Noite de S. João (1)

Opera comica em um Acto.

Rio de Janeiro

Empreza Nacional do Diario

Rua do Rosario n. 84

1857



A Noite de S. João

     O que aí vai, não sei se verdadeiramente o que é; chamei-lhe ópera cômica outros dirão que não passa de uma coleção de maus versos, sem metrificação, sem harmonia.
     Não importa. Se alguns dos nossos jovens compositores entenderem que isto merece as honras do teatro, a melodia da música disfarçará a dissonância da versificação.
     Se me resolvi a publicar este trabalho incorreto e feito às pressas, foi unicamente para facilitar a leitura àqueles mesmos que o quiserem aproveitar; não tive outro fim, nem tenho outra aspiração senão dar aos talenntos musicais um pequeno tema para desenvolverem.
     Não espero nada de semelhante publicação; pois ninguém ignora que a poesia lírica de uma ópera fica inteiramente obscurecida pela música.
     Mery com o seu espírito já observou, a propósito de Rossini, que tanto pior, incorreto e anti-gramatical era o verso, tanto mais sublime fora a inspiração do gênio.
     Na Itália o poeta de óperas, ou o fazedor de versos, é um empregado como o contra-regra, o ponto, o pintor de vistas; ele pertence ao maquinismo do teatro; com a simples diferença que exerce a sua arte sobre palavras, enquanto os outros a excercem sobre o cenário.
     À vista disto, creio que não entrará na cabeça de ninguém pretender uma mínima parcela de glória escrevendo uma ópera; isto é, a mais absurda, e a mais extravagante das composições dramáticas, a que só a música com o seu mágico poder anima e dá vida.
     Ao contrário, fazer uma ópera deve ser, e é, para um homem que tenha um pouco de gosto literário, um sacrifício; sacrifício de tempo, sacrifício de idéia, sacrifício de personalidade; porque nesse gênero de drama é muitas vezes preciso que o pensamento do autor se modifique, para subordinar-se à inspiração do professor.
     Entretanto, é mister que aqueles que amam a música façam esse sacrifício; outros, segundo me consta, já deram o exemplo; seja-me permitido pois apresentar também a minha pequena oferenda no templo das artes.
     Agora duas palavras sobre o motivo e a idéia desta composição.
     O enredo é o que há de mais simples e de mais natural naqueles tempos de boas crenças que já lá vão. É uma lenda muito conhecida sobre a noite de S. João.
     Em Portugal a flor sibilina era a alcachofra, tão cantada por Garrett e pelos outros poetas portugueses; mas a crença popular lá e aqui no Brasil dava a mesma virtude a outras plantas, sobretudo ao alecrim, talvez pela facilidade de transplantar-se por galho, o que fazia que a sorte agradasse a todos.
     Pode ser que notem alguns muita inocência e muita ingenuidade no amor que forma a pequena ação desta ópera; mas se refletirem que a cena se passa em 1805 no Rio de Janeiro, então colônia, em época de abusões, de prejuízos, de crenças e tradições profundas, ainda não destruídas pela civilização, de certo não estranharão como defeito aquilo que só é naturalidade.
     Quanto às regras artísticas deste gênero de composição, segui as que me pareceram melhores e muitas vezes a imaginação; entretanto, podem ser modificadas ao gosto do professor que escrever a música.
     Sobre a metrificação, há uma questão que não está resolvida entre nós; e é que valor têm os ditongos no verso como sílabas, se formam um pé ou dois. Ordinariamente isto fica ao arbítrio do autor, que se guia pela cadência.
     Eu deixo ao arbítrio do compositor/ se a união ou divisão dos ditongos soar mal em música, poderá alterar-se o verso como for melhor e mais harmônico.
     O mesmo pratiquei a respeito das vogais. Lendo-se um verso, há elipses naturais que se fazem pela simples pronúncia; entretanto que cantando-se, e dividindo-se as sílabas pelas notas, pode não dar-se a subtração.
     Eis o que julgo necessário dizer àqueles a quem dedico esta ópera; aos literatos não me dirijo, porque já adverti que isto não é um trabalho feito com esmero; é uma simples tela em branco que o compositor se incumbirá de colorir.
     Finalmente, tendo sido o meu desejo, escrevendo isto, somente o ver uma ópera nacional de assunto e música brasileira, cedo de bom grado todos os meus direitos de autor àquele que a puser em música o mais breve possível.

Rio de Janeiro, 25 de outubro de 1857.
J. de Al.


PERSONAGENS

ANDRÉ. - Tabelião do Rio de Janeiro, 59 anos.
CARLOS. - Sobrinho de André, 19 anos.
IGNÊS - Filha de André, 16 anos.
JOANA - Velha cigana, 50 anos.

Coro de rapazes e moças e de famílias que vão à festa de S. João em Botafogo.

A cena é num arrabalde da cidade do Rio de Janeiro, em Botafogo, no ano de 1805.


A NOITE DE S. JOÃO.

Uma rua campestre formada de cercas de espinheiros. No fundo aparecem chácaras. À direita a casa de André com um alpendrado na frente, e um jardinzito ao lado, À esquerda continuação da rua. No centro um tamarineiro à sombra do qual está colocado um banco tosco. Ao longe vê-se o clarão das fogueiras e dos foguetes.

São 9 horas da noite.


Cena I.

FAMÍLIAS, MOÇOS, MOÇAS que vão à festa,

VOZES DESTACADAS.

Viva S. João
Santo folgazão!

CORO DE RAPAZES E MOÇAS.

Ao clarão das fogueiras
Meus amigos, brinquemos!
Alegres companheiras,
S. João festejemos.

CORO DE RAPAZES.

Boa sorte, moça gentil,
Boa sorte lhe dê o fado;
E que se case em abril
Com quem for do seu agrado.

CORO DE MOÇAS.

Boa sorte, gentil senhor,
Hoje lhe dê S. João;
Que não veja maio em flor
Sem ter preso o coração.

CORO DE RAPAZES E MOÇAS.

Saindo.

Ao clarão das fogueiras,
Meus amigos, brinquemos!
Alegres companheiras,
S. João festejemos.

Cena II.

INÊS.

Só.

Quando o coro vai saindo, Inês aparece no alpendre, acompanha-o algum tempo com os olhos, depois desce a escada.


INÊS.

Como alegres vão
Brincar e dançar!
E eu só a rezar
A minha oração.

Desce a cena.

Meu bom S. João,
Tu que estais no Céu,
Livrai-me do véu
E da profissão.

Meu pai quer-me freira;
Freira não serei;
Minha alma já dei
Em qu'ele não queira.

Eu te amo, meu Deus!
Da vida os momentos,
Os meus pensamentos,
Bem sabes, são teus!

Mas o coração,
Esse me fugiu,
De mim se partiu;
Já não é meu; não!

Senta-se e fica pensativa.

Cena III.

INÊS, CARLOS.


Carlos entra sem ser percebido, e vê Inês pensativa e com as mãos juntas.

CARLOS.

Ela, reza; a oração
E' todo o seu pensamento;
E mal sabe o sofrimento
Que tenho no coração.

Quer fugir-me! Não me ama,
Para sempre a vou perder!
O que me resta?... O dever.
Soldado, a pátria te chama.

Aproxima-se de Inês e contempla-a com enlevo.

Ah! Quando de Deus o véu
Te roubar ao meu amor,
Serás, graciosa flor,
A minha estrela no céu.

A menina ergue os olhos, e vendo Carlos assusta-se.

INÊS.

Ah! meu primo!...

CARLOS.

Inês!...

INÊS.

Tão cedo voltou...
A festa acabou?

CARLOS.

Não; mas desta vez
Não lhe acho prazer.

INÊS.

Por quê?

CARLOS.

Sou soldado;
Tenho outro cuidado,
Vou talvez morrer.

INÊS.

Suplicante.

Carlos, se me estima,
Não me fale assim!

CARLOS.

Com ironia.

No convento, prima,
Rezará por mim.

INÊS.

Ah! por compaixão
Mude de tenção!

CARLOS.

Não, não; eu jurei,
Soldado serei.

INÊS.

Despeitada.

Eu, freira professa;
Serei abadessa.

CARLOS.

Corro ao campo da vitória,
Vou a pátria defender;
O soldado que ama a glória
Deve por ela morrer.

INÊS.

Corro ao claustro, a solidão
Minha alma a Deus oferecer;
Quem ama a religião
Deve a ela pertencer.

CARLOS E INÊS.

Adeus, Rio de Janeiro,
Adeus, campo onde nasci,
Meu belo tamarinheiro,
Vou viver longe de ti.

Adeus, meus alegres dias,
Adeus, flores que plantei,
Águas, céus, que me sorrias,
Adeus, tudo quanto amei!

CARLOS.

Adeus,
Oh! amores meus,
Que vou combater
Pelo rei, por Deus
Vencer ou morrer.

INÊS.

Adeus,
Oh! amores meus,
Que vou pertencer
Ao senhor meu Deus,
Por ele viver.

Cena IV.

INÊS, CARLOS, ANDRÉ
André entra cantando.

ANDRÉ.

Que bela função!
Ua soberba ceia,
Barriga bem cheia,
Viva S. João!

CORO.

Ao longe.

Viva S. João
Santo folgazão.

CARLOS E INÊS.

A parte.

Oh! que comilão!
Oh! forte glutão!

ANDRÉ.

Que bela função!
Tanto inhame assado,
Bolos com melado,
Viva S. João!

CORO.

Ao longe.

Viva S. João
Santo folgazão!

CARLOS E INÊS.

A parte.

Oh! que comilão
Oh! forte glutão!

ANDRÉ.

Que bela função!
Tiros e foguetes,
Canjica e roletes,
Viva S. João!

CORO.

Ao longe.

Viva S. João
Santo folgazão!

CARLOS E INÊS.

A parte.

Oh! que comilão
Oh! forte glutão!

Carlos e Inês chegam-se a André e querem falar-lhe ao mesmo tempo; puxam-lhe ora por um braço, ora por outro.

CARLOS.

À direita.

Ah! Meu tio!

INÊS.

À esquerda.

Meu pai!

CARLOS.

Pretendo partir.

INÊS.

Quero te pedir...
Por Deus escutai!

CARLOS.

Quando amanhecer...

INÊS.

Já neste momento...

CARLOS.

Soldado vou ser...

INÊS.

Me mande ao convento.

CARLOS.

Ah! Meu tio!

INÊS.

Meu pai!

CARLOS.

Eu vou combater.

INÊS.

Freira quero ser...
Por Deus, escutai!

ANDRÉ.

Interrompendo-os

Com a breca!
Forte seca!

Pelo grande Santo André,
Meu divino padroeiro,
Entendam-se, por quem é;
Fal' um de vocês primeiro.

Um me puxa daqui,
Outro puxa dali;
Um me grita de cá,
Outro escute de lá!

CARLOS. INÊS.

Oh! meu tio!... ..... Meu pai!
Desejo partir .......................
......................... Quero te pedir...
Por Deus, escutai! Por Deus, escutai!
Ao amanhecer... ...............................
.......................... Já neste momento...
Soldado vou ser... ................................
............................. Me mande ao convento.
Oh! Meu tio!..... ........... Meu pai!
Eu vou combater ............................
........................... Freira quero ser,
Por Deus, escutai! Por Deus, escutai!

ANDRÉ.

Arremedando.

Oh! Meu tio! Meu Pai!
Desejo partir....
Quero te pedir....
Por Deus, escutai!

Quando amanhecer....
Já neste momento....
Soldado vou ser....
Me mande ao convento.

Oh! Meu tio! Meu pai!
Eu vou combater....
Freira quero ser....
Por Deus, escutai!

Pausa.

Cada um por sua vez
Fale claro e compassado;
Vem cá, filha, minha Inês,
Fale, senhor estouvado.

A Inês.

Vem cá!

A Carlos.

Vem cá!
Ponham isto já
Em trocos miúdos.

Pausa.

Então ficam mudos?

CARLOS.

À parte.

Oh! Ela se cala!

INÊS.

A parte.

Oh! Ele não fala!

CARLOS.

A parte.

Se arrependeria!

INÊS.

A parte.

Meu Deus! Mudaria!....
Pois eu não! Não mudo.

CARLOS.

A parte.

Eu não me arrependo.
Dá um passo.

INÊS.

A parte.

Ah! vai dizer tudo!

CARLOS.

A parte.

Como estou sofrendo!

ANDRÉ.

Não tugem.
Nem mugem.

INÊS.

À parte. Alto.

Vamos! Animo!.... Meu pai,
Uma graça só vos peço;
Ao convento me mandai,
Com prazer vos obedeço.

CARLOS.

Meu tio e Sr. André,
Uma graça só vos peço;
Dai-me espada e boldrié,
Sou valente; eu o mereço.

ANDRÉ.

Bravo! bravo! meus meninos,
Eu vos dou minha benção;
Seguireis vossos destinos,
Tal era minha tenção.

À Carlos.

Serás Soldado.

À Inês.

Terás o véu.

INÊS.

A parte.

Oh! Malfadado!

CARLOS.

A parte.

M'a rouba o céu!

ANDRÉ.

Ai! que bela vida!
Sozinho comendo,
Boa pinga bebendo.
Livre e descansado,
Sem outro cuidado!

CARLOS.

Oh! Que bela vida!
Valente soldado
Com a espada ao lado
No largo do Paço
Uma guarda faço.

INÊS.

Ah! Que bela vida!
Noiva do senhor,
Cheia de puro amor,
São alegres sonhos
Meus dias risonhos.

ANDRÉ.

A parte.

Oh! Que triste vida!
Ilusão perdida!
Sozinho comendo,
Sozinho bebendo,
Fico solitário
Qual celibatário!
Pensando,
Lembrando,
Os tempos que aqui
Com eles vivi!

CARLOS.

À parte.

Oh! Que triste vida!
Ilusão perdida!
Misero soldado
Com a espada ao lado,
No largo do Paço
Longas horas passo!
Pensando,
Lembrando,
Os tempos que aqui
Com ela vivi!

INÊS.

A parte.

Ah! Que triste vida!
Ilusão perdida!
Freira do Senhor,
Viúva de amor,
São pálidos sonhos
Meus dias tristonhos!
Pensando,
Lembrando,
Os tempos que aqui
Com ele vivi!

CENA V.

JOANA.

Só.

Joana entra lentamente logo que a cena fica deserta.

JOANA.

É perto de meia-noite;
As estrelas já se apagam;
Os maus espíritos vagam;
E não sei onde me acoite.

Ah! quantos neste momento
Esperam sua boa sorte;
Mas o meu padecimento
Só espera pela morte.

Senta-se.

Cena VI.

INÊS, JOANA.

Inês aparece no alpendre procurando.

INÊS.

Pareceu-me ouvir alguém!....
Ah! Uma pobre mulher.
Coitada, nem capa tem....

Adianta-se

Boa velhinha, o que quer?

JOANA.

Nada, formosa menina,
Do mundo nada desejo.

INÊS.

Perdoe; mas no rosto vejo,
Que sofre, que se amofina.

JOANA.

Sinto fome; sinto frio,
Não tenho um a brigo, filha;
Pedi pão, ninguém me ouviu;
Me chamam de maltrapilha.

Os ricos do seu jantar
Não me dão nem as migalhas;
Não me deixam repousar
Nem mesmo em cima das palhas.

INÊS.

Coitada! Venha comigo,
Aqui terá um abrigo.

Aponta para a casa

Aquele teto não cobre
Riquezas nem abastança;
Mas o desgraçado, o pobre
Ali entra, ali descansa.

Aquela porta não guarda
Senão a nossa humildade;
Mas ao passante, que tarda,
Não nega hospitalidade.

JOANA.

Acho enfim um seio amigo,
Terei aqui um abrigo.

Aponta para a casa.

Aquele teto não cobre
Riquezas nem abastança;
Mas no coração do pobre
Ali vive a esperança.

Aquela porta não guarda
Senão a santa humildade;
Mas ah!.... por ela não tarda
Que não entre a f'licidade.

Entram na casa.

Cena VII.

ANDRÉ, CARLOS.

A cena fica um momento deserta. Entram Carlos que vai à janela e deita um ramo de flor; e André que sai de casa pensativo.

CARLOS.

Na janela.

Venho pela ultima vez
Saudar meus tristes amores,
Deixar aos teus pés, Inês,
A minha alma nestas flores.

ANDRÉ.

Do lado oposto.

'Stá me dando seu cuidado
Essa teima dos pequenos;
Um embirra em ser soldado
Outra freira, nada menos.

CARLOS.

Vendo André.

Ai! o Tio!.... E esta agora!
Se me pilha aqui metido,
Deita-me de casa fora;
Fico pr'a sempre perdido!

ANDRÉ.

Pensativo sem ver Carlos.

Vou depressa aconselhar-me!
Frei João d'Amor Divino
Desta alhada há de tirar-me;
E' homem de grande tino.
Muito bem,
Corro e já.

CARLOS.

Assustado.

Ele vem
Para cá!

ANDRÉ.

Estremece ouvindo rumor.

Hem!.... Ouvi!

CARLOS.

Me sentiu!

ANDRÉ.

Me iludi!

CARLOS.

Não me viu!

ANDRÉ.

Corro e já
Sem demora.

CARLOS.

Vem p'ra cá
E' agora.

Os dois adiantam-se; Carlos para fugir; André para sair; esbarram-se no meio da cena e recuam soltando um grito.

ANDRÉ.

Tremendo.

Jesus, Maria, José
Nem me posso ter em pé!

CARLOS.

Rindo.

Quá! quá! quá! O tio André
Nem se pode ter em pé.

ANDRÉ.

Tremendo.

Ai!.... Pelo sinal,
Da.... da Santa Cruz;
Livrai-me Jesus
De.... de todo o mal.

Ai!.... Ave Maria
Tão cheia de graça;
Ai! Valei-me um dia,
E nesta desgraça.

Ui! meu Padre nosso
Que no céu estais....
Ah! que já não posso!....
Bendito sejais!

Ai! Salve Rainha
Nesta benta hora;
Advogada minha;
Valei-me, Senhora!

CARLOS.

Rindo.

Faz pelo sinal....
Sim! da Santa Cruz;
Grita por Jesus
Que o livre do mal.

Reza Ave Maria
O velho barbaca;
Há quem não se ria
D'uma tal desgraça!

Temos Padre nosso,
Bendito sejais!
Ai! que já não posso,
Não! não posso mais.

Oh! Salve Rainha!....
Dei't hoje p'ra fora
Toda a ladainha!....
O que falta agora?

André e Carlos cantam as coplas acima alternadamente.

ANDRÉ.

Tomando coragem.

Se és uma alma d'outro mundo
Qu'andas por aqui penando;
Pela cruz benta te mando
Que voltes já ao profundo.

CARLOS.

Pensa.

Oh! que idéia! Vou m'escapar!
És da gula pecador...
Morrerás como um tambor...
Mas hoje podes passar.

ANDRÉ.

Senhora do Livramento,
Livrai-me desta desgraça!

CARLOS.

Vamos! Obedece! passa!
Isto já, neste momento!

ANDRÉ.

Lá vou!

Sai correndo.

CARLOS.

Passou!

Respira.

Apre! eu mesmo inda não sei
Como desta me safei!

Olhando para o terraço.

Porém ai chaga Inês,
Vou me esconder outra vez.

Esconda-se à direita.

Cena VIII.

INÊS, JOANA, CARLOS à parte.

Ouve-se rumor da festa.

JOANA.

Lá festejam S. João,
Também eu já festejei
Quando tinha um coração,
Quando fui moça e amei.
Ah! que tempos já lá vão!

INÊS.

Eram bem lindas então
As festas que se faziam?
Os moços nessa função
As moças o que diziam?
Em casamento as pediam?

CARLOS.

À parte.

Que tal! Para uma freira
'Stá muito perguntadeira!

JOANA.

Oh! Quando chegava o dia
Logo cedo me enfeitava;
Que doce e santa alegria!
Com que prazer não brincava,
E a sorte não esperava!

CARLOS.

À parte.

Ai! Como está derretida
Esta velha delambida.

INÊS.

A sorte?... De que maneira?

JOANA.

Inda me lembro; era assim:
Uma velha feiticeira
Da festa quase no fim
Dizia ás outras e à mim:

CANÇÃO.

"Filha, à meia noite irás
Sozinha lá no jardim;
De joelhos colherás
Um raminho de alecrim.

"Plantarás mesmo ao relento;
Se o raminho florescer,
Conseguirás teu intento;
E feliz terás de ser.

"Às vezes vem um anjinho
Bafejar a linda flor;
Ele te dirá baixinho:
- Deus protege o teu amor. "

INÊS.

E sucedia tal qual
A feiticeira dizia?

JOANA.

Fosse bem, ou fosse mal,
Por força que sucedia.

CARLOS.

À parte.

Oh! Meu Deus, Qu' inspiração!
Se eu consultasse S. João?

INÊS.

À parte.

Oh! Meu Deus, Qu' inspiração!
Me palpita o coração.

CARLOS.

À meia-noite eu irei
Sozinho lá no jardim;
De joelhos colherei
Um raminho de alecrim.

Plantarei mesmo ao relento;
Se o raminho florescer,
Conseguirei meu intento,
Inês minha tem de ser.

Do céu virá um anjinho
Bafejar a linda flor;
Ele me dirá baixinho:
- Deus protege o teu amor.

INÊS.

À meia noite eu irei
Sozinha lá no jardim;
De joelhos colherei.
Um raminho de alecrim.

Plantarei mesmo ao relento;
Se o raminho florescer,
Conseguirei meu intento,
De meu primo eu hei de ser.

Do céu virá um anjinho
Bafejar a linda flor;
Ele me dirá baixinho:
- Deus protege o teu amor.

CORO.

Ao longe.

E' já noite dada
E' a hora bem fadada!
CARLOS E INÊS.

E' já noite dada
E' a hora desejada!

Saem furtivamente cada um do seu lado, sem se verem e entram no jardim.

Cena IX.

JOANA.

Só.

Ergue-se e vai sair.

JOANA.

Vós, que pagais pelo pobre
A esmola da caridade,
A quem este teto cobre,
Daí, Deus, felicidade.

Vou além, breve morrer,
Longe de um olhar amigo;
Mas não quero entristecer
Da paz este doce abrigo.

Sai.

Cena X.

CARLOS, INÊS.

Entram do jardim sem se verem, trazendo cada um deles um raminho de alecrim.


INÊS, CARLOS.

Florirás? Não florirás,
Meu raminho de alecrim?
E boa sorte me darás?
O coração diz que sim.

Linda, feiticeira flor,
Flor deste meu coração!
Às falas do meu amor
Oh! não me respondas - não.

Deus te fade, bem fadada,
Gentil e mimosa palma.
Que vicejes à alvorada,
Flor querida de minha alma.

Sobem à cena e vão plantar o ramo de alecrim no mesmo vaso que está sobre o pilar do alpendre. Suas mãos se tocam; recuam assustados.

INÊS.

À parte.

Ah! me Deus! O que seria!...
Que susto que me causou!

CARLOS.

À parte.

Oh! pareceu-me que via
Um vulto que me tocou!

INÊS.

À parte.

Sim! Eu senti.... outra mão
A minha mão apertou!

CARLOS.

À parte.

Não; não foi uma ilusão!
A vista não me enganou!...

Ficam pensativos.

CARLOS E INÊS.

À parte.

Ah! já me lembro!... sim... sim!
A velha falou assim:
"Ás vezes vem um anjinho
Bafejar a linda flor;
Ele te dirá baixinho:
- Deus protege o teu amor. "

INÊS.

Sim! Foi o anjinho de Deus
Que meu rosto bafejou;
E que nos dedinhos seus
A minha mão apertou.

CARLOS.

Sim! foi o anjinho de Deus
Que meu rosto bafejou;
Foram os dedinhos seus
Que minha mão apertou.

CARLOS E INÊS.

Descem.

Meu bom anjinho,
Vou te pedir
Que o meu raminho
Faças florir

E com a flor
Que vai se abrir,
O meu amor
Veja sorrir.

Chegam-se de novo ao vaso para plantar o alecrim.

INÊS.

À parte.

Ah! Sinto-o junto de mim!
Me cerra a mão outra vez!

CARLOS.

À parte.

Que mãozinha de alfenim!
Ah! se fosse a mão de Inês...

IGNES.

À parte.

Se eu lhe falasse...


CARLOS.

À parte.

Se a abraçasse...

INÊS.

À parte.

Se eu lhe contasse...

CARLOS.

À parte.

Se eu a beijasse...

INÊS.

À parte.

Talvez cumprisse
O meu desejo.

CARLOS.

À parte.

Talvez sorrisse
Com o meu beijo.

INÊS.

À parte.

Vou lhe falar,
Já não hesito.

CARLOS.

À parte.

Devo-a beijar,
Lá vai! 'stá dito!

Aproximam os rostos, Inês que vai falar recebe na face o beijo de Carlos e fica trêmula e confusa.

INÊS.

Ai! deu-me um beijo!

CARLOS.

Meu Deus! Que vejo!

INÊS.

Ah! Carlos!

CARLOS.

Inês!

INÊS.

Meu primo!

CARLOS.

A olhá-la nem me animo!

Pausa.


INÊS.

Confusa.

Vinha também ao jardim
Plantar o seu alecrim?

CARLOS.

Tomando-lhe a mão.

Sim, meu anjinho,
Vim te pedir
Que o meu raminho
Faças florir.

E com a flor
Que vai se abrir,
O meu amor
Veja sorrir.

INÊS.

Não sou anjinho
P'ra me pedir
Que o seu raminho
Faça florir.

Mas com a flor
Que vai se abrir,
O nosso amor
Vejo sorrir.

Repetem o dueto: André entra, e ouvindo aproxima-se; vê os dois que se abraçam.

Cena XI.

OS MESMOS, ANDRÉ.

ANDRÉ.

Chegando-se.

Olé! 'stá bonita!
Ande lá! Repita!...

INÊS.

Assustada.

Ah! Meu pai...

CARLOS.

Assustado.

Meu tio!

INÊS.

Trêmula, à parte.

Meu Deus!

CARLOS.

Confuso, à parte.

Estou frio!

ANDRÉ.

Quem viu um soldado
Assim namorado?...
Quem viu uma freira
Tão namoradeira?...

CARLOS.

Ah! Meu tio!... perdão!
Dava à pátria a vida,
Mas o coração
E' de Inês querida.

INÊS.

Ah! meu pai!... perdão!
Sua filha querida
Deu-lhe o coração,
Deu-lhe mais que a vida.

CARLOS.

Era só por ela
Que eu queria morrer;
Sem a minha estrela
Não podia viver.

INÊS.

Era só por ele
Que eu queria o véu;
Se não fosse dele,
Seria só do céu.

ANDRÉ.

Bem diz Frei João
Que é espertalhão:
"Menina que reza
A todo momento;
Qu' anda sempre lesa,
E pensa em convento;
Não sabe o que quer
A sonsa mulher?
Quer só casamento. "

Bem diz Frei João
Que é espertalhão;
"Rapaz que só trata
De ser militar;
Que só tem bravata,
E vive a brigar;
Não sabe o que quer?
Quer achar mulher
Para se casar. "

CARLOS.

Ah! meu tio!... perdão,
Era só por ela, etc.

INÊS.

Ah! meu pai!... perdão,
Era só por ele, etc.

ANDRÉ.

Já sei! Já ouvi!
Estão de namoro!
Oh! tudo entendi...
E' um desaforo!

Pausa: Carlos e Ignes estão cabisbaixos.

Mas no fim de contas
Melhor é casar;
Cabecinhas tontas
Sempre andam no ar.

Alegria de Carlos e Inês que abraçam André.

Cena XII.

OS MESMOS, FAMILIAS que voltam da festa.

CORO.

Entrando.

Lá morrem as fogueiras,
A cinza já não arde:
Alegres companheiras,
Vamos! vamos! que é tarde.

Acabou toda a festa
Adeus , meu S. João!
Agora só nos resta
Das sortes o condão.

Fugiu-nos o prazer
À cidade tornamos;
Já vai amanhecer,
Meus amigos partamos!

INÊS.

O meu amor
Era uma flor
Do coração
Inda em botão;
Veio S. João
E a fez abrir
E a fez sorrir
E se expandir.

CORO.

E sorrir,
E florir.

INÊS.

Era minha alma
Qual uma palma
Da oração
Na isenção;
Veio S. João
E a fez abrir,
E a fez sorrir
E se expandir.

CORO.

E sorrir,
E florir.

INÊS.

Meu coração
Era um botão
De linda Flor,
Porém sem cor;
Veio o amor
E o fez abrir,
Se colorir,
E se expandir.

CORO.

E sorrir,
E florir.


ANDRÉ E CARLOS.

E sorrir,
E florir.

CORO.

Saindo.

Lá morrem as fogueiras,
A cinza já nem arde;
Alegres companheiras,
Vamos! vamos! que é tarde.

F I M.


NOTAS

(1) Esta edição baseia-se no exemplar da Divisão de Música e Arquivo Sonoro da Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. A ortografia foi modernizada e a pontuação atualizada; abolimos o uso de maiúsculas para os substantivos comuns. O libreto publicado no Rio de Janeiro, Tip. de F. de Paula Brito, em 1860, é ligeiramente diferente daquele aqui apresentado. A obra passa a ser uma "comédia lírica em dois atos" e não mais uma "ópera cômica em um ato". O autor modifica um pouco o texto introdutório e transfere a ação para São Paulo, "nos tempos coloniais". A nova introdução é datada de 16 de agosto de 1860. Se na introdução algumas partes foram cortadas, no texto propriamente dito existem acréscimos de recitativos e árias e a divisão de algumas cenas que constavam do original. Essa segunda versão foi musicada por Elias Álvares Lobo. Edição em HTML de  Paulo Mugayar Kühl . Projeto financiado pela FAPESP.

  11-Dec-2002