O
TRIUNFO DA AMERICA. (1)

DRAMA

PARA SE RECITAR NO REAL THEATRO
DO
RIO DE JANEIRO,
COMPOSTO E OFFERECIDO
A SUA ALTEZA REAL
O

PRINCIPE REGENTE
NOSSO SENHOR,

POR
D. GASTÃO FAUSTO DA CAMARA COUTINHO.

_________________________________

Quão doce he o louvor, e a justa gloria,
Dos próprios feitos quando são soados!
                                      Lusiadas, Canto V.
(2)

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NA IMPRESSÃO REGIA

1810.


ELOGIO
A SUA ALTEZA REAL
O
PRÍNCIPE REGENTE
NOSSO SENHOR.

A te principium: tibi desinet, accipe jussis
Carmina coepta tuis: atque hanc sine tempora circum
Inter victricis hederam tibi serpere laurus.
                                        Virgil. Bucol. Ecl. VIII. (3)

Quando apenas o Sol, quando as estrelas
Inda recentes lá no etéreo espaço,

Os raios infantis d'argento, e d'ouro

Firmes provavam sobre o serro erguido,

Ou sobre as virgens marulhosas vagas;

Lá quando o tenro arbusto, inda vaidoso.

Co' a verde gala do natal primeiro,

Arreigava na terra a lígnea base,

Plantada, pela mão, que o Onipotente

De esparsas névoas arrancara os orbes;

Já do cego mortal propenso à culpa

O veneno moral manchava o globo;

Debalde os justos, fervidos remorsos

Inimigos fatais do crime austero,

No indócil coração travavam guerra;

(Árduas barreiras desmantela o vício

Quando à sábia razão se esquiva a mente.)

Mas o deus, que de barro, ou lodo inerte

Cuidadoso ajeitara a espécie humana,

Desejando exultar, luzir com ela

Na posse eterna de inefável glória,

Prevendo atropelada, e quase a rojo

Dos Caos a filha, a cândida virtude,

Solta das nuvens, que pejadas gemem,

Vasto oceano de incansáveis ondas,

Que ferozes caindo, em mar transmutam

Os altos picos do torrão submerso:

Nem, reservado à vingadora cheia,

Por divina promessa, que não torce,

Nem tu fostes! Ararat, d'Armênia cume,

Uma família só; de tantas uma

Supervive ao geral, tremendo estrago;

Desta surge de espaço, e o Mundo abrange

Nova progênie, que vendada e louca

Às paixões se abandona, e folga em crimes;

Nisto um deus ressentido o raio impunha,

E onde em ponto maior delírios fervem,

Voam serras de fogo, e é cinzas tudo:

Testemunhas fieis vós sois, ó tristes

Derrocadas muralhas de Pentápole!

Vigilante com tudo, e firme sempre

Em bem fazer as deslumbradas gentes,

Salvas da mancha da primária culpa,

Manda á terra baixar imagens suas,

Semidivinos reis, que as rédeas fulvas

Entre um Povo mais brando afoitos rejam, 

Que a sábia educação, que os sãos costumes

(Segunda natureza) imprimam, gravem

Nos dóceis corações dos seus Vassalos;

E que a testa por fim de um tal rebanho,

Depondo as vestes da carnal matéria,

Subam da terra aos céus origem sua.

Não se esqueceu contudo, (e fora incrível

Que se esquecesse um deus, cuja grandeza

Tudo presente vê, que eterno abarca

Do veloz tempo a vária imensidade)

Que num ímpio redil em monstros fértil

Devem tiranos reis subir ao trono,

Prenhes de serpes da tartárea estância.,

Que não baixam do Olimpo almas danadas.

Ó Príncipe imortal! Provado o exemplo

Vemos na quadra, que teu mando ilustra;

Que enquanto entre leões dragão terrível,

Tirano usurpador, vitima e assola

Desgraçada nação aceita às fúrias;

Tu, Benigno, Senhor, com áureo cetro

Dando suaves leis, escoras n'alma

Dos vassalos fiéis teu sólio eterno:

Dentre os dias de ferro extrais os de ouro;

E na glória dos teus viceja a tua.

Em vão atroz doença industriosa

Toca teus membros, que ceder não podem

À dura lei à natureza imposta,

Que das Parcas se ri quem nasceu nume.

E se às vezes, Senhor, já tens sentido,

Falto de forças, tiritar teu corpo,

Ou dos olhos louçãos de que pendemos

Apoucar-se o clarão, farol que presta

A diversas nações o rumo, e o porto;

É que um braço eficaz, e a nós oculto,

Te deseja mostrar assíduas provas

Do nosso puro amor, e usado afeto

No geral sentimento e mágoa suma.
Vós pois, que me escutais, que em vossos peitos
A verdade sentis, que eu sinto e solto,
Abonai-me ante o Príncipe sob'rano,
Ó povo luso, ó povo americano.


DRAMA

ATORES

O FADO,
     Domingos Botelho.

A AMÉRICA,

     Joaquina Lapinha.

A VINGANÇA,

     Rita Feliciana.

A POESIA,

     Francisca de Assis.

A GRATIDÃO,

     Maria Cândida.

As três Parcas, que não falam.

CORO.

A cena é no Rio de Janeiro.


ATO ÚNICO.

 CENA PRIMEIRA.
Uma pequena parte da Cidade do Rio de Janeiro, que figura o princípio da dita cidade.


A VINGANÇA E A AMÉRICA.

VINGANÇA.

Não me pesa, que duros sentimentos
Dentro em minha alma à competência lutem,

Que me deve empecer quando a justiça

Me aclara a mente e me dirige a destra?

Quem me pode increpar quando inflexível

A virtude premeio [sic], e o crime aterro,

Quando laureio os bons, e os maus fulmino?

Qual hei sido té 'qui, serei de espaço:

Solto no ar o tripartido raio

Não volve inullto à mão que o despedira.

Sim, orgulhosa América, debalde (Voltando-se para a América .)

Esp'rançoso porvir te ilude e cega;

Vê que inda há pouco incógnita dormias

No seio da selvática bruteza;

Vê que os louros metais de que blasonas

E o torrão extensíssimo que abranges

Incentivos não são d'alta valia

Perante aquele, que do trono estreito

Mundos, outrora ocultos, conquistara;

Não, não penses que a fúria assoladora,

A filha de Platão, a horrenda Alecto,

Possa outorgar-te um bem que por mil vezes

Os próprios deuses te hão negado e negam:

Debalde exiges impossíveis prêmios;

Dói-me a filáucia que te mina o peito;

Não do Sexto João, que em Lísia impera,

Nunca o rosto verás, nunca a presença;

Pela Estige te juro, e pelos deuses

Testemunhas, fiéis da minha afronta:

Talvez ignores quem te fala, e penses

Que pequeno poder me coube em sorte?

AMÉRICA.

Ignoro quem se humilha a procurar-me!
A mim, que há pouco incógnita dormia

No seio da selvática (com ironia) bruteza!

VINGANÇA.

Quem no teu lado vês, quem te deslumbra,
É a justa, legal, pia Vingança

Que o ferro empunha, que decepa os vícios;

Sou eu, sou eu aquela de quem deves

Recear-te e fugir sendo afrontada.

Eu a mesma inda sou que fiz outrora,

Por sisudas razões estimulada,

Rompendo as sombras de fadada noite,

Cair por terra abraseadas, rotas,

As muralhas de Tróia, a que cercara

Por mais de lustros dois a tropa argiva;

Inda vejo ferver ante meus olhos

Em rios os metais, o sangue em mares,

De cujas tristes, prófugas relíquias

Já transplantadas em país forçado,

Surgiu pomposa, em mortes escorada

Do mundo a capital, a egrégia Roma.

Eu, ciosa da minha autoridade,

Do meu poder não tido em menoscabo,

Inda aqui não parei; contra esta raça,

Ramo florente duma pátria extinta,

Mandei que o tírio, embravecido infante,

Nas faixas infantis recém-ligado,

Ante as marmóreas sacrossantas aras,

Ódio eterno jurasse, e este ódio eterno

Foi transmitido aos netos enraivados.

Condoída de vós, matrona austera!

Ali da régia, tarqüínia infâmia,

O reinado acabei, dei fim ao trono:

Ali mesmo, banido Coriolano,

Armei o braço contra os pátrios muros.

Eu, sempre vigiando a bem dos lusos,

Pois lustroso valor me alteia os vôos,

Dentre o rebanho das felpudas oves

O pastor arranquei que opôs barreira.

Às torrentes caudais da lácia força,

E Lísia o Lácio fora, ou Lísia o mundo,

Se atraiçoado não perdesse a vida.

Prostrando irosa enfileiradas turmas,

Contra os filhos de Agar já fiz mil vezes,

Não sem fruto, raiar a lusa espada.

Eu sou a que vinguei os manes tristes

Da malfadada, perseguida esposa,

Que depois de ser morta foi rainha.

Eu fui quem dei ao destroçado...

AMÉRICA.

                                                      Basta:
Tenho escutado assaz proezas tantas,

Filhas do instinto, que a moral te rege.

Sei que, sedenta e sôfrega de azares,

Chamas aos crimes um dever sagrado,

Trajando vestes de emprestadas cores;

Sei que intentas sofística mostrar-me

(Que é útil ao poder, preciso aos grandes,

Sem que rara exceção se admita, ou caiba)

Ferver em mortes, sobejando as culpas

Tormentos inventar, quando a fraqueza

Da massa dos mortais produz fraquezas;

Que é perfeição de irresistíveis forças

A negros males anexar desditas,

E com fogo apagar serras de fogo.

Tão danoso e cruel procedimento

Longe empuxai do meu terreno, ó numes!

Longe a Vingança aspérrima, que intenta

Crestar meus campos, perseguir meus filhos.

Que o hálito do céus sustenta e guarda.

VINGANÇA.

Aspérrima não sou, quanto te enganas!
Sou justa, austera, virtuosa, e reta;

Sou ministra de um deus; dum deus ao lado

Expio as culpas da torpeza humana;

Sou necessária aos céus, aos reis precisa;

Eu coíbo os mortais ao mal propensos,

Ou do justo dever desalinhados:

Se o vicio os desafia, ostento a pena;

Se o vício lhes apraz, castigo o vício.

Da justiça seguindo as leis piedosas

Mostro as verdades da lição celeste.

Poucas vezes aos campos me dirijo,

Lá, respira outro ar, lá sei que os homens

Co' a inocência infantil seus passos douram;

Mas se algum foge ao bem, lá sou com ele.

AMÉRICA.

Cruel às vezes, muitas excessiva.

VINGANÇA.

Cruel! concedo, sim se me alucina
Desvairada, frenética leveza,

Cruel às vezes, se um rancor ferino

Me pretende assaltar, o defender-me

Provêm da natureza, olha este excesso,

Nos próprios animais, sem lei, sem luzes.

AMÉRICA.

Nos próprios animais, sem lei, sem luzes!
Desses tentas colher profícuo exemplo?

Qual és no pensamento, és tal nas obras.

Pai dos vassalos o monarca exímio,

Que a seu bom grado a liberdade alheia,

A vida e bens, depositário rege,

Não deve trabalhar, lidar não deve

Na ventura dos seus, que são seus filhos?

Fazer que as louras ondeantes messes

De abundosa riqueza os montes vistam?

O comércio ilustrar? Dar brilho às artes?

Dar guarida às ciências, que não vingam

Nos conflitos de bárbara matança?

Deve acaso o solícito monarca,

No sangue filial boiando iroso,

Mundos ambicionar? Ou deve acaso,

Em guerra desigual, em campo aberto,

Por violento capricho entumecido,

Os mesmos vitimar, que lhe entregara

Às justiceiras mãos um deus clemente?

Eu, se tal visse obrar diria, qu' este,

Longe de ser monarca, era um tirano

Fero verdugo e assolação do Estado;

De quem bebeste tão fatais venenos,

Que aos meus olhos tão hórrida te fazem?

Ah! pode ser, que na visão terrível,

Que há pouco tive em sonhos perturbados

Parte e parte não mínima tivesses.

VINGANÇA.

Pois também crês em sonhos? Também prestas
A falazes visões prontos ouvidos?

AMÉRICA.

Creio, creio em visões, e atende a esta,
Cuja memória acerba e interminável

Inda no peito o coração me rala.

Numa noite em que aos membros fatigados

Dava repouso, e o doce irmão da morte

Co' a vara soporífera os roçava,

Eis presumo que via, (oh noite horrível!)

Dentre escavadas, nubelosas serras

Surgir um monstro de estranhável mole;

Mais ao longe avistava e descobria

Uma excelsa matrona, a quem cercava

D'afamados heróis, prole indomável

Contra a mãe, contra os filhos, que o parecem,

O carnívoro monstro se arremessa,

A uns no seio maternal arranca

As vidas indignadas, lança aos outros

Férreas algemas nos nervosos pulsos;

Não me pude conter e, horrorizada,

Duro clamor soltei co' a voz inteira;

A cujo som tremendo, lutuoso,

Quebrei do sonho os pérfidos enleios.

Pelos trajes que vi, que bem notara

Na matrona infeliz e agonizante,

Cri de minhas irmãs ser uma, e penso

A mais pequena ser e a mais famosa

Em ciência, em valor, em gênio, em graças.

Tempos, tempos vaguei pedindo ao fado

Me explicasse o sucesso desastroso

Que acabava de ver; e removesse

Do meu terreno iguais adversidades,

Mas sem fruto lidei, pois nada obtive ...

Porém que escuto (Olhando para a Vingança que suspira .), que mudança é esta!

Tu suspiras, e a teu pesar teus olhos

Pouco a pouco se vão umedecendo!

Quantas provas me dás de que és culpada.

VINGANÇA.

Não te cumpre inquirir quais são meus males,
Se procedem de raiva, ou d'amor nascem,

Se impiedade ou dever meu pranto obrigam.

AMÉRICA.

Pois se ouviste os agoiros espantosos,
Que te acabo de expor, que são por certo

Víboras novas, que te roem por dentro;

Também deves ouvir como sucedem

A duras mágoas, aprazíveis gostos.

VINGANÇA.

Ai de mim, que desgraças iminentes
Me agoira o coração: céus escudai-me. ( À parte.)

AMÉRICA.

Hoje mal que a manhã pousou nos cerros,
Que servem de valado à corte minha,

Neste mesmo lugar, neste em que estamos

Vi do Fado a benévola figura,

Que, depois de me olhar meiga e risonha

Já roto o espesso véu, falou destarte.

"América feliz, é vindo o tempo,

"O tempo suspirado, eleva a fronte

"De viçosos lauréis sombria e fértil:

"Aos teus rogos cedi, e d'hoje em diante

"Metrópole vais ser, rainha excelsa,

"Alta cabeça d'invejados mundos.

"A mercê, que nenhum dos reis da terra,

"Dos deuses mesmo ousara prometer-te,

"Feio acaso te deu, que assim lhe chamam

"As gentes vãs à oculta providência."

(Me disse o nume em voz mais compassada:)

"Neste egrégio salão, que assombram montes,

"Teu benigno senhor há-de ver hoje,

"Hoje o Sexto João co' a régia estirpe,

"Que o sólio augusto esmalta e formoseia

"Há-de os campos pisar, que eu lhe votara

"Em prêmio da virtude esclarecida,

"Que dos sábios avós conserva e honra.

VINGANÇA.

Que mais posso escutar, que mais me resta!
Já não sei como a cólera disfarço. (À parte.)

AMÉRICA.

"Vê que ilustres heróis lhe vêm na rota
"Embarcados a furto e satisfeitos

"Sem que as turbadas vistas levantassem

"Às esposas, aos pais, à pátria, a tudo:

"Em todos nota o são desinteresse

"Da passada ventura, e nota neles

"A afeição cordial que têm, que mostram

"Ao Príncipe feliz, que a tanto os move.

"Dá-te pressa, e de murta verdejante,

"De singelos jasmins, de rosas crespas,

"Orna os caminhos deste rico empório;

"Singular polidez teu braço adestre;

"Torres volantes de enrolados velos,

"Que aos perfumes arábicos excedam,

"Exalçados aos céus, os céus encubram;

"Ígneo festim ribombe, ígnea matéria

"O brilho imite das sidéreas tochas;

"Deste modo se aguarde e se festeje

"O luso semideus com pompa insigne;

"Altos mistérios meus assim o exigem."

Disse; e tornando à lebrinosa estância

Pela noite sem fim se embrenha e some.

Eu que tal escutei, ligeira e leda

Corri a memorar à nação minha

Tão grata aparição e neste assento,

Que de novo arreigado em brônzeo plinto

Leis ao Ganges dará, e ao Tejo, e ao Nilo,

Cuidosa espero um príncipe que soube

Primeiro que nenhum do régio tronco,

Por entre as verdes marulhosas vagas,

De superno clarão dourar meus dias;

Mostra agora se ao Fado é concernente

De projetos mudar, ou se lhe cabem

Os tardos sons de palinódia humilde?

VINGANÇA.

Aparta-te de mim, ... Já nas entranhas
Rijamente me vão soprando as fúrias.

Deuses que isto escutais, deuses que eu zelo!

Se vós tal permitis, se tal é justo,

Nem vos dou lá nos céus por bem seguros.

Que prodígios incógnitos são estes,

Tanto vos devem as francesas armas?

Vós sabeis que ambição, que orgulho insano

Lavram nos peitos dos mortais ferrenhos;

Inda há pouco da terra os filhos quatro

(Montes que sentem, montes que se movem)

Serras, e serras sobrepondo irosos

Pretenderam do céu desapossar-vos;

Inda muitos de vós, no egípcio campo,

Mudada a forma em animais, em troncos

Da sacrílega ação gemem lembrados.

Eu convosco então fui desfeita em raios,

O atentado puni, e os monstros feros

Sotopostos deixei a rocha imóvel,

Que os vossos muros rabida evadira;

Ó deuses vigiai na glória vossa,

Tão afrontosos títulos vos movam,

Que eu, justa como vós, não sofro injúrias.

CANTA.

  Sou como o raio
Baixando à terra,

Farpada serra

Faço estalar.

  A mágoa extrema,
Que esta alma encerra,

Exige guerra,

Quer-se vingar. (Vai-se.)


AMÉRICA.

Vai-te abutre cruel, que o instinto cevas
Em tristes mortes, em cruéis desastres,

Vai-te, que este lugar defeso aos crimes

Não te quer conhecer, nem te precisa.

CENA II.

A Gratidão, e a América.
Gratidão sem olhar para a América.
 

Ó campos, que aos Elíseos fortunosos
Em graças não cedeis, fragrância, e mimo!

Ó morada de um deus, se a um deus cumprisse

Entre humanos viver, gozar com eles!

Ó benéficos povos, que estreitados

Em recíproco amor conservo e rejo!

Ó porções da minha alma, apoio, essência

Do império meu por tantos profligado!

Pelos influxos meus, em paz serena

Convosco exultarei, terei convosco

Manhã sem noite, rósea madrugada.

AMÉRICA.

Quem tão notável me aparece e fala?
Serás tu, Gratidão, prêmio a justado

À cândida benévola amizade

Tão precisa aos mortais, bem rara em muitos?

Serás tu, Gratidão, que sempre houveste

Nas plagas minhas gasalhoso hospício?

Virás amenizar c' os teus eflúvios

Este dia sem par, que espanta os evos?

Mas que nuvem de dor te oprime e cerca?

Que estranha palidez se atreve às rosas

Que entre brandos jasmins cresciam dantes?

Quem te causa tão férvidos despeitos?

Lida por disfarçar mágoas ocultas:

Não, não queiras com fúnebre aparência

O contento manchar destes lugares.

GRATIDÃO.

No meu peito onde as lágrimas sufoco,
Da mágoa e do prazer sinto os impulsos,

Quando a mágoa se altera, o prazer baixa,

Quando surge o prazer, mergulha a mágoa.

AMÉRICA.

Que alternativa! Explica-me os motivos
Da afrontada ventura e mal que sentes.

GRATIDÃO.

Eu sou quem gera igual correspondência
Mútua retribuição, mútua vontade,

Té nos insetos de invisíveis corpos.

Eu sublimo dos entes atinados,

Daqueles que dos céus ao prêmio aspiram,

Os relativos sons que os lábios vertem;

Eu sou a Gratidão, eu sou quem torna

Mais lhanos, mais benignos, mais suaves

Da carreira vital os azedumes;

Não benquista entre inóspitos selvagens

Duros nos tratos, nas usanças duros,

Pus o fito indiscreto em sítios longes

Nos quais pudesse achar (mas iludi-me)

Seguro esteio à vida e duradouro;

Lembrou-me que o país mais bonançoso

Seria aquele que, engolfado em letras,

Mais de Atenas o mel saboreasse,

Da Gália me lembrei, e à Gália vôo:

Mal entro (ai tristes) que horrorosa cena!

Tintos de sangue os braços parricidas.

Faziam tiritar a natureza.

AMÉRICA.

Era justa razão que os empuxava
A defender os Reis e a pátria sua?

GRATIDÃO.

Tinham extinto do pai, do rei, a vida,
Vê que monstros produz a espécie humana!

AMÉRICA.

Céus! que escuto! (ai de mim) Ó céus é crível
Que as mãos dos filhos contra os pais se atrevam?

Sem que primeiro mutiladas caiam

Por invencível ser, que de tais monstros

Calando os corações lhes rale as vidas?

GRATIDÃO.

Ouve o progresso e gelarás de susto.
Logo afastando a profanada vista

Do execrando, sacrílego espetáculo,

Os topes transcendi da alta muralha,

Que da Gália e da Ausônia os campos parte;

Mal co'as plantas o chão apalpo a medo,

Eis recente evasão me busca e segue,

Eis de novo me vejo atropelada

Pelas coortes hostis dos galos duros.

Já sobre o Tibre roxeado e quente

Golpeados cadáveres boiavam:

Praguejando os famélicos algozes

Prestes de mando às fortunadas veigas

Da antiga Hespéria e Lusitânia antiga;

Ali serenos, ameigados anos,

Que desciam dos céus, gozei tranqüila;

Súbito a peste costeando a Europa

Vem na pisa dos meus, na minha e dessa

Tênue porção que aos crimes lhe escapara.

Eu do Sexto João constante ao lado,

Sócia fiel dum Príncipe Regente,

Que os fragrantes rosais, que os ínvios bosques

Da espinhosa virtude folha e trilha;

Em lígneo torreão que afronta os euros,

De um salto me abalanço e à régia sombra

O porto largo, e ao austro me encaminho,

Soltos ao vento os estandartes lusos

Varrendo as salsas úmidas campinas:

E ainda há pouco surgi nas praias tuas,

E há mais de lustros quatro que vagueio

Longe da bruta sanguinosa Gália;

Longe da horrível mãe, nova Medéia,

Que os filhos, sem tremer, mata à nascença;

Longe da indigna mãe que esquiva ao jugo

Dos ilustres Bourbons em tronco, em ramos,

Cega co' prêmio vão, que jamais vira,

A cerviz humilhou as leis tiranas

Do nefário Vertumno, ou corso infame,

Daquele a par de que são brandos, ternos

Africanos leões ou cáspios tigres;

Que arreigado em paixões desatinadas

Tem de perfídias recheada a mente.

AMÉRICA.

Não mais, não mais, que me apunhala o peito
Fera lembrança que me embarga as vozes;

Não, não prossigas mais, que me cruciam

Espantosas visões, terríveis sonhos,

Que me foram por ti verificados.

Apartem-se de nós mágoas pungentes,

Agros sucessos d'importuna história;

Este dia feliz em que nos vemos

Dissipe as névoas do pesar sombrio.

GRATIDÃO.

Alucinou-me a dor, perdi o acordo,
Dispensa-me esta falta, mas conhece,

Que te foi prestadio um tal descuido;

Novos encantos o prazer redobram

Se a memória do mal se põe presente.

Vamos, vamos América, e deixemos

Este mudo lugar que ouviu meus males,

Vamos ver de mais perto a quem devemos

Votar ingênuos, agradáveis hinos.

AMÉRICA.

Vai doce Gratidão, que eu já te sigo.

CANTA.

  A negros desgostos,
Pungentes fadigas,

Promessas amigas

Vão hoje dar fim.

  Renascem as d'oiro
Idades antigas,

Ó Príncipe abrigas

Teus fados assim. (Vai-se.)

 

CENA III.

A estância do Fado, as três Parcas ao lado direito, mas quase em frente em assentos baixos. Do outro lado, a Poesia em pé.

FADO.

Pronta, executai as ordens minhas;
Em áureo fio de metal radiante
Do Príncipe João se alongue a vida
Longe de vós os lutuosos velos
Que pesadas desditas pronosticam [sic],
E tu (Olhando para a Átropos, que depõe a tesoura ) deposto o lúgubre instrumento
Respeita os dias, que eu prospero, e salvo.

POESIA.

Se licença me dás, se me é devido
Os motivos expor, por que me nego

A tão árdua tarefa, eu principio ...

FADO.

Não tens que porfiar, o assunto é grave;
Não vinga o nome dos heróis prestantes

Se a musa esquiva lhe denega encômios,

Se apiedada não vai no délio bosque;

No momento fatal que iguala os entes,

Seus feitos ilustrar, bordar seus fados

Com lápis diamantino, em prancha de ouro;

Quantos, quantos heróis de glória dignos,

Antes dos Titos, antes dos Trajanos,

Jazem nas sombras de perpétua noite,

Porque a musa não quis remissa e frouxa

Dar-lhes renome no porvir cerrado!

Se te coube o poder, ó diva excelsa,

Língua dos deuses, linguagem nossa,

De erigir sobre o mérito preclaro

Ponte segura que se ri do Letes,

Pela qual vão teus férvidos alunos

Dos climas do terror à elísia margem.

Por que motivo decantar desdenhas

As decorosas, lúcidas fadigas

Do Príncipe Imortal dos lusos claros?

Acaso te não dão trabalhos duros,

P'rigos sem par, extremos arrojados

Pronta matéria à voz, mais fogo ao estro?

Os ascendentes seus, qu'inda hoje brilham

Vivos nas asas da volátil fama,

Mandando conquistar com força e manha,

Cetros, e c'roas nos confins da aurora;

Ou já brandindo a persuasiva espada

Contra o vil sarraceno em márcio jogo,

Deram mais nobre assunto aos sons do plectro?

Foram mais que João da Glória amigos?

Tens em pouco o valor com que devassa,

Primeiro que nenhum da régia planta,

Os equóreos cancelos mal sofridos

Dos hemisférios dois raia intermédia?

Não te excita a louvor quem denodado

Sós os vassalos não remete aos p'rigos?

Quem os anima e lhes dilata as vidas?

Que à testa dos seus, precauto exclama:

"Vinde comigo, acompanhai-me ó filhos?"

Inda não sentes povoada a mente

De tão divinos assombrosos rasgos?

Donde provém tão rígida apatia?

Quem te faz hesitar? Quem te demora?

POESIA.

Se acaso me convém, ou se é preciso
Mostrar do Fado aos olhos penetrantes,

Que vêm do tempo os íntimos segredos,

Meus despeitosos, sôfregos cuidados:

Se me cumpre, outra vez, dos meus desastres,

Renovando o pesar, contar a origem;

Permite que de ti, nume inflexível!,

Primeiro fale, e não me estorve o pejo.

Todos os filhos meus, ou quase todos,

Vítimas tuas na penúria morrem

Se os finados varões da pátria ornato

Compram do Letes a voragem funda,

Quando as sombrias, sonolentas névoas

Crestam c'os fachos da apolínea flama,

Colhem por fruto deste amor fraterno

Duros exílios, tormentosos fados;

E só quando do cárcere de barro

Voa o mal pago esp'rito ao ser imenso,

Sobre os inúteis ossos transplantados

Mão apiedada, e noutro tempo estéril,

Espalha ingênuas, debotadas flores.

Se tanto a prol dos povos de Ulisséia,

E do Sexto João, no sexto em nome,

E o primeiro em valor jamais louvado,

Teu poder dadivoso hoje se ostenta;

Por que delito horrendo, ou justa causa,

De mesquinho hospital em tábua estreita,

O Ser evaporou, que o acurvava,

Aquele que cantara em metro ardido

Os generosos lusos que voavam

Das Ursas Boreais à plaga Eôa?

Tal galardão mer'ceu, tais abastanças

Quem tanto à pátria deu co' a espada e pena,

Que crime ou que atentado vergonhoso

O cisne cometeu, que ao Sado e Tejo

Deu na lira de Orfeu canções de Ovídio?

Assim premeias [sic] arrojados vôos,

Ciência extreme, lúcidas fadigas?

Nas estátuas mortais, painéis caducos

São limitadas dos heróis as vidas.

 

FADO.

Tudo sei, tudo fiz, tudo antevia,
Nada oculto me foi, porém descansa:

Com desabrida mão semeio às vezes

As ditas e desditas; quero agora

Ser-te propício, neste egrégio dia

Chovam difíceis variados prêmios,

E destes o maior vou já mostrar-te.

Compassivo serei c'os teus alunos,

Que mais podes pedir? Que mais desejas?

POESIA.

Nada tenho a pedir, tudo me deste.
Ó filhos exultai que o Fado o ordena,

Quebrou-se a antiga rígida cadeia,

Que o mérito ligava a desventura;

O desar, que cerceia ao estro as asas,

Geada infensa que os talentos cresta,

Longe de vós no báratro se abisma:

Hinos cantai ao Príncipe dos lusos,

Que tão árduo penhor do Fado obteve.

FADO.

Desfere a vós, que os aquilões enfreia,
E a grandeza do assunto iguale o canto.

POESIA.

(Eu parto, eu parto a dar princípio ao quadro,
Que d'alheio verniz enjeita a escolha) (Vai-se.)

 

CENA IV.

O Fado e a Vingança.

V I G A N Ç A.

Nume a cujos pés vejo prostrados
Dos numes e mortais ventura e males;

Nume a cujo aceno as Parcas tremem,

Que o vindouro, o presente, e o já passado

Em campo estável majestoso encaras;

Se na mente, que deu começo ao globo,

Crível não é que revogar-se possam

Sacras promessas aos mortais legados

Belas e ufanas co'a chancela tua;

Se juraste, que a bem da lusa estirpe

Sempre teu braço benfazejo e justo
,
Qual tem sido té 'qui, seria o mesmo;

Se de imensos lauréis avermelhados

Enredaste o pavês de Lísia ovante,

Que mudanças tão rápidas são estas?

Esse rosto, que há pouco floreava

Os grimpados merlões d'alta Ulisséia,

Hoje troveja e lhes fulmina estragos?

É prova singular de exata estima

De sincera afeição, d'amor sobejo,

Expor às fúrias de agitados ventos,

Aos rijos encontrões dos céus, dos mares

Um Príncipe que foi dos teus extremos

Único enleio e principal motivo,

Desligado dos seus em pinho errante

Como se fosse um foragido inerme?

FADO.

Sagrados sentimentos me encaminham,
Ao principio de tudo, a mim só francos ...

VINGANÇA.

Ah! permite que eu fale e se minore
Tão gravíssima dor desabafando.

FADO.

Sim, prossegue, que o Fado não é sempre
Surdo à ternura, inexorável, cego.

VINGANÇA.

É possível que empenhos vantajosos
De lustre não vulgar, nem dúbio preço,

Do natal domicílio o vão levando

A novos mundos e arredados climas?

Do trono antigo os seus não conquistaram

Reinos longínquos, regiões diversas?

Não lhes trouxe a seus pés gente aguerrida

De Líbia os morriões, d'Ásia os turbantes?

Negro destino acaso, ou prêmio falso

Lhe pretendes forjar? Será daqueles

Que já teve um dos seus, moço indiscreto,

Cortado em flor nas africanas praias?

Estas as c'roas são, estas as palmas,

Que reservas aos bons, que dás aos grandes?

FADO.

Os mistérios recônditos que palpo
Vedados aos mortais, e a ti vedados,

De aparentes matizes se ataviam,

Nos sorrisos do bem, o mal se encobre,

Dos revezes do mal, o bem ressurge.

VINGANÇA.

Que piedade, porém, que causa urgente ...

FADO.

Tenho-te ouvido assaz de que me pesa:
Quando o Fado prediz áureos futuros

Ninguém se atreve a demorar-lhe as vozes.

Dos avitos troféus à sombra honrosa ( Levanta-se .)

Não dorme um peito ilustre em sono ignavo,

Deslembrado de si não se espreguiça

Em moles camas que traçara a inércia.

Dos ínclitos heróis a glória herdada

Sobe a ponto mais alto, e mor quilate

No próprio arrojo e pessoal presteza;

Por entre ferro, fogo, estragos, sustos,

Calo brioso o coração consegue,

Se a morte aí se alcança, a morte é vida.

Sorve dos tempos o incansável bojo

Grécias asturas, míseras Cartagos,

Mas de seus feitos a memória ilesa

Cresce e recresce, e pula de evo, em evo.

Pouco aceita me fora a sombra imensa

Do grandioso Manuel, monarca eterno,

Se os prodígios que deu na voz da Fama,

De um tal avô não melhorasse o neto.

Sim no Sexto João caiu a escolha,

Hoje encete a carreira luminosa

Dos inúmeros sóis que lhe hei guardado.

Aqui neste país opimo e nobre

Que mais do Oriente às plagas se aproxima,

Sob os limites dois, que não transcende

A alâmpeda [sic] dos céus por mais que lide,

Novo império se arreigue em férrea base:

Daqui dentre os dois rios espaçosos

Que não temem rivais, e os não conhecem,

Por todo o continente, e além dos mares,

Se mova o leme do governo luso,

Daqui nasça a cadeia portentosa

De nunca ouvidas, prósteras façanhas,

Tais os meus planos são, e assim o ordene.

Não sucumbas porém, não te pareça

Que inulta ficarás, em breves horas

Verei do teu valor provas mais vivas;

Mais intenso calor granjeia o fogo

Sotoposto ao montão de espessas cinzas.

VINGANÇA.

Se antes porém que as velas desfraldassem
No pátrio porto aos enganosos ventos,

Se primeiro que as âncoras pesadas

Do fundo pego acima se trouxessem ...

FADO.

Nada podes obter, sempre foi dado
Às famosas ações prefixa quadra:

Todos os frutos de sazão carecem,

Serôdios, temporões, não têm valia.

VINGANÇA.

Cumpre-me obedecer, 'stou pronta, e manda

FADO.

Mas que delongas frívolas me podem
Um momento suster nos meus projetos!

Retirai-vos vós outras (Olhando para as Parcas. ) que desejo,

Sem que me escolte fúnebre aparato,

Dar guarida ilustrada e venturosa

A quem graves trabalhos são tão leves.

CENA V.

Somem-se as Parcas, o assento do Fado, e aparece a Cidade do Rio de Janeiro com esquadra fundeada, sentindo-se as salvas das fortalezas que denotam a chegada de S. A. R.

Fado e a Vingança.

CORO DENTRO.

  Ó Príncipe Regente;
O céu moldou tua alma,

Tu vens colher a palma,

Que o céu te quis guardar.

FADO.

Eia Ministra do meu braço oculto (Olhando para a Vingança .)
Agora que já vês arfar no porto

Seguros os baixéis que hão de ser de Argos,

Novas estrelas que dêem brilho à esfera,

Não deves fraquear, fogosa e cega

Voa do Tejo às aprazíveis margens;

Lá te espera nas armas insofrível

Brioso enxame de esquadrões guerreiros

Dos britanos heróis, dos heróis lusos,

A quem fraterno amor vigora e prende.

Lá verás como um sábio (4) sacerdote,

Mais que Teotônio (5) , que vingou Leiria,

Convocados os seus defende e salva

Dos franceses ardis o Porto ousado.

Verás a mocidade enobrecida,

Fora dos muros da lustrosa (6) Atenas,

Destroçar os cobardes, que lhe fogem

Rotas as malhas, rotos os arneses.

Lá verás um Machado (7) , Marte luso;

O Grão Fonseca (8) , o português Aquiles;

O terrível Silveira (9) , que insofrido

Leva de rojo as cambiantes águias:

Tempestuoso vórtice, que abate

Os vis atletas d'Austerlitz e Jena.

Muitos, muitos verás iguais a estes,

Que tendo a vida em pouco, a glória em muito,

Pela pátria e seu Príncipe se arriscam.

Lá verás como a gente portuguesa,

Queimada a ponte (10) que lhe estorva os passos,

Vai de volta; e passando o rio a nado

Junca de corpos a vermelha estrada.

Lá veras como o Tejo, o Douro, o Minho,

Mal cabendo nas ribas espaçosas,

De líqüido carmim tintas as águas,

Longe arrojam de si, de envergonhados,

Troncos inúteis, morriões sem dono.

Lá verás como sei tratar aqueles

Que esquecidos do trono e de si mesmos,

Do dever de vassalos, vão deixando

Fácil a entrada aos inimigos feros.

Logo, porém, que libertados forem

Do intruso mando os povos de Ulisséia,

E o resto escasso da francesa indústria

Já na Espanha forçado a férreos laços;

Voa da Europa ao centro: ali se inflamem

Da vetusta Germânia os moradores

Que do Reno e Danúbio as águas bebem.

Acesa, pelo mal que toca a todos,

Às armas grite e às armas se arremesse

A fogosa nação, que mais distante

Cinge abastada de Finlândia o golfo.

Todos, todos enfim, por ti guiados

Da altiva Gália os íncolas destruam;

Caia por terra esta segunda Roma

De novos Neros, cavilosos cacos,

Mãe abundosa, inexaurível foco.

Tu pensarás que o fogo as ondas traga,

Quando teus olhos espantados virem

Novos Vesúvios, Pirineus e os Alpes

Surgindo a custo do sanguíneo lago!

Assim remate a época insofrível

Da gente indigna que infestava os orbes.

Vai, ministra fiel, e cumpre as ordens

Que o Fado te comete, e que lavradas

Há muito havia no fatal volume.

VINGANÇA.

Requintando o valor que me arrebata
Mal me posso conter, mal posso ouvir-te,

Se o caso é crível em desastres solta,

Talvez exceda, ó nume, as ordens tuas

Tal raiva concebi, tal ódio nutro. (Vai-se.)

CORO DENTRO.

  Ó Príncipe Regente!
O céu moldou tua alma,

Tu vens colher a palma

Que o céu te quis guardar.


Abre-se o pano do fundo do teatro, aparecem os retratos de toda a real família e as personagens do drama.


CENA ÚLTIMA.

O Fado só, dirigindo-se ao retrato do Príncipe.

FADO.

Príncipe excelso, cujo cetro de ouro
Dócil governa, e meiga felicita

Ambas as casas dos Etontes fulvos:

Herói sagrado, que baixaste à Terra

A bem dos teus, a bem da glória tua,

Goza ditoso em paz serenos dias;

Faze felice um povo que anelava

Ver-te, gozar-te, e triunfar contigo.

Tempo virá, (que o Fado é competente

Futuros revelar) em que risonho

Volvas do Tejo às lúcidas areias;

Lá te esperam mandando avista aos mares

Teus generosos filhos que não sabem

Jamais degenerar, que de ti dignos,

E apartados de ti, jamais souberam

Riscar teu nome dos briosos peitos;

Anima os tristes c'um sorriso ameno:

Adoça o fel, que n'alma lhes geraram

De te haverem perdido, agras suspeitas;

Co' a presença de um deus, co' a imagem tua,

Os rebeldes castiga, e anima, e preza

A grã fidelidade portuguesa. (Vai-se.)

CORO DENTRO.

  Salve ditoso
Príncipe amável,

Que em trono estável

Vens repousar.

CORO FORA.

  Não mais te lembrem
Raivosa guerra,

Monstros da terra,

Fúrias do mar.

CORO DENTRO.

  Salve ditoso, &.

CORO FORA.

  Jucundo incenso,
Que enlute os ares

Nos teus altares

Vimos queimar.

CORO DENTRO.

  Salve ditoso, &.


FIM.


NOTAS

(1) Esta edição baseia-se nos exemplares da Biblioteca do Conservatório de Santa Cecília, Roma, Coleção Carvalhaes, e da Divisão de Obras Raras da Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. A ortografia foi modernizada e a pontuação atualizada; abolimos o uso de maiúsculas para os substantivos comuns. Edição em HTML de Paulo Mugayar Kühl . Projeto financiado pela FAPESP.
  A obra foi apresentada em 13 de maio de 1810, como parte das comemorações do casamento da princesa da Beira, D. Maria Teresa, com D. Pedro Carlos de Bourbon e Bragança, e também aniversário de nascimento de D. João.. Não existem referências ao compositor ou à música, mas no texto há indicações de alguns personagens que cantam. A Gazeta do Rio de Janeiro de 19/05/1810, ao comentar a festa, informa: "À noite houve ópera, a que foram convidados todos os membros do corpo diplomático, e coros de música debaixo das janelas do Real Palácio." Não há indicação do compositor. Cleofe Person de Mattos indica que o compositor da música é José Maurício Nunes Garcia. Cf. José Maurício Nunes Garcia - Biografia , Rio de Janeiro, Ministério da Cultura, 1997, p. 76.

    

(2) Versos 92-93.

(3) Versos 11-13.  Na tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos:

        De ti o início, a ti o fim; os cantos que encetei
        a teu mandado, aceita-os; dá que em torno às tuas têmporas
        deslize, de permeio à hera, o louro da vitória.

(In Virgílio, Bucólicas, São Paulo, Melhoramentos, Brasília, Ed. da UNB, 1982, p. 129)

(4) O Ilustríssimo Excelentíssimo Senhor D. Antônio de S. José e Castro, Bispo que foi do Porto, e hoje Patriarca. Nota do Autor.

(5) D. Teotônio, prior de Santa Cruz de Coimbra. Nota do Autor.

(6) Coimbra. Nota do Autor.

(7) O Ilustríssimo Excelentíssimo Senhor D. Luís Machado. Nota do Autor.

(8) O Ilustríssimo Senhor Agostinho Luís da Fonseca. Nota do Autor.

(9) O Ilustríssimo Excelentíssimo Senhor Francisco da Silveira Pinto. Nota do Autor.

(10) A ponte do Douro. Nota do Autor.

09-Dec-2002