Conclusões
O resultado imediato do exercício de aprendizagem foi a construção de uma imagem fotográfica a partir de duas matrizes iniciais, através da utilização prática do programa editor de imagem Photoshop. Esse exercício me proporcionou aprender eficazmente a utilizar alguns dos recursos disponíveis no programa para fazer edições de fotografias. O ponto central da discussão talvez seja, como mensurar a qualidade da experiência de aprendizagem vivida?
Essa é uma questão que parece sem sentido, mas que na realidade abre a possibilidade de discussões profundas que remetem ao modelo tradicional de ensino em vigor no país. Professores e alunos, ao adotarem o sistema convencional de ensino, reproduzem o esquema behavorista de estímulo-resposta, valorizando sobremaneira a utilização da memória ao invés de estimular o desenvolvimento das capacidades lógicas de reflexão e raciocínio.
O professor exerce o controle sob a aprendizagem dos alunos através da administração do fluxo de entrada de informações fornecidas em classe (in put), e os resultados mensurados em notas, advindos dos trabalhos e provas feitas em classe (out put). Dessa maneira, o professor tem para com o aluno a mesma relação que o operador/ funcionário tem para com os aparelho, segundo análise realizada por Vilém Flusser no texto Ensaio Sobre a Fotografia Para uma filosofia da técnica .
Segundo o autor, aparelho é um brinquedo tão complexo que jamais poderá ser inteiramente esclarecido. Apesar de ser um produto industrial, os aparelhos não podem ser considerados máquinas, pois esses não trabalham em prol de mudar o mundo; o que caracteriza os aparelhos é que esses são programados. Os programas estão inscritos nos aparelhos, sendo o aparelho fotográfico o patriarca de todos os aparelhos. O jogo do aparelho é basicamente a permutação de símbolos previamente contidos no programa, sendo que tal programa deve-se a meta-aparelhos multiformes: industriais, publicitários, econômicos, administrativos, políticos, etc.. Cada um desses funciona de forma automática, programando-se mutuamente, tornando-se assim, independentes do homem. Concomitantemente os aparelhos programam as nossas vidas. "Como o trabalho está a ser assumido por máquinas automáticas e como os homens vão sendo empurrados rumo ao setor terciário, onde brincam com símbolos vazios; como o interesse dos homens se vai transferindo do mundo objetivo para o mundo simbólico das informações: sociedade informática programada; como o pensamento, o desejo e o sentimento vão adquirindo um caráter de jogo em mosaico, um caráter robotizado; como o viver passa a alimentar os aparelhos a ser por eles alimentado. O clima de absurdo torna-se palpável" (FLUSSER; 1997). O indivíduo nunca sabe o que acontece dentro do aparelho no momento de seu uso, permanecendo esse uma caixa-preta; seu controle por parte do operador é realizado através da administração do in put e do out put.
Esquematicamente, tal analogia nos permite repensar as relações professor – aluno da seguinte maneira: o professor controla o in put, informação na forma de matéria dada, e o out put, notas de avaliações e trabalhos, em relação aos alunos. O que se passa no momento da aprendizagem com o aluno permanece uma incógnita tanto para o professor como para o agente da aprendizagem. Como esses não são tábuas rasas, já chegam à escola balizados pelas estruturas e relações trazidas da família e dos primeiros núcleos sociais aos quais teve acesso. Ao tomar contato cada vez mais cedo com os aparelhos, crianças identificam-se com suas linguagens. Por intermédio dos aparelhos, crianças passam a se relacionar com o mundo, inserindo-se na sociedade informática programada. Quando a criança não tem acesso aos aparelhos, essa torna-se excluída de formas de sociabilidade cuja a mediação se dá por intermédio dessa forma de tecnologia.
Normalmente, as relações estabelecidas em grupos familiares aos quais as crianças primeiramente tem acesso em sua vida, são da ordem familiar patriarcal, marcadas pelo personalismo das relações, onde o favor é a moeda de troca e a reciprocidade é a condição básica para o estabelecimento de vínculos, respeito e confiança. Ao mesmo tempo, essas mesmas crianças já estão inseridas na sociedade da informática, habituadas ao hiperestímulo visual, ao sensacionalismo popular, à generalização do entretenimento e da publicidade, à facilidade de decodificação das mensagens que bombardeiam seu cotidiano.
Ao ir para a escola, a criança busca relações personalistas, por ela já conhecida, para o estabelecimento dos primeiros vínculos. Encontra professores interessados em controlar a matéria dada e as notas adquiridas pela turma, por vezes utilizando-se das relações personalistas, como os pontos positivos dados através de critérios subjetivos, em suposto favor do aluno e da turma. Esses professores, ao perceber a dificuldade dos alunos em compreender a leitura do livro, a falta de vontade de estudar, passam a buscar outros métodos para que os alunos assimilem o conteúdo necessário programado. Assim, professores cada vez mais utilizam-se de filmes, filmes-documentários, músicas, Internet, etc., como meios de transmitir a matéria da disciplina.
Quero chamar atenção aqui para dois problemas que merecem ser discutidos quando o assunto é educação: o primeiro diz respeito ao estabelecimento de relações particularistas e personalistas nas escolas pelo fato de ser essa a primeira instituição fruto do Estado Moderno de Direito que as crianças entram em contato. O segundo diz respeito a questão da educação para as diversas formas de linguagens que lançam mensagens até nós, merecendo ser ensinadas em suas especificidades para que as crianças e jovens alcancem sentidos subliminares e ocultos em mensagens que parecem aos olhos leigos, absolutamente claras e auto-evidentes.
A escola, no estado moderno, nasceu da necessidade de se formar cidadãos aptos a exercer relações de ordem pública pautadas na lei, nos deveres e na impessoalidade dos serviços prestados pelo Estado. Enquanto serviço público gratuito garantido em Constituição, a escola foi ao longo de sua existência no Brasil, cooptada pelo privatismo das relações ali estabelecidas e, muitas vezes, pela privatização total de seus serviços.
É certamente a escola a instituição que, grosso modo, foi estruturada conforme as estruturas, exigências e coerções da sociedade à qual pertence e que tem como âmbito de ação a capacidade de reproduzir essas mesmas estruturas sociais através do processo educacional de aprendizagem. É também, na escola, que os habitus serão reproduzidos e, até certo ponto, reinventados pelos educandos. Assim sendo, a relevância do debate crítico que coteje educação e cidadania sem se supor a priori que educação automaticamente pressuponha cidadania, se justifica pela preocupação em se detectar e cercear as formas de poder patrimonial de tipo privatista que estão na base da explicação sociológica para o afrouxamento da ordem pública, democrática e cívica no Brasil. Exemplos dessa tragédia nacional não raram em nosso cotidiano; a expressão "você sabe com QUEM está falando?" assim se revela uma das reminiscências dos senhores de escravos de outrora e dos coronéis de hoje que mandaram e mandam através desse poder patrimonial que cooptou e subjulgou o Estado e suas leis.
A educação institucional para a vida civil pública é talvez a questão mais urgente a ser resolvida pela sociedade brasileira. E a instituição cuja finalidade primeira é a educação, deve introjetar em suas estruturas organizacionais planejamento, formas e relações de ordem pública, para que aquele ambiente como um todo passe a propiciar somente vivências e experiências dessa ordem. Isso passa pelo estabelecimento de papéis e funções claras à toda comunidade, forma de organização padronizada, expectativas estabelecidas e cumpridas, sistema de avaliação claro com mensuração objetiva, formas de punição estabelecidas e aplicadas sempre que couber, conforme regulamento. A norma deve sempre prevalecer acima das relações de amizade, lealdade, etc.. Assim sendo, cabe ainda ao educador vivificar conscientemente esses valores positivos, junto dos seus alunos, desvendando aos alunos a natureza das estruturas sociais que organizam e balizam aquela comunidade.
Tornar consciente ao educando as características possíveis ao processo individual de aprendizagem é aparentemente um ato cujas conseqüências imediatas verificam-se somente na vida estudantil e posteriormente profissional de cada pessoa. Porém, a discussão e vivência de processos de aprendizagens conscientes e reflexivos seguidos a partir das preferências cognitivas individuais podem permitir aos educadores que certos conceitos fundamentais à vida civil sejam explorados e aprendidos. Ter a oportunidade de perceber-se enquanto indivíduo uno, diferente dos demais, que tem preferências e gostos próprios, independentes de ser inatos ou culturalmente construídos, e que têm espaço para construir seu conhecimento de forma própria através de estímulos e informações adquiridas e vivenciadas de maneira particular, apesar dessas poderem ser destinadas à turma como um todo, pode levar o educando à uma tomada de consciência de si e de sua relação com os diversos estímulos informativos-educacionais aos quais está exposto, e também uma reflexão sobre as suas preferências cognitivas em relação às dos outros e vice-versa.
É nesse ponto da discussão sobre preferências de aprendizagem que a ação do professor em estimular o educando a se questionar sobre de que maneira (s) ele aprende?; quais as habilidades e características individuais investidas nesse processo?; que o educador consegue lançar uma pequena luz sob essa caixa-preta que é o aluno. Pelo método convencional, onde o professor controlava somente a matéria dada e as notas obtidas, a preocupação sobre o processo de aprendizagem não existia de forma clara e definida, e consequentemente, o professor buscava na psicologia e em problemas de ordem sócio-econômico explicações para as dificuldades de aprendizagem dos alunos.
A tomada de consciência do aluno em relação às suas preferências de aprendizagem permite que sua ação enquanto sujeito ativo que aprende através de processo e método por ele escolhido, sirva de experiência de ser enquanto indivíduo.
A história política e econômica do Brasil permite verificar que o exercício de ser indivíduo no sentido liberal do termo, soberano de si mesmo, com direitos e deveres dentro da esfera legal pública, foi exercido em curtos períodos de tempo no país. O fim da escravidão em 1888 finalmente permitiu que alguns preceitos liberais se estabelecessem no país como, a soberania nacional, a substituição do braço escravo pelo sistema proletariado burguês através da liberdade econômica, etc.. A inserção dos antigos escravos no mercado de trabalho e na ordem civil pública através das instituições republicanas (ex.: escola) tardou a acontecer. O emigrante substituiu o braço escravo e esse último ficou à margem da sociedade, dependendo dos antigos vínculos servis patriarcais paternalistas. A inserção na sociedade civil se concretizou realmente através da obtenção de emprego e renda. Agremiações privadas financiaram instituições que a princípio deveriam ser públicas e civis: hospitais, escolas, previdência, esportes, cultura, etc.. As associações de mútuo ajuda, de iniciativa dos emigrantes italianos, tinham como função o financiamento das diversas instâncias da vida civil públicas outrora experimentadas por esses em seu país de origem; tais instituições foram fruto da luta entre diferentes interesses de classes sociais, mas que no Brasil, ou não existiam por não estar garantido em lei, ou se existiam eram privilégios daqueles que estavam vinculados aos funcionários do estado que tinham comportamento "patrimonial", ou seja, usavam a gestão política em assuntos de seu interesse particular.
Como disse Sérgio Buarque do Holanda "a democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus privilégios, os mesmos privilégios que tinham sido, no Velho Mundo o alvo da luta da burguesia contra os aristocratas"(Holanda, 1967, 160).
Com Vargas, elementos reformadores como direitos aos trabalhadores garantidos em Constituição foram impostos de cima para baixo, pelos grupos dominantes. Posteriormente, essas reformas possibilitaram que certos elementos da democracia fossem exercidos pelo indivíduo, como o exercício de voto, o acesso à educação pública de qualidade, etc..
A ditadura militar de 64 veio novamente cercear a democracia, influenciando na soberania do ser, do pensar, do agir, restringindo as liberdades individuais. Somente com a redemocratização do país é que o exercício pleno e soberano da individualidade foi restituído ao ser. Urge agora a restauração do exercício da individualidade para a plena educação de cidadãos que assumam seus direitos e deveres perante as leis, o Estado e a comunidade.
Um dos aspectos mais importantes em se visualizar discussões sobre as preferências da aprendizagem em sala de aula é do professor perceber junto com os alunos as diferentes preferências dos educandos. Caberá ao professor o papel de trabalhar as diferenças individuais de forma includente e não discriminatória , exigindo de seus alunos o respeito mútuo às divergências, dificuldades e características específicas de cada indivíduo. Essa é uma vivência fundamental à qualquer cidadão e quanto antes for exercitada de forma consciente, mais facilmente será assimilada enquanto valor democrático de respeito às individualidades e liberdades do outro, conforme estabelecido em lei.
O aluno deve ser estimulado a se assumir enquanto sujeito ativo, capaz de aprender, conforme suas características individuais e preferências de aprendizagem, os diferentes conteúdos essenciais à sua formação para a vida em sociedade. Para isso, faz-se necessário que experiências educacionais que desenvolvam conceitos como cidadania e democracia façam parte do cotidiano dos alunos e que esses mesmos conceitos sejam explicados e reiterados através de exposições e ações por todos os educadores.
Voltando ao segundo tema problematizado anteriormente, a questão da utilização das TICs na educação deve ser vista com o devido cuidado. Retomemos a consideração de que as crianças estão cada vez mais cedo sendo expostas ao entretenimento, publicidade, hiperestímulos visuais, sensacionalismo popular, etc.., e que as mensagens que chegam até elas de modo repetido, portanto reiterado, são de fácil recepção e interpretação. Isso faz com que, desde cedo, crianças se familiarizem com imagens, cujo conteúdo normalmente é narrativo e se quer fazer crível enquanto verdadeiro e digno de atenção. Concomitantemente, é mínimo o estímulo cotidiano para que essa criança leia. Dessa comparação entre a intensidade dos estímulos podemos supor que as informações normalmente chegam até o mundo infantil através de imagens.
A repercussão desse fato junto às experiências de aprendizagem individuais pode ser o desenvolvimento de capacidades que permitam uma maior facilidade das crianças em aprender os conteúdos através do uso da imagem. Porém, existe uma aprendizagem que deve, se possível, preceder ao uso das imagens e das linguagens em geral na educação. Trata-se de discutir e ensinar às crianças algumas das especificidades centrais das diversas formas de linguagens a ser usadas em educação.
Em si, os conteúdos são simples: explicar que toda vez que nos comunicamos usamos as linguagens, que são formas de expressar sentimentos e pensamentos. A fala, o texto, a fotografia, o vídeo, o cinema, o desenho, a dança, etc., são formas de linguagens. A TV e a Internet desenvolveram formas de linguagens próprias, mas em geral permanecem enquanto suportes de diversos programas e sites compostos por várias linguagens: vídeo, cinema, texto, fala, foto, etc.
Ao falar das imagens, a ação do professor se torna um pouco mais complexa pois as imagens se apresentam quotidianamente como mensagens auto-evidentes, verdadeiras por natureza, cópia fidedigna de seu referente. A importância de tratar cada uma das formas de linguagens reside na possibilidade de instruir o olhar do aluno para desvendar o ato de concepção que reside por trás das imagens.
No caso de desenhos, são linguagens codificadas – a mão do artista imprimi códigos ao realizar o desenho – traço, estilo, etc.; no caso de imagens técnicas – imagens feita por aparelhos – trata-se de uma linguagem sem código, de elevado caráter indicial, como se a imagem técnica fosse simples apreensão do real.
Fotografias são imagens captadas através de um aparelho, mediante a escolha de cena, ângulo, iluminação, tema, etc. pelo fotógrafo. Sua característica é a contingência material de uma representação do real. É necessário enfatizar que o fato de ser uma representação do real não significa que a imagem seja uma cópia do real, pois no ato fotográfico permite ao fotógrafo uma certa liberdade de criação sobre a imagem, fazendo com que sentidos sejam imputado à fotografia. O mesmo acontece com o cinema, o vídeo, etc..
O cinema é uma imagem cuja característica principal é a apreensão do fluxo numa continuidade temporal; o vídeo tem como especificidade a facilidade de filmagem, sua cômoda repetição enquanto processo, a visualização e observação dos resultados obtidos feita quantas vezes necessário, seja no próprio local da filmagem ou onde fosse conveniente, o que possibilita o exame repetido do mesmo.
Essa educação do olhar permitirá que o aluno aja de forma reflexiva diante da mensagem imagética que chega até ele. Não será através de uma "memorização do tipo fotográfica" que o aluno passará a conceber suas experiências de aprendizagem através das imagens; munido de informações básicas como as aqui expostas, o aluno poderá refletir sobre a imagem, saber quem a realizou, de que maneira, com qual intenção, em qual evento, por qual motivo, em que época, etc..
Da mesma forma acontece no uso de imagens na concepção de ambientes educacionais para Internet ou multimídia. As potencialidades das imagens se expandem quando essas são trabalhadas de maneira apropriada, com indicação e legenda que auxiliem a leitura das mesmas e não imputam outros sentidos que vão além das próprias imagens.
Dar possibilidade e ferramentas para que os alunos se tornem mais conscientes do mundo que os cerca e das responsabilidades e desafios que os aguardam, essa é a intenção das discussões aqui trabalhadas, ainda de maneira ampla, mas sendo enfática em pontos importantes para a educação como um todo. Dessa maneira, a discussão sobre como melhor avaliar o processo de aprendizagem deve levar em consideração a relação do aluno com o mundo que o cerca e as habilidades que estão sendo desenvolvidas para possibilitar que o educando se torne o sujeito ativo de sua própria aprendizagem.
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