1813, dando prosseguimento à descrição do evento, afirma: "Terça-feira 12 do corrente, dia felícissimo por ser o natalício do sereníssimo Sr. D. Pedro de Alcântara, príncipe da Beira, se fez a primeira representação no Teatro de São João, a qual S. A. R. foi servido honrar com a sua real presença e da sua augusta família", confirmando assim a informação anterior.

(5)  Il pastor fido, Ato IV, cena 6, vv. 25-30. Fala dos pastores:

          Quem quer gozar os prazeres,
         Sofra primeiro os incômodos,
         Não de um repouso infrutífero e vil,
         Pois o esforço aborrece,
         Mas do esforço, que a virtude antecipa,
         Nasce o verdadeiro repouso.

(6) Falo dos magníficos teatros de Roma, de Pompeu Marcelo e de Cornélio Balbo. N. do A.

(7) Todos sabem que os filósofos atenienses desejando tornar mais persuasivas e suaves as verdades da sã Filosofia, deram princípio às composições dramáticas, que se faziam representar em carros pelos lugares mais públicos das povoações, como Horácio se exprimiu pelos seguintes versos:

Ignotum tragicæ genus invenisse Camenæ
Dicitur et plaustris vexisse poemata Thespis,
Quæ canerent agerentque peruncti fæcibus ora. N. do A.

[Ars Poetica, 275-277: "Segundo consta, Téspis foi o inventor do até então ignorado gênero da Camena trágica e transportava em carretas poemas que atores cantavam e representavam de cara besuntada de borra". Tradução de Jaime Bruna, in Aristóteles, Horácio, Longino, A Poética Clássica , São Paulo, Cultrix, 1997]

(8) Os habitadores de Esparta (como é sabido) para fazerem conceber a seus filhos o bem merecido horror à intemperança, embriagavam os escravos para bailarem e se fazerem pantomimos à vista deles. N. do A.

(9) Célebres comediantes franceses. N. do A.

(10) Viva, na acepção enérgica. N. do A.

(11) Avultar, na acepção de crescer. N. do A.

(12) Mando militar. N. do A.

(13) Juno usa destas expressões quando implora socorro de Éolo. N. do A.

(14) Assenta-se, reclinando o corpo sobre o mesmo arbusto. N. do A.

(15) Deita fora as insígnias com desprezo. N. do A.

(16) Colhe do chão as insígnias, que lhe põem na cabeça e mãos. N. do A.

(17) Declaro que me refiro, em tudo, aos heróis mencionados na Comédia do Combate do Vimeiro, representada nos teatros de Lisboa. N. do A.

(18) Põem as quatro divindades as mãos nas aras. N. do A.
 
   

09-Dec-2002