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Interatividade e Convergência das Mídias
Por
César Baio e Marcelo Pires de Oliveira
A
partir do início da revolução digital a comunicação entre
os homens tem sofrido inúmeras transformações, desde a criação
de novos canais comunicacionais, até mudanças nas linguagens
de alguns meios preexistentes. Estas interferências ocorrem
devido aos diversos fatores intrínsecos ao meio digital, neste
artigo trataremos de dois componentes deste universo multimidiático,
a Interatividade e a Convergência das Mídias.
Segundo o dicionário de língua portuguesa “Aurélio”, a interatividade,
significa a ação que se exerce mutuamente entre duas ou mais
coisas, ou duas ou mais pessoas. Esta palavra vem sendo empregada
constantemente na atualidade, pois a ela, hoje, está associada
toda a experiência de reciprocidade que se realiza entre o
ser humano e as diversas máquinas que nos rodeiam, entre elas
os aparelhos de comunicação.
Mesmo já existindo anteriormente em outros meios, a interatividade
só ganhou lugar de destaque no discurso dos comunicólogos
com o desenvolvimento da hipermídia, esta atenção se deve
às enormes proporções das interferências que a interação com
o meio causou, não só nos processos comunicacionais atuais,
como também no próprio intelecto do homem.
Para percebermos o âmbito desta transformação é necessário
lembrar de outro período determinante para a evolução intelectual
da sociedade: a invenção da escrita, uma vez que a partir
desta o homem foi capaz de organizar seu pensamento, estruturar
seu raciocínio e transmitir o conhecimento, rompendo barreiras
do espaço e do tempo, transformando radicalmente a cultura
da nossa civilização e a estruturação do pensamento humano.
“Para realmente entender a mutação da civilização, é preciso
passar por um retorno reflexivo sobre a primeira grande transformação
na ecologia das mídias: a passagem das culturas orais às culturas
escritas.”[1]
Neste texto de Pierre Lévy, podemos observar o quanto um aspecto
comunicacional pode ser importante no desenvolvimento da humanidade,
pois neste processo, a escrita cravou tão fortemente suas
linhas que chegou a realizar uma mutação em toda a civilização,
como descreve o autor.
Assim como, a escrita transformou radicalmente a conduta da
sociedade em sua época, a interatividade também está mudando
os rumos das relações e do próprio conhecimento humano. Juan
Luiz Cebrián equipara a revolução que estamos vivendo à gerada
pela escrita.
“A emergência do ciberespaço, de fato, provavelmente terá
– ou já tem hoje – um efeito tão radical sobre a pragmática
das comunicações quanto teve, em seu tempo, a escrita.”[2]
A escrita estruturou o pensamento humano sob suas linhas,
conduzindo assim a uma linearidade própria da construção da
palavra escrita, guiando o pensamento do leitor por seu único
fio condutor e não permitindo que este se aventure por outras
vias que não uma única oferecida pelo autor.
Esta linearidade proposta pela escrita e assimilada tão bem
pelo homem se fez presente também nos meios de comunicação,
que a partir dela construíram suas mensagens através de roteiros
lineares, que obedeciam a uma lógica temporal e linear. Um
grande exemplo disso é a televisão, que tem o conteúdo de
cada canal construído por roteiros temporalmente seqüenciados;
novelas, programas humorísticos, séries e filmes obedecem
até hoje este mesmo preceito - guiado pela forma linear de
se narrar os fatos.
As pessoas que se submetem a esta programação se tornam em
maior ou menor grau receptores passivos de informações, este
efeito é ampliado pelo fato de a televisão ser considerada
como um meio de lazer “O televisor presta-se ao ócio e ao
entretenimento – seja para assistir filmes, ouvir gravações
musicais ou o enredo de jogos interativos... poucos imaginamos,
entretanto, receber uma carta ou participar de um grupo de
discussões por um televisor...”[3].
Os telespectadores recebem seu conteúdo e não questionam sobre
sua mensagem, em geral os programas televisivos exibidos diariamente,
não são grande estimuladores do raciocínio, com seus roteiros
lineares, ao contrário, incentivam o recebimento passivo de
informações, atitude que muitas vezes se torna instintiva
e dispersiva. Instintiva, porque as pessoas já estão habituadas
a sentarem em frente à televisão em seus determinados horários
e a assistirem aos seus programas favoritos e esta relação
é tão intensa e extensa, que quando têm um momento de descanso,
já se postam diante do aparelho receptor instintivamente.
Dispersiva, porque devido ao fato de a televisão linear não
exigir grandes esforços para a compreensão da mensagem, esta
se torna uma forma das pessoas se desligarem temporariamente
dos seus problemas e permitir que suas mentes não estejam
à mercê de suas preocupações cotidianas.
É diante desta realidade que a interatividade se mostra tão
revolucionária, uma vez que os meios de comunicação influenciam
nossa forma de perceber informações, modificam também nossa
forma de agir, pensar e se relacionar com a comunidade e com
o próprio meio, reestruturando as relações interpessoais de
toda a sociedade.
“Novas maneiras de pensar e de conviver estão sendo elaboradas
no mundo das telecomunicações e da informática. As relações
entre os homens, o trabalho, a própria inteligência dependem
na verdade da metamorfose incessante dos dispositivos informacionais...”[4]
Para compreender a relação da interatividade com os meios
de comunicação é necessário estabelecer uma diferença entre
o meio interativo e o conteúdo interativo, evidentemente,
o segundo só é possível com os recursos oferecidos pelo primeiro,
porém uma mídia interativa não garante a interatividade do
roteiro da mensagem. Para entender melhor estas relações,
vamos as definições dos termos: o “meio interativo” se refere
às mídias que tecnologicamente possibilitam a intervenção
do usuário nas mensagens que recebe, oferecendo a ele a escolha
entre diferentes programas, possibilidade de compras diretamente
pela mídia e até mesmo a escolha de diferentes caminhos para
a mesma estória; a partir deste ponto é construído o segundo
conceito, de “conteúdo interativo”, que se refere estritamente
à mensagem que oferece ao usuário a possibilidade de interferir
diretamente no roteiro de sua estória, criando a partir de
uma rede de nós um roteiro com diversos caminhos, que é montado
individualmente pelo usuário durante o recebimento da mensagem,
a partir de opções preestabelecidas pelo autor.
Diante destes conceitos é possível afirmar que quando instaurada,
a televisão digital interativa levará um determinado tempo
para estabelecer linguagens específicas que explorem com eficácia
e penetração todo o potencial de interação oferecido pela
tecnologia. Em um primeiro momento provavelmente ocorrerá
a emulação da televisão já conhecida dentro deste novo formato
de televisão interativa.
O canal de duas vias dos meios interativos nos chama a interferir
na mensagem e assim exige nossa atenção, uma vez que a todo
momento somos chamados a decidir algo, para tanto, é imprescindível
estar o tempo todo consciente da mensagem, tanto na especificidade
de cada ação ou personagem, quanto no contexto desenhado pelo
roteiro, esta característica estimula o interlocutor em buscas
pessoais por opiniões intrínsecas em si mesmas e o retira
do transe ao qual a televisão de hoje o insere. Transe este
ampliado pelas falsas promessas de interatividade que o controle
remoto nos descortina, como bem lembra Beatriz Sarlo:
“Imagens ideais e um dispositivo relativamente simples, o
controle remoto, tornaram possível o grande avanço interativo
das últimas décadas, que não foi resultado de um desenvolvimento
tecnológico da parte das grandes corporações, e sim dos usuários
comuns e correntes.”[5] Estes
usuários, sujeitos e objetos da experiência da interação com
as mídias atualmente se deparam com um novo estímulo.
“O ciberdrama que está vindo pode nos auxiliar a nos reconciliarmos
com nossa experiência subjetiva de nós mesmos, podendo colocar
as coisas em seus devidos lugares e oferecendo um contexto
específico para os comportamentos humanos”[6]
As mudanças causadas pela hipermídia obrigam as pessoas a
terem uma relação muito mais pessoal com a mídia, causando
assim uma necessidade de reaprendizado em relação a esta,
como expõe Arlindo Machado: “as modalidades computadorizadas
de multimídia e hipermídia apontam hoje para a possibilidade
de novos parâmetros de leitura por parte do sujeito receptor.”[7]
Mais do que na quebra da passividade do espectador, a interatividade,
uma vez que oferece um acesso aleatório às informações, também
propõe um roteiro onde o usuário acesse a informação de maneira
não ordenada e crie em sua própria mente a melhor forma de
ordená-las, isto o leva a uma percepção mais completa da mensagem
e constrói uma forma de compreensão não linear, esta nova
forma de captar e entender a mensagem, muito mais complexa
e rica, como afirma Pierre Lévy, muda até mesmo a relação
receptor / criador.
“Esta (a interatividade) recupera para ao indivíduo a possibilidade
do diálogo, devolve-o, assim, à sua própria condição ética
e o situa novamente no centro da criação... permite imaginar
todo o tipo de evoluções na relação do homem com seu meio.”[8]
A percepção aleatória que introduziu o homem no pensamento
não linear, causou também a necessidade de perceber uma mensagem
pelos mais diversos âmbitos, sem que ela possa necessariamente
passar por uma ordem cronológica preestabelecida.
“Estórias escritas em hipertexto geralmente possuem mais do
que um ponto de entrada, muitas bifurcações internas e um
final não muito claro. As narrativas baseadas em hipertexto
são extremamente intrincadas, formando uma teia com muitas
linhas de execução.”[9]
O pensamento não linear já é uma constante na vida das novas
gerações “eles (jovens de zero a vinte anos) são a primeira
geração que chegará à maioridade na era digital. Estão imersos
em bytes. Para essa população cada vez mais numerosa com acesso
à rede, as ferramentas digitais não são tecnologia mais complicada
do que a televisão ou a geladeira”[10],
com esta penetração, a construção aleatória do pensamento
cria a exigência de uma visão plurilateral até mesmo nos meios
que não possuem tecnologias de interatividade como é o caso
do cinema, que recentemente tem produzido filmes como “Corra,
Lola, Corra”, onde os roteiros passeiam pelo tempo e espaço,
buscando um entendimento lógico a partir da visão de uma história
não linear, forçando o público a reconstruir o roteiro a partir
de informações dadas randomicamente, dentro dos limites da
linearidade da película. Este filme não é puramente uma criação
isolada, mas reflete esta tendência de aleatoriedade nas mensagens
e nos meios.
Como comentado anteriormente, outra mídia que está sofrendo
forte influência desta não linearidade é a televisão, pois
com a consolidação da hipermídia surge a convergência das
mídias, assunto de extrema discussão em todas as esferas do
conhecimento, como afirma Joel de Rosnay[11]
“ ... nos encontramos diante de uma tecnologia de integração
(...) as tecnologias de integração constituem o fruto da convergência
de várias delas (tecnologias) e, longe de produzir um passo
a mais na evolução do sistema, modificam substancialmente
o conjunto desse (sistema)”. Mas o que está sendo abordado
na maioria dos estudos envolvendo as tecnologias de convergência,
não é a união dos veículos de informação, mas a união das
tecnologias em torno, ou melhor, dentro, de um único aparelho.
Sendo portanto a multimídia, não o uso de diversas mídias,
mas a integração destas muitas mídias em um único aparelho,
o “unimídia”. Desta forma o grande paradoxo do momento atual
não está na elaboração dos conteúdos para os usos multimidiáticos,
mas numa outra ponta do processo, o usuário.
Este usuário que é o destinatário dos conteúdos e produtos
da mídia é esquecido e negligenciado. Fala-se, e muitas vezes,
gasta-se muita tinta sobre papel para descrever novos sistemas
e processos, mas pouco se reflete sobre o seu impacto na vida
e sua utilização por parte do destinatário da informação.
Raymond Willians[12] já afirmou
que as inovações tecnológicas dependem, e muito, da reação
e da educação dos usuários, para que sejam incorporados ao
cotidiano da sociedade. Da mesma forma como definiu a televisão,
tanto como aparelho tecnológico, quanto como forma de manifestação
cultural, neste limiar de um novo milênio, nos deparamos com
um novo equipamento que também, à sua maneira, deverá ser
definido não apenas por suas características tecnológicas,
mas também pelo impacto cultural que vêm realizando.
Assim, podemos perceber a chegada da televisão digital, pois
ela permitirá a interação do outrora espectador, agora interlocutor,
com o meio de comunicação de maior penetração no mundo e com
a maior base instalada disponível à baixo custo. Em conjunto
com esta tendência seguem os criadores que se sentem chamados
a produzir conteúdos com este novo recurso de comunicação.
“Os profissionais da computação se movem para a criação de
mundos ficcionais e o público se movimenta para um estágio
virtual participativo.”[13]
Portanto, um aspecto que por sua complexidade e dificuldade
de mensuração deve e precisa ser abordado em futuros estudos,
é como o usuário das tecnologias se adapta e utiliza os produtos
a ele apresentados, pois os atuais processos de mensuração
das reações dos usuários estão sendo os de medição do fluxo
de conteúdos, como relata Juan Luis Cebrián[14]:
“No que se refere aos conteúdos e ao material que flui pelas
redes, a velocidade sugere, também, uma voracidade do sistema
diante da qual os produtores percebem-se cada vez mais impotentes
no momento de abastecê-lo.”.
Pois é nesse quadro, de grande velocidade dos veículos na
entrega de novos produtos que os olhares passam a se concentrar
e que devemos nos preocupar, pois as tecnologias da multimídia
já extrapolaram os aspectos tecnológicos e agora o que devemos
considerar são também os aspectos econômicos, sociais, políticos
e humanos.
No entanto, a geração sedenta por interatividade e convergência
entre as mídias ainda está em sua pós-adolescência, não compõe
a maioria da população, pois esta ainda é formada por pessoas
que não estão contagiadas por esta nova forma de compreensão
do mundo e por isso sentem dificuldades em participar dele.
“A maior facilidade das interfaces introduzirá no emprego
de novas técnicas, uma população adulta, lenta para enfrentar
os truques da cibercultura. É certo que a revolução tecnológica
não chega a todos de forma igual.”[15]
Por mais estimulante que seja esta fase pela qual passamos,
ainda enfrentaremos um momento de adaptação onde algumas correntes
tecnológicas podem até mesmo mudar sua direção, porém, a interatividade
está causando uma transformação irreversível nas estruturas
de toda a civilização; este processo está longe do seu ápice
e certamente, provocará ainda muitas mudanças, tanto nos hábitos,
como na percepção e no pensamento humano. Assim como a convergência,
que na sua concentração de mídias sobre um mesmo equipamento,
deve alterar a forma como o usuário interage com os diversos
suportes e linguagens, que a partir de agora tendem a dividir
o mesmo espaço midiático.
Uma vez que a direção em que a humanidade caminha é regida
pelas condições econômicas, o futuro das evoluções no que
diz respeito ao emprego de tecnologias interativas nos meios
de comunicação, inclusive a criação da televisão digital dentro
do computador, está hoje muito mais condicionada à aceitação
desta interatividade pela população, do que propriamente da
evolução tecnológica dos equipamentos. Apesar de apresentar
uma incrível capacidade de estruturar a percepção pessoal
a partir de fragmentos informacionais, a interatividade também
obriga as pessoas a se manterem atentas às informações que
as cercam, com isso só nos resta esperar até um futuro muito
próximo para compreendermos efetivamente os desdobramentos
desta evolução que terá seus efeitos marcados na história,
muito mais no aspecto intelectual e cultural, do que no tecnológico.
Bibliografia
CEBRIÁN, Jean Luis. A rede – como nossas vidas
serão transformadas pelos novos meios de comunicação. São
Paulo: Summus, 1999.
LÉVY, Pierre. As Tecnologias da inteligência – o futuro do
pensamento na era da informática. São Paulo: editora34,1993.
___________. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.
SARLO, Beatriz. Cenas da vida pós-moderna. Intelectuais, arte
e vídeo-cultura na Argentina. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997.
WILLIAMS, Raymond. Television: technology and cultural form.
New York, Schoken Books, 1974.
MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Ed.
Senac São Paulo, 2000.
___________. Formas expressivas da contemporaneidade. In Ensaios
sobre a contemporaneidade. CD-ROM. São Paulo: PUC, Programa
de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica, 1993c.
COMPARATO, Doc. Da criação ao roteiro. Rio de Janeiro: Rocco,
1995.
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[1] Pierre Lévy. Cibercultura. São Paulo:
Ed. 34, 1999. p 113.
[2] Pierre Lévy. Op. cit. p. 114.
[3] Juan Luis Cebrián. A Rede, como nossas vidas serão
transformadas pelos novos meios de comunicação. São Paulo.
Summus, 1999, p. 46.
[4] Pierre Lévy. Tecnologias da inteligência, p. 7.
[5] Beatriz Sarlo. Cenas da vida pós-moderna. p. 57.
[6] Doc Comparato. Da criação ao roteiro. Rio de Janeiro:
Rocco, 1995. p. 448.
[7] Arlindo Machado. Artigo: “Formas expressivas da
contemporaneidade”, 1993c.
[8] Juan Luis Cebrián. Op. cit. p. 52.
[9] Doc Comparato. Op. cit. p. 438.
[10] Juan Luis Cebrián. Ibidem. p. 27.
[11] Joel de Rosnay. A revolução das comunicações e seu
impacto no homem e na empresa. Conferência pronunciada no
Instituto Francês. Madri, 1997.
[12] Raymond Willians. Television, technology and cultural
form.
[13] Doc Comparato. Op cit. p. 436.
[14] Juan Luis Cebrián. Op. cit.
[15] Juan Luis Cebrián. Ibidem. p. 46.
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