Preferências de Aprendizagem, uma janela para cidadania

LILIAN SAGIO CÉSAR

Trabalho Final

Para melhor exposição, dividimos o texto nos seguintes tópicos: Introdução, apresentação geral dos temas tratados e das discussões tratadas no trabalho; Objetivos, estabelece com clareza o exercício proposto; metodologia, descreve passo a passo os caminhos seguidos ao longo do trabalho; Resultados, com base nas discussões experiências anteriores estabelece a linha de discussão teórica central do trabalho e Conclusões, onde são repassados os preceitos fundamentais e a linha lógica à qual conduz a conclusão da discussão.

Introdução

Ao longo da vida escolar fui habituada a mensurar minha aprendizagem por seu reflexo quantitativo imediato, as notas das provas. Professores e alunos, ao adotarem o sistema convencional de ensino, reproduzem o esquema behavorista de estímulo-resposta, valorizando sobremaneira a utilização da memória ao invés de estimular o desenvolvimento das capacidades lógicas de reflexão e raciocínio.

Porém, como o objetivo desse trabalho foi de realizar uma experiência pessoal de aprendizagem utilizando as TICs, senti a necessidade, durante a realização dos meus estudos sobre o Photoshop, de repensar todo o esquema tradicional de avaliação de aprendizagem. Para tanto abordarei de forma específica questões relativas à utilização das preferências de aprendizagem enquanto metodologia que pode permitir, através de exemplos e vivências, o amadurecimento do ser enquanto indivíduo, usufruindo da oportunidade de exercitar sua soberania e liberdade, tomando ainda consciência dos seus limites e aprendendo a respeitar a si mesmo e aos outros. Temas aparentemente amplos e dispersos, mas que são fundamentais à discussão sobre a educação no Brasil, seus avanços e retrocessos.

Objetivo

O trabalho hora apresentado é o resultado do exercício de aprendizagem que visa a vivência de uma aprendizagem específica utilizando recursos computacionais, objetivando-se observar questões referentes às preferências individuais de aprendizagem, possíveis dificuldades surgidas durante esse processo e os fatores que influenciaram positiva ou negativamente nos resultados obtidos.

Metodologia

Tendo traçado o objetivo concreto de vivenciar uma experiência de aprendizagem através do "estudo" do programa de edição de imagens Photoshop, planifiquei da seguinte forma as ações a serem tomadas:

1 - iniciar meu processo de aprendizagem através de tutoriais sobre o Photoshop disponíveis na Internet,

2 - se fosse necessário, buscar um especialista para me auxiliar em tarefas específicas,

3 - escolhi restaurar duas fotografias: uma preto e branco e outra colorida,

4 - avaliar o quanto e como aprendi a utilizar o programa através do resultado obtido na restauração das fotografias.

Preocupações iniciais:

Minha primeira preocupação foi com a busca de tutoriais e a verificação de seus conteúdos e modos de exposição. Em meio à Internet, baixei o tutorial disponível no site www.webjornalista.com.br, cujo conteúdo se apresentava em português e as explicações me pareceram razoáveis.

Comparei o tutorial com o Help/ Leia-me disponível no próprio programa e decidi utilizá-los em conjunto para obter maior gama de informações.

Meu processo de aprendizagem iniciou-se com a instalação do Photoshop 6.0 em meu computador. Já com o programa instalado, passei a brincar com o mesmo e verifiquei que sua interface de relacionamento é bastante diferente da interface dos programas contidos no Pacote Office comercializadas pelo Windows. Percebi que teria que começar a aprender utilizar o Photoshop a partir do zero, uma vez que os conhecimentos desenvolvidos por mim sobre os programas do Office-Windows quase não seriam úteis na utilização do Photoshop.

Primeira tarefa realizada em busca da aprendizagem do Photoshop:

  1. distinguir os diferentes formatos de figuras – dpi, pixel, vetores;
  2. sobre as dimensões das imagens – 800X600 dpi é o formato de uma tela de 15 polegadas;
  3. como abrir uma figura;
  4. o que é uma camada e como abrir e descartar uma camada;
  5. como selecionar partes de uma figura com a varinha mágica e com o laço;

- Tarefas não cumpridas: recortar partes de uma figura e colar em outra figura.

Segunda tarefa realizada em busca da aprendizagem do Photoshop:

  1. escolha das fotografias que serão editadas no Photoshop: duas fotografias digitais tiradas de um mesmo ponto que retratam as bandeiras dos Seis Santos da Festa de Congada de São Sebastião do Paraíso, MG, feitas por mim em dezembro de 2001; a primeira fotografia abrange as 3 primeiras bandeiras, Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Ifigênia, e a segunda fotografia retrata as bandeiras de São Domingos, Santa Catarina e São Gerônimo. O objetivo escolhido foi unir as duas fotografias, como se fossem uma imagem só, e tratar as tonalidades de cor e brilho das fotografias.
  2. delimitação e compreensão das ferramentas desse programa que serão utilizadas para a edição;
  3. uso de um tutorial da Internet e do leia-me (Help) do programa na busca das informações necessárias para utilização das mesmas;
  4. solicitação de auxílio a um colega para que esse me fornecesse as primeiras noções sobre o uso do programa. Sua ação foi mais prática que teórica, uma vez que ele, por não dominar completamente o uso do Photoshop, sentou-se ao computador e passou a brincar com uma fotografia do arquivo, mostrando alguns truques e dicas que ele normalmente usava no tratamento de imagens. Percebi que sua ajuda foi importante por me fornecer o primeiro contato com aquela versão do programa e por mostrar que os erros podem ser facilmente cometidos. Uma vez que aprendi como reverter os erro de operação e uso das ferramentas no programa, passei a experimentar mais ações exploratórias, que foram essenciais para o resultado do trabalho prático apresentado.
  5. ferramentas utilizadas: abrir a figura no tamanho ideal para a edição, recortar e colar partes da fotografia, transferindo-as para um mesmo plano de trabalho onde essas pudessem ser unidas, ainda que em camadas diferentes, trabalhar em acertos de cores e iluminação, varinha mágica para seleção, uso das camadas no tratamento das imagens, e gravar as camadas numa figura só imagem.
  6. As informações necessárias para a realização dessas ações formam obtidas no tutorial e no Help/ Leia-me do próprio programa. Para aprender sobre tais recursos passei a ler o item que necessitava e executar uma ação usando aquela ferramenta específica, depois repetia a ação para poder memorizar o procedimento utilizado. Percebi que a busca por algumas ferramentas foram baseadas no conhecimento inicial gerado pela leitura do tutorial e de parte do Help/ Leia-me, porém, outras informações foram sendo adquiridas a partir da minha curiosidade por encontrar caminhos mais fáceis para gerar determinados resultados na imagem, e pela observância aos caminhos percorridos por meu "tutor" para conseguir determinado efeito.

Realização do trabalho prático no Photoshop

Tendo "brincado" com cada uma das imagens escolhidas para fazer o trabalho, com a finalidade de me familiarizar com as fotografias e planejar quais os melhores efeitos a ser utilizados, passei a trabalhar com essas imagens em paralelo, uma ao lado da outra. Percebi que o referente, a parede de fundo da igreja Matriz, onde as bandeiras se localizavam no momento da foto, apresentava-se com diferenças que precisavam ser resolvidas através do uso do programa para que a união das fotografias permitisse a ilusão de que se tratava de uma só foto e não a montagem de duas. Os blocos de tijolo que compõem a parede da primeira foto eram maiores que os blocos apresentados na segunda fotografia.

Para corrigir essa diferença abri um fundo em branco, que seria suporte para a fotografia final, e recortei e colei as duas fotografias nesse fundo, imediatamente estabelecendo duas camadas diferentes, uma para cada foto. Em seguida, selecionei uma das fotografias e passei a mexer com uma das ferramentas que permite o redimensionamento da fotografia como um todo; repeti a operação com a outra fotografia, encaixando os tijolos que apareciam formando uma quina de parede na segunda fotografia com os tijolos retos da primeira.

Para tratar a diferença de cores entre as duas paredes passei a trabalhar com a seleção da primeira camada ajustando a padronagem de cores voltado para o amarelo, e a segunda voltado para o magenta a fim de que ambas as paredes tivessem tonalidades parecidas de cores. Após esse acerto gravei as duas camadas em uma imagem só. Assim pude trabalhar a quina com a mãozinha, espalhando as cores em pontos determinados a fim de retirar da imagem o sinal da união das fotografias.

Num trabalho minucioso passei a selecionar com a varinha mágica cada um dos pontos das bandeiras cuja a nitidez, a cor ou o brilho estivesse mal definido, e dar o tratamento necessário com a ferramenta ajuste de cor/brilho. Finalizado os tratamentos, recortei a imagem retirando arestas e elementos das bordas que não me satisfaziam e colei a figura num outro fundo neutro. Salvei a figura final em jpeg. Para finalizar, fiz um pequeno slide no Power Point contendo as duas fotografias no formato e padrão iniciais e a fotografia final com a imagem das seis bandeiras.

Resultados

Durante todo o processo tive consciência que minhas preferências de aprendizagens não estavam vinculadas aos extremos, por isso não me preocupei com estratégias únicas, deixando fluir o processo de aprendizagem a partir de uma planificação mínima inicial. Todo o trabalho exigiu dedicação, concentração e insistência, num jogo de dar um comando e ver o resultado obtido, dar outro comando e verificar o resultado obtido e assim sucessivamente. Julgo extremamente importante o fato de ter tomado consciência, ao longo dessa atividade, da minha necessidade de estar altamente concentrada para que a aprendizagem se concretize eficientemente, pois essa é certamente uma lição que usarei de maneira consciente por toda minha vida.

Tenho me questionado muito, atualmente, sobre o papel do professor/ educador; nessa atividade em específico, julgo a ação inicial de meu colega extremamente importante. Foi ele quem me mostrou o caminho da interação com o programa e me forneceu o incentivo primeiro para que eu pudesse passar a utilizar o Shotoshop sem medo, percebendo suas potencialidades. Após esse primeiro contato, percorri de maneira solitária o caminho da aprendizagem, mas sempre balizava as experiências e expectativas no exemplo prático dado primeiramente pelo meu "tutor". Talvez, a existência de um Help/ Leia-me munido de exemplos práticos de aplicações de ferramentas que pudessem ser visualizados, como o Help do programa Flash, suprisse essa minha necessidade de buscar auxílio a um colega especialista.

Conclusões

O resultado imediato do exercício de aprendizagem foi a construção de uma imagem fotográfica a partir de duas matrizes iniciais, através da utilização prática do programa editor de imagem Photoshop. Esse exercício me proporcionou aprender eficazmente a utilizar alguns dos recursos disponíveis no programa para fazer edições de fotografias. O ponto central da discussão talvez seja, como mensurar a qualidade da experiência de aprendizagem vivida?

Essa é uma questão que parece sem sentido, mas que na realidade abre a possibilidade de discussões profundas que remetem ao modelo tradicional de ensino em vigor no país. Professores e alunos, ao adotarem o sistema convencional de ensino, reproduzem o esquema behavorista de estímulo-resposta, valorizando sobremaneira a utilização da memória ao invés de estimular o desenvolvimento das capacidades lógicas de reflexão e raciocínio.

O professor exerce o controle sob a aprendizagem dos alunos através da administração do fluxo de entrada de informações fornecidas em classe (in put), e os resultados mensurados em notas, advindos dos trabalhos e provas feitas em classe (out put). Dessa maneira, o professor tem para com o aluno a mesma relação que o operador/ funcionário tem para com os aparelho, segundo análise realizada por Vilém Flusser no texto Ensaio Sobre a Fotografia Para uma filosofia da técnica .

Segundo o autor, aparelho é um brinquedo tão complexo que jamais poderá ser inteiramente esclarecido. Apesar de ser um produto industrial, os aparelhos não podem ser considerados máquinas, pois esses não trabalham em prol de mudar o mundo; o que caracteriza os aparelhos é que esses são programados. Os programas estão inscritos nos aparelhos, sendo o aparelho fotográfico o patriarca de todos os aparelhos. O jogo do aparelho é basicamente a permutação de símbolos previamente contidos no programa, sendo que tal programa deve-se a meta-aparelhos multiformes: industriais, publicitários, econômicos, administrativos, políticos, etc.. Cada um desses funciona de forma automática, programando-se mutuamente, tornando-se assim, independentes do homem. Concomitantemente os aparelhos programam as nossas vidas. "Como o trabalho está a ser assumido por máquinas automáticas e como os homens vão sendo empurrados rumo ao setor terciário, onde brincam com símbolos vazios; como o interesse dos homens se vai transferindo do mundo objetivo para o mundo simbólico das informações: sociedade informática programada; como o pensamento, o desejo e o sentimento vão adquirindo um caráter de jogo em mosaico, um caráter robotizado; como o viver passa a alimentar os aparelhos a ser por eles alimentado. O clima de absurdo torna-se palpável" (FLUSSER; 1997). O indivíduo nunca sabe o que acontece dentro do aparelho no momento de seu uso, permanecendo esse uma caixa-preta; seu controle por parte do operador é realizado através da administração do in put e do out put.

Esquematicamente, tal analogia nos permite repensar as relações professor – aluno da seguinte maneira: o professor controla o in put, informação na forma de matéria dada, e o out put, notas de avaliações e trabalhos, em relação aos alunos. O que se passa no momento da aprendizagem com o aluno permanece uma incógnita tanto para o professor como para o agente da aprendizagem. Como esses não são tábuas rasas, já chegam à escola balizados pelas estruturas e relações trazidas da família e dos primeiros núcleos sociais aos quais teve acesso. Ao tomar contato cada vez mais cedo com os aparelhos, crianças identificam-se com suas linguagens. Por intermédio dos aparelhos, crianças passam a se relacionar com o mundo, inserindo-se na sociedade informática programada. Quando a criança não tem acesso aos aparelhos, essa torna-se excluída de formas de sociabilidade cuja a mediação se dá por intermédio dessa forma de tecnologia.

Normalmente, as relações estabelecidas em grupos familiares aos quais as crianças primeiramente tem acesso em sua vida, são da ordem familiar patriarcal, marcadas pelo personalismo das relações, onde o favor é a moeda de troca e a reciprocidade é a condição básica para o estabelecimento de vínculos, respeito e confiança. Ao mesmo tempo, essas mesmas crianças já estão inseridas na sociedade da informática, habituadas ao hiperestímulo visual, ao sensacionalismo popular, à generalização do entretenimento e da publicidade, à facilidade de decodificação das mensagens que bombardeiam seu cotidiano.

Ao ir para a escola, a criança busca essa base de relações por ela conhecida, para o estabelecimento dos primeiros vínculos. Encontra somente professores interessados em controlar a matéria dada e as notas adquiridas pela turma, por vezes utilizando-se de relações personalistas, como os pontos positivos dados através de critérios subjetivos, em suposto favor do aluno e da turma. Esses professores, ao perceber a dificuldade dos alunos em compreender a leitura do livro, a falta de vontade de estudar, passam a buscar outros métodos para que os alunos assimilem o conteúdo necessário programado. Assim, professores cada vez mais utilizam-se de filmes, filmes-documentários, músicas, Internet, etc., como meios de transmitir a matéria da disciplina.

Quero chamar atenção aqui para dois problemas que merecem ser discutidos quando o assunto é educação: o primeiro diz respeito ao estabelecimento de relações particularistas e personalistas nas escolas pelo fato de ser essa a primeira instituição fruto do Estado Moderno de Direito que as crianças entram em contato. O segundo diz respeito a questão da educação para as diversas formas de linguagens que lançam mensagens até nós, merecendo ser ensinadas em suas especificidades para que as crianças e jovens alcancem sentidos subliminares e ocultos em mensagens que parecem aos olhos leigos, absolutamente claras e auto-evidentes.

A escola, no estado moderno, nasceu da necessidade de se formar cidadãos aptos a exercer relações de ordem pública pautadas na lei, nos deveres e na impessoalidade dos serviços prestados pelo Estado. Enquanto serviço público gratuito garantido em Constituição, a escola foi ao longo de sua existência no Brasil, cooptada pelo privatismo das relações ali estabelecidas e, muitas vezes, pela privatização total de seus serviços.

É certamente a escola a instituição que, grosso modo, foi estruturada conforme as estruturas, exigências e coerções da sociedade à qual pertence e que tem como âmbito de ação a capacidade de reproduzir essas mesmas estruturas sociais através do processo educacional de aprendizagem. É também, na escola, que os habitus serão reproduzidos e, até certo ponto, reinventados pelos educandos. Assim sendo, a relevância do debate crítico que coteje educação e cidadania sem se supor a priori que educação automaticamente pressuponha cidadania, se justifica pela preocupação em se detectar e cercear as formas de poder patrimonial de tipo privatista que estão na base da explicação sociológica para o afrouxamento da ordem pública, democrática e cívica no Brasil. Exemplos dessa tragédia nacional não raram em nosso cotidiano; a expressão "você sabe com QUEM está falando?" assim se revela uma das reminiscências dos senhores de escravos de outrora e dos coronéis de hoje que mandaram e mandam através desse poder patrimonial que cooptou e subjulgou o Estado e suas leis.

A educação institucional para a vida civil pública é talvez a questão mais urgente a ser resolvida pela sociedade brasileira. E a instituição cuja finalidade primeira é a educação, deve introjetar em suas estruturas organizacionais planejamento, formas e relações de ordem pública, para que aquele ambiente como um todo passe a propiciar somente vivências e experiências dessa ordem. Isso passa pelo estabelecimento de papéis e funções claras à toda comunidade, forma de organização padronizada, expectativas estabelecidas e cumpridas, sistema de avaliação claro com mensuração objetiva, formas de punição estabelecidas e aplicadas sempre que couber, conforme regulamento. A norma deve sempre prevalecer acima das relações de amizade, lealdade, etc.. Assim sendo, cabe ainda ao educador vivificar conscientemente esses valores positivos, junto dos seus alunos, desvendando aos alunos a natureza das estruturas sociais que organizam e balizam aquela comunidade.

Tornar consciente ao educando as características possíveis ao processo individual de aprendizagem é aparentemente um ato cujas conseqüências imediatas verificam-se somente na vida estudantil e posteriormente profissional de cada pessoa. Porém, a discussão e vivência de processos de aprendizagens conscientes e reflexivos seguidos a partir das preferências cognitivas individuais podem permitir aos educadores que certos conceitos fundamentais à vida civil sejam explorados e aprendidos. Ter a oportunidade de perceber-se enquanto indivíduo uno, diferente dos demais, que tem preferências e gostos próprios, independentes de ser inatos ou culturalmente construídos, e que têm espaço para construir seu conhecimento de forma própria através de estímulos e informações adquiridas e vivenciadas de maneira particular, apesar dessas poderem ser destinadas à turma como um todo, pode levar o educando à uma tomada de consciência de si e de sua relação com os diversos estímulos informativos-educacionais aos quais está exposto, e também uma reflexão sobre as suas preferências cognitivas em relação às dos outros e vice-versa.

É nesse ponto da discussão sobre preferências de aprendizagem que a ação do professor em estimular o educando a se questionar sobre de que maneira (s) ele aprende?; quais as habilidades e características individuais investidas nesse processo?; que o educador consegue lançar uma pequena luz sob essa caixa-preta que é o aluno. Pelo método convencional, onde o professor controlava somente a matéria dada e as notas obtidas, a preocupação sobre o processo de aprendizagem não existia de forma clara e definida, e consequentemente, o professor buscava na psicologia e em problemas de ordem sócio-econômico explicações para as dificuldades de aprendizagem dos alunos.

A tomada de consciência do aluno em relação às suas preferências de aprendizagem permite que sua ação enquanto sujeito ativo que aprende através de processo e método por ele escolhido, sirva de experiência de ser enquanto indivíduo.

A história política e econômica do Brasil permite verificar que o exercício de ser indivíduo no sentido liberal do termo, soberano de si mesmo, com direitos e deveres dentro da esfera legal pública, foi exercido em curtos períodos de tempo no país. O fim da escravidão em 1888 finalmente permitiu que alguns preceitos liberais se estabelecessem no país como, a soberania nacional, a substituição do braço escravo pelo sistema proletariado burguês através da liberdade econômica, etc.. A inserção dos antigos escravos no mercado de trabalho e na ordem civil pública através das instituições republicanas (ex.: escola) tardou a acontecer. O emigrante substituiu o braço escravo e esse último ficou à margem da sociedade, dependendo dos antigos vínculos servis patriarcais paternalistas. A inserção na sociedade civil se concretizou realmente através da obtenção de emprego e renda. Agremiações privadas financiaram instituições que a princípio deveriam ser públicas e civis: hospitais, escolas, previdência, esportes, cultura, etc.. As associações de mútuo ajuda, de iniciativa dos emigrantes italianos, tinham como função o financiamento das diversas instâncias da vida civil públicas outrora experimentadas por esses em seu país de origem; tais instituições foram fruto da luta entre diferentes interesses de classes sociais, mas que no Brasil, ou não existiam por não estar garantido em lei, ou se existiam eram privilégios daqueles que estavam vinculados aos funcionários do estado que tinham comportamento "patrimonial", ou seja, usavam a gestão política em assuntos de seu interesse particular.

Como disse Sérgio Buarque do Holanda "a democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus privilégios, os mesmos privilégios que tinham sido, no Velho Mundo o alvo da luta da burguesia contra os aristocratas"(Holanda, 1998, 160).

Com Vargas, elementos reformadores como direitos aos trabalhadores garantidos em Constituição foram impostos de cima para baixo, pelos grupos dominantes. Posteriormente, essas reformas possibilitaram que certos elementos da democracia fossem exercidos pelo indivíduo, como o exercício de voto, o acesso à educação pública de qualidade, etc..

A ditadura militar de 64 veio novamente cercear a democracia, influenciando na soberania do ser, do pensar, do agir, restringindo as liberdades individuais. Somente com a redemocratização do país e é que o exercício pleno e soberano da individualidade foi restituído ao ser. Urge agora a restauração do exercício da individualidade para a plena educação de cidadãos que assumam seus direitos e deveres perante as leis, o Estado e a comunidade.

Um dos aspectos mais importantes em se visualizar discussões sobre as preferências da aprendizagem em sala de aula é do professor perceber junto com os alunos as diferentes preferências dos educandos. Caberá ao professor o papel de trabalhar as diferenças individuais de forma includente e não discriminatória , exigindo de seus alunos o respeito mútuo às divergências, dificuldades e características específicas de cada indivíduo. Essa é uma vivência fundamental à qualquer cidadão e quanto antes for exercitada de forma consciente, mais facilmente será assimilada enquanto valor democrático de respeito às individualidades e liberdades do outro, conforme estabelecido em lei.

O aluno deve ser estimulado a se assumir enquanto sujeito ativo, capaz de aprender, conforme suas características individuais e preferências de aprendizagem, os diferentes conteúdos essenciais à sua formação para a vida em sociedade. Para isso, faz-se necessário que experiências educacionais que desenvolvam conceitos como cidadania e democracia façam parte do cotidiano dos alunos e que esses mesmos conceitos sejam explicados e reiterados através de exposições e ações por todos os educadores.

Voltando ao segundo tema problematizado anteriormente, a questão da utilização das TICs na educação deve ser vista com o devido cuidado. Retomemos a consideração de que as crianças estão cada vez mais cedo sendo expostas ao entretenimento, publicidade, hiperestímulos visuais, sensacionalismo popular, etc.., e que as mensagens que chegam até elas de modo repetido, portanto reiterado, são de fácil recepção e interpretação. Isso faz com que, desde cedo, crianças se familiarizem com imagens, cujo conteúdo normalmente é narrativo e se quer fazer crível enquanto verdadeiro e digno de atenção. Concomitantemente, é mínimo o estímulo cotidiano para que essa criança leia. Dessa comparação entre a intensidade dos estímulos podemos supor que as informações normalmente chegam até o mundo infantil através de imagens.

A repercussão desse fato para as experiências de aprendizagem individuais pode gerar a maior facilidade em aprender, por parte das crianças, os conteúdos através do uso da imagem. Porém, existe uma aprendizagem que deve, se possível, preceder ao uso das imagens e das linguagens em geral na educação. Trata-se de discutir e ensinar às crianças algumas das especificidades centrais das diversas formas de linguagens a ser usadas em educação.

Em si, os conteúdos são simples: explicar que toda vez que nos comunicamos usamos as linguagens, que são formas de expressar sentimentos e pensamentos. A fala, o texto, a fotografia, o vídeo, o cinema, o desenho, a dança, etc., são formas de linguagens. A TV e a Internet desenvolveram formas de linguagens próprias, mas em geral permanecem enquanto suportes de diversos programas e sites compostos por várias linguagens: vídeo, cinema, texto, fala, foto, etc.

Ao falar das imagens, a ação do professor se torna um pouco mais complexa pois as imagens se apresentam quotidianamente como mensagens auto-evidentes, verdadeiras por natureza e que são a cópia fidedigna de seu referente. A importância de tratar cada uma das formas de linguagens reside na possibilidade de instruir o olhar do aluno para desvendar o ato de concepção que reside por trás das imagens.

No caso de desenhos, são linguagens codificadas – a mão do artista imprimi códigos ao realizar o desenho – traço, estilo, etc.; no caso de imagens técnicas – imagens feita por aparelhos – trata-se de uma linguagem sem código, de elevado caráter indicial, como se a imagem técnica fosse simples apreensão do real. Fotografias são imagens captadas através de um aparelho, mediante a escolha de cena, ângulo, iluminação, tema, etc. pelo fotógrafo. Sua característica é a contingência material de uma representação do real. Já o cinema é uma imagem cuja característica principal é a apreensão do fluxo numa continuidade temporal; o vídeo tem como especificidade a facilidade de filmagem, sua cômoda repetição enquanto processo, a visualização e observação dos resultados obtidos feita quantas vezes necessário, seja no próprio local da filmagem ou onde fosse conveniente, o que possibilita o exame repetido do mesmo.

Essa educação do olhar permitirá que o aluno aja de forma reflexiva diante da mensagem imagética que chega até ele. Não será através de uma "memorização do tipo fotográfica" que o aluno passará a conceber suas experiências de aprendizagem através das imagens; munido de informações básicas como as aqui expostas, o aluno poderá refletir sobre a imagem, saber quem a realizou, em qual evento, por qual motivo, em que época, etc..

Da mesma forma acontece no uso de imagens na concepção de ambientes educacionais para Internet ou multimídia. As potencialidades das imagens se expandem quando essas são trabalhadas de maneira apropriada, com indicação e legenda que auxiliem a leitura das mesmas e não imputam outros sentidos que vão além das próprias imagens.

Dar possibilidade e ferramentas para que os alunos se tornem mais conscientes do mundo que os cerca e das responsabilidades e desafios que os aguardam, essa é a intenção das discussões aqui trabalhadas, ainda de maneira ampla, mas sendo enfática em pontos importantes para a educação como um todo. Dessa maneira, a discussão sobre como melhor avaliar o processo de aprendizagem deve levar em consideração a relação do aluno com o mundo que o cerca e as habilidades que estão sendo desenvolvidas para possibilitar que o educando se torne o sujeito ativo de sua própria aprendizagem.

 

 Bibliografia

 

CAVELLUCCI, L.C.B. Estilos de aprendizagem: em busca das diferenças individuais. No prelo, 2003.

FLUSSER, V. Ensaio Sobre a Fotografia, Para uma filosofia da técnica, Ed. Relógio D’Água Lda. Lisboa, 1998.

FRANCE, C. Cinema Antropológico. Campinas, SP: Ed. UNICAMP, 1998.

HOLANDA, S.B. Raízes do Brasil, São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

KOSSOY, B. Fotografia e História. São Paulo. Ed. Ática, 1989.

LEITE, M.L. M., SIMSON, O. R. de Moraes Von. Imagem e linguagem: reflexões de pesquisa. Textos CERU. n.º 3, 1992.

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