Música por computador:  novas possibilidades de criação e profissionalização

Por Cíntia Campolina de Onofre


A relação intensa com o aprendizado, com a transmissão e a produção de conhecimentos não está mais reservado para uma elite, mas diz respeito à massa das pessoas em sua vida diária e em seu trabalho.(Pierre Lévy)

Como imaginarmos a redação de um jornal sem um computador? Ou um banco sem informatização? Para algumas profissões, o computador como instrumento de trabalho tornou-se imprescindível. No campo musical, igualmente o uso do computador está cada vez mais se aprimorando. Entretanto, se por alguns anos pensou-se que o computador substituiria a mão de obra nas profissões – o que hoje sabemos ser uma afirmação errônea – em música é oportuno lembrar que a nova tecnologia possibilita ao músico inúmeras opções para profissionalização, abrindo assim novos campos de trabalho. Tracemos um histórico da música por computador para entendermos quais as possibilidades profissionais ele pode oferecer.

Segundo Moore - professor do departamento de música da Universidade da Califórnia - o primeiro trabalho produzido por computadores advém da década de 50 e era centrado na utilização de computadores para compor música [1]. A composição era de acordo com regras expressas por meio de linguagens de programação. Ele conta que desde essa época os computadores vem sendo usados para estudar análises de partituras musicais por musicólogos e observa que a maioria da utilização se refere à criação de sons, a utilização de computadores como instrumentos musicais, vindo da música eletrônica. Porém tendo pouco a ver com a música eletrônica tradicional, como a música concreta ou dos sintetizadores de música analógica tipo Moog. De acordo com essas afirmações o o médico e pesquisador Sabattini [2], aponta para a complexidade da música realizada pelos computadores:

“Vista como um domínio do conhecimento, a música computacional é uma das atividades mais interdisciplinares que existem, englobando muitos aspectos de música (composição, performance, musicologia), ciência da computação (programação, inteligência artificial), engenharia elétrica (circuitos analógicos e digitais, arquiteturas de máquinas, processamento digital de sinal), psicologia (percepção, cognição) e física (acústica).”

Percebemos por essa afirmação que Sabbatini tem razão quanto a gama de conhecimentos que o uso do computador em música dispende. Isso cobra do usuário, uma série de informações não necessitadas anteriormente para demonstrar sua arte. Na música, o uso do computador tem cada vez mais firmado seu espaço, obrigando o músico - que antes dedicava ao seu instrumento musical horas de estudo – a dividir seu tempo no aprendizado de uma nova forma de demonstrar sua arte. Sabemos que esse aprendizado é necessário e o músico precisa ter disposição, pois o volume de informações é extenso e a cada dia novas tecnologias estão surgindo, aprende-se sempre. Sobre essa necessidade do novo aprendizado, Pierre Lévy – pesquisador e especialista em novas tecnologias - comenta que não se pode pensar mais na ‘não especialização’ em um mundo no qual a informática age rapidamente. Lévy alerta que a divisão do período de trabalho e aprendizado deve ser questionada, como vemos:

“Na escala de uma vida humana, a maior parte dos know-how úteis sutis eram perenes. Ora, em nossos dias, a situação mudou radicalmente, pois a maioria dos saberes adquiridos no começo de uma carreira estarão obsoletos no fim de um percurso profissional, até mesmo antes.... Por causa disso é que os indivíduos e os grupos não se deparam mais com saberes estáveis, com classificações de conhecimentos herdadas e confortadas pela tradição, mas sim como um saber-fluxo caótico, cujo curso é difícil de prever e no qual a questão agora é aprender a navegar.
Portanto, está superado o velho esquema segundo o qual se aprende na juventude um ofício que será exercido pelo resto da vida.... Essa abordagem leva a questionar a divisão clássica entre período de aprendizado e período de trabalho (pois se aprende o tempo todo), bem como o ofício enquanto principal modo de identificação econômica e social das pessoas.”
[3]

Aprender novas tecnologias pode se tornar uma tarefa difícil e que demorará meses ou até mesmo anos. Contudo, o que é mais interessante é que essa nova tecnologia permite ao músico uma reprodução de sua obra ao mesmo instante em que é composta, o que não acontecia antes. Tudo que se faz no computador para/com música pode ser ouvido imediatamente, seja no campo da composição – ouvir o que se compõe - ou no plano dos efeitos de áudio. Nossa afirmação concorda com o pensamento do pesquisador e músico Eduardo Paiva, segundo ele:

“Talvez seja essa a grande facilidade que o computador traz ao músico: a possibilidade da experimentação sem a necessidade de imaginar o resultado final, pois tudo que é feito  no computador pode ser reproduzido imediatamente. Essa capacidade do computador ser um imenso “simulador musical” era algo até agora inédito na música, e é aí que reside uma das maiores importâncias do computador com meio expressivo para o músico.”[4]

Essa é uma característica da informatização, a noção do tempo real. Assim, podemos traçar um paralelo na afirmação de Paiva, no que se refere à música – com afirmações de Pierre Lévy – no âmbito da utilização da informática no cotidiano. Para este, a informatização possibilita um grande armazenamento de informações e com esta surge a noção do tempo real, ou seja, o espírito da informática se resume na condensação no presente, na operação em andamento.[5] 

O uso da eletrônica na música iniciou-se com objetivo de amplificar o som. Mais tarde criou-se dispositivos para também gravar e reproduzir, juntamente aconteciam experiências para se gerar som através dos osciladores eletrônicos. Após algumas décadas do uso da eletrônica na música, surge o computador também para essa finalidade. Ao final da década de 70, engenheiros e técnicos de som de pequenas, novas e desconhecidas fábricas, desenvolveram a música aliada a tecnologia digital. Embora não se tratando exatamente de músicos, esses profissionais tinham o domínio da tecnologia digital e incentivaram muitas empresas grandes de instrumentos musicais como a Roland e a Yamaha, a investir na pesquisa da tecnologia digital para seus instrumentos. Muitas dessas fábricas pequenas fecharam e o pessoal técnico foi aproveitado em outras novas competidoras e também nas fábricas de grande porte. O importante dessas pesquisas foi o desenvolvimento e a criação novos instrumentos musicais eletrônicos, denominados de sintetizadores.  É dessa fase o famoso DX7 da Yamaha, criado em 1984 e o Emulator – primeiro sampler, que armazenava timbres em disquete – de 1982. O fato é que nessa época uma polêmica com relação ao uso de computadores e sintetizadores em música começou a existir. Muitos músicos passaram a defender os instrumentos acústicos e a atacar os usuários de sintetizadores.  Inclusive é oportuno esclarecer que muitos músicos eruditos contemporêneos, ao contrário do que se pensa, foram favoráveis a esse novo tipo de tecnologia, adotando-a e mais tarde e sendo denominados de músicos que compunham através da “eletro-acústica”. Entretanto, se as críticas são pesadas, não se pode negar que uma das maiores vantagens dos instrumentos denominados digitais é a manutenção da afinação. Anteriormente, manter a afinação em sintetizadores de som analógicos apresentava dificuldades. A medida em que foram incorporados mais circuitos digitais nos sintetizadores outras novidades foram sendo implantadas, como o MIDI.

A música por computador existe praticamente desde que surgiram os primeiros computadores. Entretanto, com o surgimento dos microcomputadores, podemos notar a maior utilização e surgimento desta a partir de 1983. Isso se deve a três fatores: à política de barateamento dos próprios computadores - que se tornaram mais acessíveis - à capacidade maior de armazenamento e processamento dos mesmos, e ao surgimento de uma nova tecnologia chamada de MIDI ou Music Instrument for Digital Interface. O sistema MIDI só se aplica para instrumentos musicais e é um padrão de transmissão digital dados, podemos pensar em transferência de informações. Essas transferências podem ocorrer de um instrumento musical para outro, apenas é preciso que os dois instrumentos possuam o código MIDI. O sistema MIDI usa códigos digitais que carregam informações musicais como: notas musicais, volume, troca de timbres, acionamento pedais e outros; e também informações não digitais como configurações de equipamentos de estúdio. É interessante ressaltar, que os criadores do MIDI tiveram a preocupação de que sua inclusão nos instrumentos musicais não acarretasse um  aumento do custo dos mesmos. Para isso desenvolveram um circuito de interface simples e para que o usuário não se sentisse impedido de usá-lo, usaram apenas um cabo para a conexão. Mesmo se o usuário fizer a conexão errada, este não danifica o instrumento, apenas o circuito não funciona. A especificação do MIDI é de domínio público, então qualquer empresa pode usá-lo em seus produtos. Essa padronização que o MIDI trouxe e seu custo zero, revolucionou a música digital. Com sua utilização o músico passou a poder controlar mais o instrumento e passou a manipular sua música com rapidez e precisão. Com o surgimento do MIDI, o novo mercado começou a existir com softwares de variados tipos, houve a intercambialidade musical, ou seja, aproximação maior entre os fabricantes por usarem o mesmo padrão. Com a introdução da linguagem MIDI (1983), as possibilidades de utilização dos instrumentos musicais em geral expandiram-se em escalas ilimitadas. A grande novidade foi o uso do computador como auxiliar do músico ou mesmo como instrumento musical. O computador, através de programas (softwares) especiais, pode simular um sintetizador, seqüenciador, sampler e tudo ao mesmo tempo. O MIDI até propiciou o surgimento de músicos de computador, antes incapazes de fazer música utilizando instrumentos musicais convencionais e suas respectivas ferramentas. O que se critica nesse caso é a profissionalização ou não destes, como vimos anteriormente. Como tudo em informática é rápido, atualmente já se pensa em um aperfeiçoamento da conexão MIDI, a empresa belga ‘Digital Design and Development’ apresentou uma proposta para o que seria uma forma de se "vencer as limitações do sistema MIDI atual", o chamado XMIDI. Tom White, atual presidente da associação de fabricantes MIDI, acha que o MIDI atual, continua ótimo até hoje. Segundo ele: é uma tecnologia de extremo sucesso, que foi aplicada muito além da concepção original (conectar instrumentos musicais), e tem sido usada para conectar computadores, equipamentos de estúdio, de iluminação, e até mesmo controlar eventos em parques temáticos. Ele afirma que as óbvias limitações do MIDI já foram superadas pelos fabricantes e acredita que o próximo desafio, é transformar o MIDI de ferramenta em meio de distribuição.

A linguagem MIDI realiza a comunicação entre os softwares de música e os sintetizadores, “uma linguagem que ao mesmo tempo em que manipula informações musicais , o faz sem ser capaz de traduzir todas as nuances de dinâmicas e articulações que compõem o discurso musical.”[6] Paiva aponta para a necessidade de que o usuário precisa saber aproveitar ao máximo da nova tecnologia, segundo ele não se pode limitar o potencial dos instrumentos. Não se pode pensar nesses equipamentos apenas para um determinado fim, as possibilidades são variadas, “tais equipamentos são novos instrumentos que necessitam uma nova abordagem para seu ensino, que faça com que as pessoas percebam seus verdadeiros potenciais como novos instrumentos e não reduzindo-os a uma versão eletrônica dos instrumentos que emulam”.[7]

Atualmente, há variados recursos que o computador dispõe para a música. Estes permitem ao “músico usuário” criar, modificar, manipular, grafar, executar, reproduzir, gravar; enfim, uma série de procedimentos que há uma década atrás por exemplo não acontecia. O que devemos deixar claro, é que não se pode pensar em música por computador se não existir o músico que opera e cria através dele. Os softwares são muito específicos e somente um músico pode compreendê-los. Portanto, não há atualmente, condições de se operar programas de computador para música, se o usuário não possuir um conhecimento musical. Notamos, é que esse grau de conhecimento é variável e afeta o resultado final do trabalho proposto, ou seja, quanto mais competente e especializado o músico, melhor o resultado final. A idéia de que o computador faz música sozinho, é errônea e ultrapassada -  embora em alguns casos ele possa até fazer com comandos específicos do músico -  porém, precisamos ter em mente que o computador apenas disponibiliza as ferramentas necessárias para criação da obra musical, o artista é quem cria e o opera, sem ele, isso tornaria-se inviável. O computador é apenas mais uma ferramenta que o músico dispõe para sua música.

A multimídia é a linguagem mais completa ligada a tecnologia da produção musical, pois apresenta recursos de interatividade e convergência das mídias. É importante ressaltar que além de todo conhecimento musical, o usuário depende de certas informações técnicas, próprias da linguagem computacional, para poder prosseguir seu trabalho como por exemplo, manipular um arquivo, configurar uma impressora, ajustar os canais de MIDI corretamente e outros. Então, além da execução musical o músico precisa dominar novas ferramentas para seu trabalho. Sobre a necessidade do músico em aprender uma nova técnica, Paiva comenta quea música e a tecnologia caminham juntas desde muito cedo, pois todo instrumento musical encerra em si uma tecnologia específica utilizada para seu desenvolvimento e construção e toda técnica musical ... somente materializa-se através dessa tecnologia”[8]. Paiva compara Beethoven a Jimmy Hendrix, no sentido em que ambos necessitaram de uma tecnologia específica para compor suas obras, – Beethoven necessitava de um piano para compor e Hendrix dispôs de uma gama de guitarras e outros instrumentos eletrônicos – ele considera que antes da tecnologia existe a necessidade da técnica, que, muitas vezesoperacionaliza o indivíduo no correto manuseio das tecnologias”[9]. Em música, é oportuno lembrar que para sua existência, ela necessita de composição, execução e meios que permitam sua difusão e seu registro. Sendo assim a tecnologia está presente desde sua concepção até sua recepção pelo ouvinte. E o que é mais interessante é que o uso do computador para a música, possibilita o encontro entre o homem e a tecnologia através da criação artística em um determinado meio, como aponta Paiva:

“O encontro entre o humano e o tecnológico, o ato de criação e execução musical materializado através da tecnologia e de uma interface específica”[10]

O que o músico precisa é saber aliar, o nível teórico musical, o nível teórico de computação e a criação musical a essa nova interface, a esse novo código de acesso para sua arte se materializar.

Um conceito bastante interessante que podemos analisar é o de interface. Lévy define interface como: um dispositivo que garante a comunicação entre dois sistemas informáticos distintos ou um sistema informático e uma rede de comunicação [11]. A partir dessa afirmação, podemos transpor esse conceito também para música. Pois, todo instrumento é uma interface, um local no qual, através da troca do código musical por um gesto, se produz o som. Paiva concorda com Dertouzos a respeito da interface, segundo ele a interface é um local de trocas, onde as linguagens são convertidas em sons, sons em imagens, códigos em outros códigos. Dertouzos define a importância da interfacesão importantes, pois no colocam em contato com as máquinas do mercado de informação, ... são o ponto de encontro entre o humanismo e a tecnologia”[12]. A interface permite troca de informações. É interessante ressaltar que em informática, as interfaces gráficas atuam como conversores de informações para que os usuários compreendam melhor cada , como veremos a seguir sobre os programas que são oferecidos ao usuário musical.

Nos últimos anos houve uma sensível transformação na prática musical a partir da aparição dessas novas tecnologias. A música por computador está intimamente ligada a novas formas de criação musical, como podemos notar na citação abaixo em que Paiva compara aos estúdios e aos sintetizadores, o uso do computador para inovação da criação musical.

“O estúdio de gravação, os sintetizadores e os computadores revolucionaram boa parte dos modos tradicionais de criação musical”.[13]


Complementando o pensamento de Paiva, podemos afirmar que a junção do seqüenciador, sampler e o sintetizador, como vimos, revolucionaram a música. Lévy também aponta para esse caminho. Compara essa mudança no novo modo de se pensar música às grandes invenções no campo musical. Sobre a junção dessas três novas tecnologias a serviço da música comenta:

“A maior parte dos observadores, está de acordo quanto a ver, no surgimento dos instrumentos digitais que acabamos de descrever (seqüenciador, sampler e sintetizador), uma ruptura comparável à da invenção da notação ou ao surgimento do disco”.[14]

O estúdio, os sintetizadores e o computador estão muito ligados a um aspecto da música por computador que podemos destacar, o áudio, ou seja, a parte da música ligada à manipulação do som. Os programas de áudio são dotados de recursos gráficos para a visualização da edição e gravação das músicas. Esse procedimento ajuda o técnico de som a executar seu trabalho. Há vários tipos de programas para esses fins, e eles variam conforme seu custo. Partindo desse princípio há dois tipos de usuários: os amadores e os profissionais. Os amadores ou semi-profissionais são usuários que possuem seu próprio estúdio em casa e utilizam programas mais baratos. Atualmente, esses usuários contam com a facilidade de se obter softwares. Muitas revistas vêm com CDs cheios de programas e também pela Internet há acesso a uma infinidade de versões de demonstração de softwares. Vale ressaltar também, que cada vez mais, os custos dos instrumentos digitais estão caindo, graças ao barateamento da tecnologia digital, isso proporciona aos usuários maior poder de compra. Os profissionais são operadores de grandes estúdios que utilizam programas altamente especializados e portanto, onerosos. Muitos estúdios profissionais atuais já estão substituindo toda sua tecnologia analógica pela digital, devido a alta precisão dos programas disponíveis no mercado. O uso do disco rígido do computador também atrai, pois consegue armazenar uma grande capacidade do som digitalizado e isto é feito relativamente rápido. Entretanto, é necessário que o músico conheça as particularidades de todos os instrumentos se quiser trabalhar com a edição perfeita do som. Pois cada instrumento tem sua especificidade e apenas um músico é capaz de compreendê-las. Para o perfeito aproveitamento houve a necessidade de encontrar um profissional que aliasse a técnica, a estética e a música. Esse profissional é denominado de o produtor musical, um misto de engenheiro de som, músico e planejador de marketing.

É oportuno notar que existe uma similaridade entre os instrumentos que participam do processo da música feita por computador, os teclados e sintetizadores. Por exemplo, os drives de disketes são compatíveis tanto nos instrumentos musicais como no computador e a linguagem usada também é a mesma para os dois tipos. Essa padronização além de baixar os custos, acaba facilitando a manutenção e a obtenção dos dispositivos. O inverso também ocorre, os computadores também se aproximam dos instrumentos musicais. É possível também gerar som no computador denominado de multimídia, através das placas de som desenvolvidas para esse fim. O que ocorre é que a qualidade sonora ainda não é superior ao som dos sintetizadores e ainda ficam a dever aos instrumentos acústicos.

Com a maior utilização dos computadores multimídia na vida cotidiana, também o campo de trabalho para o músico aumentou, além de atuar em estúdios de gravação, pode atuar também no setor de composição de trilhas para internet e cd-roms. A maioria dessas mídias apresentam músicas em seus sites e/ou links. O problema que existe para esses compositores de trilhas para multimídia é a limitação sonora dos sintetizadores que existem na placa de som. Algumas já estão caindo em desuso em sinal da má qualidade de seus timbres. Entretanto existem placas que possuem timbres sampleados e executam músicas com timbres melhores, mas sempre lembrando que o custo também é mais elevado. Mesmo assim, às vezes  compositor precisa de um timbre que não está disponível e acaba adaptando esses timbres à sua idéia, o que às vezes limita a capacidade de compreensão. Entretanto, também a pesquisa com relação a essa incapacidade de geração de timbres com qualidade superior já se encontra em expansão.
Em maio deste ano, a MMA (MIDI Manufacturers Association) anunciou a criação de um grupo de trabalho para o desenvolvimento de um novo padrão para áudio em equipamentos multimídia. Pode-se usar também os samples conjugados ao sistema MIDI. A vantagem deste uso é que as gravações são feitas no formato Wave, que mantém 100% de fidelidade dos sons sem perda da qualidade. Contudo é necessário para se usar, dominar a linguagem MIDI e também a linguagem dos samplers.                  

Outro campo em que o músico pode atuar é o de edição de partituras. Além de escrever seu próprio trabalho no editor, pode ainda oferecer serviços de digitação de partituras como copista e trabalhando em editoras musicais. Existem muitos softwares que servem para a notação musical (Encore, Finale, Personal Composer, QuickScore e outros), porém cada um usa seu formato de arquivo, o que impede o intercâmbio de arquivos de música. Embora o padrão Standard MIDI File já seja uma realidade há quase dez anos, ele não contém informações gráficas de notação o que dificulta o intercâmbio de partituras. Porém como as pesquisas nessa área não cessam e recentemente foi criado um padrão para arquivos de notação musical bastante flexível. Este padrão é chamado de NIFF ("Notation Interchange File Format")  e permite o intercâmbios de softwares de edição de partituras e de softwares tipo Midiscan. Ele pode representar desde partituras simples, com poucas informações gráficas, até descrições bem mais elaboradas, como layout de páginas e informações MIDI, como a transferência de uma partitura scanneada com informações MIDI.             

Podemos pensar que o músico dispõe de outros recursos que o computador oferece para composição de sua obra. Estamos nos referindo ao tipo de composição muito utilizado atualmente que se refere à digitalização do som como amostragem, os samplers. Essas composições têm como príncipio a inserção de trechos – pequenos ou não – organizados de acordo com a criatividade do músico operador, vindos de gravações já pré-existentes. Esses trechos podem ser manipulados com distorções, repetições e outros recursos, e também podem ser usadas como foram concebidas primeiramente. Compondo dessa maneira cada música é gerada a partir de outras e apesar de estar se transformando em uma única composição advém de outras composições já pré estabelecidas e não deixa de ser uma composição coletiva, já que cada autor concebeu sua obra anteriormente. É como se não existisse um músico só, graças a criação coletiva foi possível a composição final. A informática apresenta dispositivos que permitem esse tipo de composição. Esse tipo de composição coletiva - chamado de música tecno -  é o mesmo princípio apontado por Pierre Lévy no seu conceito de cibercultura. Segundo Lévy, cibercultura significa o conjunto de técnicas materiais e intelectuais, de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço. Por sua vez, o ciberespaço é mais conhecido por rede, significa novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. Lévy aponta para o significado cultural da cibercultura, segundo ele, cada pessoa torna-se uma emissora de informações, como vemos:

“O espaço cibernético é um terreno onde está funcionando a humanidade, hoje. É um novo espaço de interação humana que já tem uma importância enorme sobretudo no plano econômico e científico e, certamente, essa importância vai ampliar-se e vai estender-se a vários outros campos, como por exemplo na Pedagogia, Estética, Arte e Política...O interesse é pensar qual o significado cultural disso. Com o espaço cibernético temos uma ferramenta de comunicação muito diferente da mídia clássica, porque é nesse espaço que todas as mensagens se tornam interativas, ganham uma plasticidade e têm uma possibilidade de metamorfose imediata. E aí, a partir do momento que se tem o acesso a isso, cada pessoa pode se tornar uma emissora, o que obviamente não é o caso de uma mídia como a imprensa ou a televisão.”[15]

Através da internet, a troca de arquivos musicais tem se expandido. O usuário da internet também pode criar e manipular o som que chega até ele em sua casa. Sabe-se que atualmente há grupos que produzem músicas a partir de retalhos transmitidos pela rede. Nesse caso o que é mais complicado é a questão do direito autoral, entretanto de acordo com as pesquisas, os usuários não se intimidam com esse problema, ao contrário, é justamente pela não legalização que estão dispostos a criar e compilar as obras. Para esses o processo de criação é o mais importante, como vemos:

“Eles rejeitam a filosofia da propriedade intelectual, do copyright, a que opõem o "copyleft" e o uso de programas de código aberto. A música não é de ninguém e é de todos: trocando pedaços das canções, eles remixam, adicionam gravações e trocam andamentos... ‘Os participantes têm um interesse em comum’, explica o coletivo no site, que é ‘a produção de obras livres das amarras da propriedade intelectual’.”[15]                  

Como conclusões observamos que a informática em música está em constante desenvolvimento. Notamos a cada dia inovações, e também aperfeiçoamento dos dispositivos já existentes.  Percebemos também, que o músico necessita de uma gama de informações para que a música seja veiculada ao computador.  Em contrapartida, essas informações permitem novas formas de criação da sua arte. Ainda notamos, que as novas possibilidades tecnológicas colaboram para o surgimento de novas profissões que podem ser exercidas por ele.

GLOSSÁRIO:

MIDI, (Musical Interface for Digital Instruments) – é um código desenvolvido em 1982 pela Roland e pela Sequencial Circuits, com a finalidade de permitir que sintetizadores, samplers, computadores, sequencers, baterias eletrônicas e demais equipamentos equipados com interface MIDI, possam comunicar-se entre si. MIDI não transmite sons, e sim informações sobre o som. A interface MIDI é instalada no computador e raliza a comunicação entre o computador e o sintetizador externo.

MOOG - Na década de 60, o engenheiro Robert Moog iniciou a construção de novos equipamentos denominados de sintetizadores. Ele foi o responsável pela invenção dos primeiros sintetizadores modulares Moog que foram mundialmente difundidos através dos primeiros tecladistas que utilizaram sintetizadores em suas gravações e performances como Keith Emerson (Lucky Man) e Wendy Carlos (Switch on Bach).

SAMPLER – é um instrumento capaz de gravar qualquer som em sua memória digital, através de sinal de áudio direto. Possuem complexos parâmetros de edição que permitem copiar, mixar, combinar em sequência, deletar, filtrar e transpor as formas de onda amostradas.

SEQUENCIADOR - Gravador digital, capaz de armazenar informações digitais em diferentes canais de gravação digital. Geralmente apresentam diversas pistas de gravação, memória para armazenar as informações gravadas, sincronização, diferentes formas de gravação. Tipos de informações registradas como: notas tocadas, ataque e duração da nota, variações de sensibilidade das notas tocadas. variações dos controles de PITCH, volume, velocidade.

SINTS – abreviatura de sintetizador.

SINTETIZADOR - Instrumento musical eletrônico, que dá ao seu usuário a capacidade de manipulação do som. É possível criar novos timbres (sons) e editar (modificar) timbres prontos de fábrica (presets).

Nos sintetizadores, as formas de ondas sonoras são produzidas por osciladores eletrônicos. Misturando e dosando harmônicos, controlando a afinação, ataque e desintegração dos sons obtidos pelos osciladores, o usuário pode criar timbres simulares de instrumentos acústicos ou timbres inéditos só possíveis de conseguir através dos sintetizadores, como é o caso de efeitos sonoros que ouvimos na música eletrônica, principalmente no trance e no techno.

SINTETIZADOR ANALÓGICO E DIGITAL - Os analógicos, que são os primeiros sintetizadores cujo princípio é baseado de que todo o som que produzem são criados a partir de osciladores analógicos que produzem mudanças constantes de tensão elétrica, produzindo diversos tipos de formas de ondas. Geralmente os analógicos não possuem memória de timbres, ou seja, não é possível armazenar o que foi criado. Os digitais, processo que consiste em osciladores (ou operadores) que produzem formas de ondas digital, ou seja, estas ondas são produto da combinação de números binários, sendo que as ondas seriam apresentadas como um conjunto de pequenos pontos. Possuem memória para armazenar o que foi criado e memória com timbres já gravados vindo de fábrica.

WAVE – formato que designa os sons digitalizados de qualquer espécie. O formato WAVE ao contrário do MIDI é o som propriamente dito, amostrado de qualquer fonte sonora: microfone, toca-discos, cds, cassetes e outros.

BIBLIOGRAFIA

Revistas especializadas em áudio:

Computer Music Journal
R
evista Backstage
Revista Cérebro e mente
Revista Música e tecnologia e Jornal “Folha de São Paulo”

Livros e teses:

ALTEN, Stanley R. Audio in media. EUA: 3ª edição, 1990. LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência – o futuro do pensamento da era da informática. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1990.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.

PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Uma análise crítica da relação música/ tecnologia do pós-guerra até a atualidade. Campinas: Tese de mestrado, Unicamp, Instituto de Artes, 1992.

PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Sonorização em multimídia: técnicas específicas para a música digital. Campinas: Tese de doutorado, Unicamp, Instituto de Artes, 2002.


[1] MOORE, F. Richard. Dreams of Computer Music – Then and Now. Computer Music Journal. vol. 20. nº 1 pp 25-41.  1996. Segundo Moore, a síntese de música computacional foi pela primeira vez realizada nos Bell Laboratories, os quais também nos trouxeram o cinema sonoro, o som estereofônico, a fala sintetizada por computador, o transistor, o laser e alguns tipos de satélites de comunicação. As primeiras experiências de programas de computador para composição de música foram escritos por Lejaren Hiller na University of Illinois nos meados da década de cinquenta. Max Mathews, trabalhando com John Pierce, escreveu nos Bell Laboratories os primeiros programas de síntese de som por computador em 1957. Mathews desenvolveu um programa de música por computador em 1957, em um computador de grande porte. O programa era chamado Music I e apresentava uma única voz, uma forma de onda triangular, não possuia ADSR e só controlava a afinação, intensidade e duração. O Music I deu origem a uma série de programas musicais como Music II, Music III e o Music IV. Nos meados da década de sessenta, John Chowning montou a primeira instalação universitária de música computacional na Stanford University. Desde aquela época, a música computacionalvem sendo amplamente praticada nos Estados Unidos, Suécia, França, Canadá, Austrália, Itália e Áustria.

[2] SABATTINI, Renato. Tomografia PET: uma janela para o cérebro.  Artigo da Revista Cérebro & Mente 1(1), 1997.

[3] LÉVY, Pierre. Artigo: Tecnologias intelectuais e os modos de conhecer: nós somos textos. Tradução: Celso Cândido.

[4] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Uma análise crítica da relação música/ tecnologia do pós-guerra até a atualidade. Campinas: Tese de mestrado, Unicamp, Instituto de Artes, 1992.

[5] LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência – o futuro do pensamento da era da informática. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1990.

[6] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Op. Cit. p. 28.

[7] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Op. Cit. p. 28.

[8] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Sonorização em multimídia: técnicas específicas para a música digital. Campinas: Tese de doutorado, Unicamp, Instituto de Artes, 2002.

[9] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Op. Cit. p. 18.

[10] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Op. Cit. p. 39.

[11] LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência – o futuro do pensamento da era da informática. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1990.

[12] In: PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Op. Cit. p. 37, DERTOUZOS, Michael. O que será, São Paulo: Companhia das letras, 1997, p. 85.

[13] PAIVA, José Eduardo Ribeiro de. Op. Cit. p. 29.

[14] LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência – o futuro do pensamento da era da informática. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1990.

[15] LÉVY, Pierre. A emergência do cyberspace e as transformações culturais. Palestra realizada no Festival Usina de Arte e Cultura, promovido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, em Outubro, 1994. Tradução Suely Rolnik. Revisão da tradução transcrita João Batista Francisco e Carmem Oliveira.

[16] Matias, Alexandre. Artigo da Folha de São Paulo. Grupos compõem música com trechos de MP3 retirados da web. Artigo retirado da Folha de São Paulo, 10/ 02/ 2003.

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