PROLOGO DRAMATICO (1)

representado
no Theatro Constitucional Fluminense
No faustissimo dia
Dous de Dezembro de 1837
Composto por
Manoel Araujo Porto Alegre
Musica do Mestre
Candido José (2) da Silva.
Rio de Janeiro,
Na Typ. Imparcial de F. P. Brito,
Praça da Constituição n. 66
1837.


INTERLOCUTORES

Anjo da Verdade - João Caetano dos Santos
Brasil - José Romualdo
Satã - João Antonio da Costa
Folia - Estella Sezefreda

Gênios infernais, duas Províncias e figuras alegóricas representando as Ciências e Artes.


Homenagem a S. M. o Senhor D. Pedro II, Imperador Constitucional do Brasil,

no Faustíssimo dia dous de dezembro de 1837.

Por João Caetano dos Santos, artista do teatro fluminense e diretor da companhia dramática.


PRÓLOGO DRAMÁTICO

ATO ÚNICO

A cena representa uma caverna no centro da terra que tem do lado direito um círculo, cujo solo é de lava ardente e dá ingresso a um palácio inflamado; à esquerda uma galeria fosfórica: no centro um rochedo escabroso sobre o qual Satã estará sentado, e à roda dezesseis diabos, 8 com trompas, e 8 cantores dançando e formando grupos com as figuras que representam os vícios do homem.

CENA 1

CORO DOS DIABOS.

  Nasce, o homem, pois vive, pois morre,
Rega a terra c'o pranto das dores,
E da vida não colhe essas flores,
Que produz o jardim do prazer.

  A virtude é quimera inventada
Por hipócritas, falsos profetas;
Vinde, vinde, oh mortais, que a falange
Do prazer já vos toca as trombetas.

  Esse deus qu'imaginam é o ouro,
Porque o ouro desfaz e refaz;
A moral, a justiça, o valor,
Tudo o ouro comprar é capaz.

SATÃ.

  Cantai, cantai
Eternamente
Do crime o hino
A todo ente.

CORO.

  Sobre o peito da inocência
Já mil crimes insuflamos,
E à paz da humanidade
Eterna guerra juramos.

SATÃ.

  Seja amor incesto sempre,
Seja o rei sempre tirano,
Soldados, povo, traidores,
E o sacerdote inumano.

CORO.

  Sobre as grimpas dos templos mais altos,
Sobre o trono dos reis e seu solo,
O veneno, a desgraça, lançamos
Desde o Ártico ao Antártico pólo.

SATÃ.

A missão infernal cumpriste à risca,
E a conquista do mundo, ao certo, é nossa.
Respire do prazer alma alegria
Nestes átrios da noite e dos tormentos.
Oh sóis do inferno - iluminai-vos vinde (Luzes )
Meu paço abrilhantar, dar lustre à cena,
Que se vai desdobrar; cena importante
Para encher a lacuna que se encontra
No código infernal, nesse moimento,
Que o primeiro mortal traçou c'um crime;
E de crimes a crimes os humanos
Seu fastígio levantam, té o encontro
Do extremo sol, que as portas deseixando
Da eternidade, deve num segundo
Rachar do firmamento a infinda cúpula,
E os astros mergulhar no caos paterno!

CORO.

  Nós deixamos o céu, é verdade,
Mas qu'império na terra não temos?
Sobre o mar, sobre a terra movemos
Mil guerreiros, a peste e a fome.

  Vamos, vamos
Celebrar,
Nova cena
Conquistar
Esse Império
Que começa
Tão depressa
A prosperar.

SATÃ.

Ambição, Egoísmo, e tu, Vaidade,
Unidas co'a Ignorância, estes lugares
Abandonai; trazei perante o trono
Esse Jovem Brasil, que agora enceta
A marcha das nações; venha a Folia.
A turba presidindo, alta magia
Suas vistas fascine; mil perfumes,
Lisonjeiros festões a fronte lhe adornem,
Que os moços no prazer sempre s'engolfam;
O passado p'ra eles foi um sonho,
O futuro se antolha qual quimera,
No presente se firmam, isto lhes basta. (Vão-se ).
Tu Orobosque, vai, via mais curta,
Atravessa da terra, em linha reta,
As minas mais profundas, vai ao antro,
Onde habita a Discórdia, mil alfanjes,
Ensangüentadas armas e cadeias,
Mil algemas, patíbulos e cárceres,
Tudo seja com flores espargido;
O rótulo mais santo lhe orne o externo,
E o manto da virtude os acoberte.
Migalós, presto, ao labirinto corre
Que conduz à caverna, onde labora
Falaz Intriga, despe-lhe essas vestes
De venenosas serpes entrançadas;
Imprime-lhe na face a paz concórdia,
Traja-a toda co'a mais límpida túnica.
A Calúnia desperta, orna-lhe o braço
C'o livro da verdade. Vamos, vamos
Que o Brasil se aproxima; circulai-o
No pórtico infernal; aliciai-o
Para a nossa conquista e seu triunfo. (Vão-se).

CENA II.

CORO.

  Glória, glória a Satã nos infernos;
Glória, glória ao sob'rano da terra;
Sua mente, seus planos não erra,
Os destinos dos homens são seus.

CENA III.

Entra a Folia dançando, vai ao trono, e Satã bate-lhe com o cetro na cabeça, ela volta, dançando, chega à porta e dá sinal. Entra o Brasil acompanhado: a música vai morrendo...

BRASIL.

Onde estou? De delírios em delírios
Meus passos se arrastaram! E eu cuidava
Penetrar a mansão da luz divina,
Para do meu futuro abrir a página
E a lição receber d'alta verdade!
Como perto do riso existe a lágrima!
Como perto da vida existe a morte!
Satânicos manejos saturastes
De melíflua lisonja, hino entoastes,
De narcótico acento e em vez de lira,
Férreos gládios na destra manobrando,
A meu peito visastes, basta, basta.
Meu anjo tutelar, vinde amparar-me
Neste ensejo cruel e inopinado.

SATÃ.

Jovem formoso, aplaca-te, meu filho;
Rude crosta te oculta um diamante.
Espargiu-o com flores; sôe em torno (Lançam-lhe flores).
Suave melodia, refrescando
Dulias doutrora místicas batalhas (3)
Quando nós entre astros deslizávamos,
Bebendo do universo essa harmonia,
Que estampara o autor da natureza. (Música suave ).

BRASIL

Será isto ilusão, ou realidade,
Nos átrios infernais 'stou eu acaso?

SATÃ.

Sim, e é para teu bem, p'ra tua glória.
Cuidas tu que o meu mando não preside
Aos destinos de toda a humanidade?
No mal vive a exp'riência, e nesta, a ordem;
Sem mim leis não teriam as nações,
Sem mim nula seria arte e ciência;
E a indústria que refunde a natureza
No seu prisco embrião teria estado!
Eu presido ao trovão, dirijo o raio
Sobre a cúp'la, floresta, e sobre as ondas
Que meu braço levanta ao viajante:
Meu hálito é poeira ensangüentada,
Minha voz, o canhão, meu pulso e braço
São falanges de agudas baionetas,
No campo da batalha, um só triunfo,
Um sorriso, um prazer o homem não goza
Sem que o tenha ordenado. N'ampulheta
Da história, cada bago val'um século;
Eu neles semeei os elementos
Que os muros derrocaram desses povos,
Que d'Ásia s'espalharam sobre a terra.

BRASIL

Tudo sei, mas em ti jamais confio.
Tua missão é o mal; réprobas asas
As espáduas t'adornam, onde elas passam,
A morte e a desgraça vão soprando
Teus olhos são cometas que rodeiam
Órbita infausta, pensas que acredito?
Teu poder é p'ra o mal, tu não me iludes.

SATÃ.

Sê meu, então verás como manobro
Perseguindo o contrário que tiveres.

BRASIL.

Quanto te apraz, persegue-o; mas só quero
Rever a luz do sol, dar fértil lustre
Às divas zonas que outorgou-me o Eterno,
Nos gigantescos rios espelhar-me,
Em meus bosques sombrios ouvir hinos
De multimodas aves, conculcando
Ouro e gemas que o mundo tanto almeja.

SATÃ.

Ouro e gemas não fazem as riquezas,
Nem os hinos das aves a ciência.
Deixa a natura, visa os teus prazeres,
Teus físicos prazeres ... Sê Império,
Não ente transitório sobre a terra,
A união faz a força, diz o vulgo,
Mas a história contesta um tal axioma.

BRASIL.

A união faz a força, a história o mostra;
Quero os filhos unir em almo amplexo,
E ampará-los co'a santa liberdade.

SATÃ.

Liberdade, palavra dos algozes,
Que gota a gota das nações o sangue
Nas aras da vingança imolam ávidos.
Liberdade, a palavra dos tiranos,
Que da taça de fel a borda adoçam,
Para atrair as crédulas crianças;
Fantasma que a ambição pare [sic] e destrói,
Quando atinge a baliza do comando.

BRASIL.

Avante não irá tua cilada;
Basta, que em Deus confio os meus destinos.
Meu anjo tutelar, vinde amparar-me
Neste ensejo cruel e inopinado.

SATÃ.

Tu és meu; duas coisas só te restam
Para salvo viveres: rasga o Código
Que de nada te serve, rompe tudo,
Deposita num homem teu futuro,
Não de sangue real - terás um déspota,
Circulado de tantos outros déspotas.
Nada de termo médio, toma o extremo
Ou separa teus membros, deixa-os livres ... (Uma voz dentro, trombetas).

ANJO.

Não.

SATÃ.

Que escuto?

BRASIL.

Oh meu Deus? Quem me socorre?
Meu Anjo tutelar vinde amparar-me,
Neste ensejo cruel e inopinado.

SATÃ.

Escuta-me, Brasil, percorre a história
De toda a humanidade, eu aqui tenho
De todas as nações o testamento:
Ei-lo patente, vê, corre estas páginas. (Abre-se um livro de fogo).
Neste livro dos homens, verás sempre
Cada idéia envolvida em mil pelejas,
Cada passo enlaçado em mil cadáveres.
Os arcos triunfais da velha Europa
Só têm por alicerce ossos humanos;
Eu só te posso dar a f'licidade;
Na taça das delícias, bebe, bebe;
Esse licor tão santo e saboroso
É um néctar de amor, é pão à fome,
É baliza em deserto, é linfa à sede,
Previdente e sagaz dá-te um futuro,
Entre amor, melodia, entre riquezas.

(A Folia dançando abraça o Brasil e apresenta-lhe a taça; todos os diabos o circulam e o incensam de aromas, mas ele repugna).

Todas essas nações que floresceram
Nessa taça fruiram grandezas;
Nela esculpida estão seus nomes todos.
Bebe, bebe na taça das delícias
Teu futuro brilhante e tua força.
Pode austera virtude patriótica
Mesclar seus dons no gozo dos prazeres
As armas e o amor da idade média
Repeliram dos árabes o alfanje;
A civilização moderna é obra
Desses homens guerreiros e amorosos,
Que em Pavia findaram, reanimando
Estas luzes e os séculos vindouros
Gratos serão por tanta f'licidade.
(O Brasil fica indeciso e depois recua de horror).
Se recuas terá sempre a teu lado
O meu cetro terrível, e o meu povo
Teu povo adestrará ao crime, à infâmia.
Viverão sibaritas sem costumes,
Em teu solo misérrimo e inóspito
Será seu deus o ouro, o ouro sempre,
Sua religião, magro egoísmo,
Sua filosofia, indino tráfico.
As feras da anarquia tão famintas
Tascarão tuas carnes e os teus ossos,
Ao lume do equador serão esparsos,
Para escárnio do mundo, e teu escárnio.
Um passo não darás jamais avante;
Mil escolhos aguardam tuas naves;
A traição nas fileiras dos soldados,
E a tua capital deserta e tétrica
Como o cimo da gávea alcantilada,
Só de vento, de raios e de chuvas
Habitada será por longo tempo.
Estranha geração, povo de feras,
Ovante conculcando essas ruínas,
Cantará tua queda e o meu triunfo;
O fel da minha cólera implacável
Sobre ti lançarei ... bebe essa taça.

(Dentro).

Não.

BRASIL.

Nunca beberei licor funesto.
Na baunilha odorante a jararaca
S'esconde, e treto emboque a mão aguarda,
Da cândida inocência, na floresta.

SATÃ.

Oh gênios infernais, prostai-vos todos
Do Prata ao Amazonas, minhas ordens
Ditarei sobre o ígneo chimborazo.
Empregai força e arte, astúcia, tudo,
Seja um povo d'hebreus, povo brasílio;
De porta em porta errando sem albergue,
Sem berço, sem sepulcro; quero em breve
Que o deserto se assente nas searas,
Que o fogo do vulcão funda-lhe as minas,
Que a fonte corra sangue ao viajante,
E que um vento infernal seque seus ossos.
Abalai do Ipiranga esse moimento,
Quebrai-lhe as brônzeas tábuas e fundi-as
C'o archote que brande a civil guerra.
(Dentro trombetas).
Surgi, surgi da terra, oh dous extremos,
Vosso aspecto é lição e fido espelho!

(Um surdo trovão, relâmpagos, etc. levantam-se da terra duas figuras vestidas de branco, e tendo na facha azul, que coroa a fronte, uma estrela no peito da primeiro um S. e da outra um N.)

Filhas queridas, vinde ao pátrio grêmio,
Que este amplexo nos una eternamente.

(Vai abraçar a primeira, esta volta e mostra-lhe um cadáver com uma espada ensangüentada nos braços encruzados; quer-se aproximar da segunda, e esta volta-lhe um esqueleto, e logo somem-se; o trovão se aumenta forte e vai diminuindo).

SATÃ.

Brasil, Brasil, é tempo, a taça bebe;
tuas grimpas se abalam, mão sacrílega
Fratercidos [sic] punhais manobra em torno
De teu solo tão fértil ... treme a terra
Dos ginetes c'o trote, o céu se obumbra
C'o trovão do canhão, com atras nuvens;
Sangue humano já cobre tua relva,
E em vez de flores, ossos já branquejam.

(O Brasil, como que aturdido, vai a segurar na taça, ouve-se um trovão, relâmpagos e os clarins, e o Anjo da Verdade aparece na cena, circulado de luz e tendo no peito as letras P. II. O Trono de Satã se transforma em um nevoeiro e ele se precipita e some-se, assim como todos os mais diabos e vícios correm; vêm para a cena Gênios representando as Artes e Ciências).

ANJO.

Brasil, Brasil, é tua a eternidade,
Serás grande e potente. Deus o ordena.
Em vão tenta o Inferno em teu futuro
O tóxico lançar d'atra discórdia.
Mais um lustro e um ano espera ainda;
Trata de conservar, seja isto um sonho,
Uma leve lição. Ah não manchemos
Este dia feliz em que nascerá
Aquele que te aguarda um bom futuro;
Não cubramos de dó terna esperança,
Q'o porvir nos volteja em torno ao trono.
Trata de conservar, que ele zeloso
Mil canais traçará sobre teu solo,
Abrirá seu palácio e peito augusto.
As Ciências e as Artes e áurea Indústria.
Viajarão teus sábios nesse pólo,
Onde gira Acarnar e vasta glória,
Galileus, novos Keplers te prometem,
Novos Platões e Sócrates e Hipócrates
Sólons e Cuviers, Lineus e Tácitos;
A natureza e os homens pesquisando
Mil verdades darão ao sábio mundo;
C'o mágico pincel alma Pintura
Na tela avivará teus grandes feitos;
A escultura os Heróis, na praça pública,
À infância mostrará; em massa eterna
Monumentos terás de Arquitetura;
Um Panteão para os ossos dos teus filhos,
Que o engenho e heroísmo cultivaram;
E o buril mandará ao povo estranho
Cópia icônica dessas maravilhas,
Tua indústria dirá pr'a natureza:
Meu engenho criou nova natura,
Refundindo nas mãos esta que existe,
Sem às minas (4) baixar, ouro fabrico
Tece c'roas eternas aos teus vates
Qu'a glória dos heróis no mundo espalham;
Abraça do Calvário o estandarte,
No peito, ao sacerdote, amor infunde
De uma austera moral; seja a justiça
Pelos lábios da lei pronunciada;
Teu comércio amparado pela força;
Ermo o trono de baixos parasitas;
Cultiva a melodia, fala a língua
Da harmonia celeste, tudo preza,
Que sem isto as nações nunca são grandes.

E Tu, alma de um povo que suspira
De amor e de esperança, eu Te saúdo
Neste dia em que ao sol abriste os olhos,
Esculpe no Teu peito estas verdades:
É Teu todo o futuro deste povo,
Dá-lhe glória, firmeza, luzes, brilho
Serás grande imortal, serás louvado
Serás chamado Herói e Pai do povo.
(o órgão preludia)
Escutai, repeti comigo todos ...

  Neste dia o céu nos deu
O Menino mais gentil
Para esp'rança e para glória
Do Império do Brasil.

(Todos repetem o coro).

  Cada dia como o de hoje
Uma esp'rança em nós renasce;
Mais um lustro e mais um ano
Só almejamos que passe.

  Viva pois PEDRO SEGUNDO
Do Brasil Imperador;
Viva aquele que há de dar
A si e ao povo esplendor.


NOTAS

(1) Esta edição baseia-se no exemplar do libreto da Divisão de Música e Arquivo Sonoro da Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. A ortografia foi modernizada e a pontuação atualizada; abolimos o uso de maiúsculas para os substantivos comuns. Efetuamos as correções indicadas nas erratas ao final do libreto (p. 16). Edição em HTML de  Paulo Mugayar Kühl . Projeto financiado pela FAPESP.

(2) Na errata, ao final do libreto, o nome do músico é corrigido para Cândido Inácio.

(3) No original, balhatas.

(4) No original, ninas.

  11-Dec-2002