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Música
por computador: novas
possibilidades de criação e profissionalização
Por
Cíntia Campolina de Onofre
“A relação intensa com o aprendizado, com a transmissão
e a produção de conhecimentos não está mais reservado para
uma elite, mas diz respeito à massa das pessoas em sua vida
diária e em seu trabalho.” (Pierre
Lévy)
Como
imaginarmos a redação de um jornal sem um computador? Ou um
banco sem informatização? Para algumas profissões, o computador
como instrumento de trabalho tornou-se imprescindível. No
campo musical, igualmente o uso do computador está cada vez
mais se aprimorando. Entretanto, se por alguns anos pensou-se
que o computador substituiria a mão de obra nas profissões
– o que hoje sabemos ser uma afirmação errônea – em música
é oportuno lembrar que a nova tecnologia possibilita ao músico
inúmeras opções para profissionalização, abrindo assim novos
campos de trabalho. Tracemos um histórico da música por computador
para entendermos quais as possibilidades profissionais ele
pode oferecer.
Segundo
Moore - professor do departamento de música da Universidade
da Califórnia - o primeiro trabalho produzido por computadores
advém da década de 50 e era centrado na utilização de computadores
para compor música [1]. A composição
era de acordo com regras expressas por meio de linguagens
de programação. Ele conta que desde essa época os computadores
vem sendo usados para estudar análises de partituras musicais
por musicólogos e observa que a maioria da utilização se refere
à criação de sons, a utilização de computadores como instrumentos
musicais, vindo da música eletrônica. Porém tendo pouco a
ver com a música eletrônica tradicional, como a música concreta
ou dos sintetizadores de música analógica tipo Moog. De acordo
com essas afirmações o o médico e pesquisador Sabattini
[2], aponta para a complexidade
da música realizada pelos computadores:
“Vista como um domínio
do conhecimento, a música computacional é uma das atividades
mais interdisciplinares que existem, englobando muitos aspectos
de música (composição, performance, musicologia), ciência
da computação (programação, inteligência artificial), engenharia
elétrica (circuitos analógicos e digitais, arquiteturas de
máquinas, processamento digital de sinal), psicologia (percepção,
cognição) e física (acústica).”
Percebemos
por essa afirmação que Sabbatini tem razão quanto a gama de
conhecimentos que o uso do computador em música dispende. Isso
cobra do usuário, uma série de informações não necessitadas
anteriormente para demonstrar sua arte. Na música, o uso do
computador tem cada vez mais firmado seu espaço, obrigando o
músico - que antes dedicava ao seu instrumento musical horas
de estudo – a dividir seu tempo no aprendizado de uma nova forma
de demonstrar sua arte. Sabemos que esse aprendizado é necessário
e o músico precisa ter disposição, pois o volume de informações
é extenso e a cada dia novas tecnologias estão surgindo, aprende-se
sempre. Sobre essa necessidade do novo aprendizado, Pierre Lévy
– pesquisador e especialista em novas tecnologias - comenta
que não se pode pensar mais na ‘não especialização’ em um mundo
no qual a informática age rapidamente. Lévy alerta que a divisão
do período de trabalho e aprendizado deve ser questionada, como
vemos:
“Na escala de uma vida
humana, a maior parte dos know-how úteis sutis eram perenes.
Ora, em nossos dias, a situação mudou radicalmente, pois a
maioria dos saberes adquiridos no começo de uma carreira estarão
obsoletos no fim de um percurso profissional, até mesmo antes....
Por causa disso é que os indivíduos e os grupos
não se deparam mais com saberes estáveis, com classificações
de conhecimentos herdadas e confortadas pela tradição, mas
sim como um saber-fluxo caótico, cujo curso é difícil de prever
e no qual a questão agora é aprender a navegar.
Portanto, está superado o velho esquema segundo o qual se
aprende na juventude um ofício que será exercido pelo resto
da vida.... Essa abordagem leva a questionar a divisão clássica
entre período de aprendizado e período de trabalho (pois se
aprende o tempo todo), bem como o ofício enquanto principal
modo de identificação econômica e social das pessoas.” [3]
Aprender
novas tecnologias pode se tornar uma tarefa difícil e que
demorará meses ou até mesmo anos. Contudo, o que é mais interessante
é que essa nova tecnologia permite ao músico uma reprodução
de sua obra ao mesmo instante em que é composta, o que não
acontecia antes. Tudo que se faz no computador para/com música
pode ser ouvido imediatamente, seja no campo da composição
– ouvir o que se compõe - ou no plano dos efeitos de áudio.
Nossa afirmação concorda com o pensamento do pesquisador e
músico Eduardo Paiva, segundo ele:
“Talvez
seja essa a grande facilidade que o computador traz ao músico:
a possibilidade da experimentação sem a necessidade de imaginar
o resultado final, pois tudo que é feito
no computador pode ser reproduzido imediatamente. Essa
capacidade do computador ser um imenso “simulador musical”
era algo até agora inédito na música, e é aí que reside uma
das maiores importâncias do computador com meio expressivo
para o músico.”[4]
Essa
é uma característica da informatização, a noção do tempo real.
Assim, podemos traçar um paralelo na afirmação de Paiva, no
que se refere à música – com afirmações de Pierre Lévy – no
âmbito da utilização da informática no cotidiano. Para este,
a informatização possibilita um grande armazenamento de informações
e com esta surge a noção do tempo real, ou seja, o
espírito da informática se resume na condensação
no presente, na operação em andamento.[5]
O
uso da eletrônica na música iniciou-se com objetivo de amplificar
o som. Mais tarde criou-se dispositivos para também gravar
e reproduzir, juntamente aconteciam experiências para se gerar
som através dos osciladores eletrônicos. Após algumas décadas
do uso da eletrônica na música, surge o computador também
para essa finalidade. Ao final da década de 70, engenheiros
e técnicos de som de pequenas, novas e desconhecidas fábricas,
desenvolveram a música aliada a tecnologia digital. Embora
não se tratando exatamente de músicos, esses profissionais
tinham o domínio da tecnologia digital e incentivaram muitas
empresas grandes de instrumentos musicais como a Roland e
a Yamaha, a investir na pesquisa da tecnologia digital para
seus instrumentos. Muitas dessas fábricas pequenas fecharam
e o pessoal técnico foi aproveitado em outras novas competidoras
e também nas fábricas de grande porte. O importante dessas
pesquisas foi o desenvolvimento e a criação novos instrumentos
musicais eletrônicos, denominados de sintetizadores.
É dessa fase o famoso DX7 da Yamaha, criado em 1984
e o Emulator – primeiro sampler,
que armazenava timbres em disquete – de 1982. O fato é que
nessa época uma polêmica com relação ao uso de computadores
e sintetizadores em música começou a existir. Muitos músicos
passaram a defender os instrumentos acústicos e a atacar os
usuários de sintetizadores.
Inclusive é oportuno esclarecer que muitos músicos
eruditos contemporêneos, ao contrário do que se pensa, foram
favoráveis a esse novo tipo de tecnologia, adotando-a e mais
tarde e sendo denominados de músicos que compunham através
da “eletro-acústica”. Entretanto, se as críticas são pesadas,
não se pode negar que uma das maiores vantagens dos instrumentos
denominados digitais é a manutenção da afinação. Anteriormente,
manter a afinação em sintetizadores de som analógicos apresentava
dificuldades. A medida em que foram incorporados mais circuitos
digitais nos sintetizadores outras novidades foram sendo implantadas,
como o MIDI.
A
música por computador existe praticamente desde que surgiram
os primeiros computadores. Entretanto, com o surgimento dos
microcomputadores, podemos notar a maior utilização e surgimento
desta a partir de 1983. Isso se deve a três fatores: à política
de barateamento dos próprios computadores - que se tornaram
mais acessíveis - à capacidade maior de armazenamento e processamento
dos mesmos, e ao surgimento de uma nova tecnologia chamada
de MIDI ou Music Instrument
for Digital Interface. O sistema MIDI só se aplica para
instrumentos musicais e é um padrão de transmissão digital
dados, podemos pensar em transferência de informações. Essas
transferências podem ocorrer de um instrumento musical para
outro, apenas é preciso que os dois instrumentos possuam o
código MIDI. O sistema MIDI usa
códigos digitais que carregam informações musicais como: notas
musicais, volume, troca de timbres, acionamento pedais e outros;
e também informações não digitais como configurações de equipamentos
de estúdio. É interessante ressaltar, que os criadores do
MIDI tiveram a preocupação de que sua inclusão nos instrumentos
musicais não acarretasse um
aumento do custo dos mesmos. Para isso desenvolveram
um circuito de interface simples e para que o usuário não
se sentisse impedido de usá-lo, usaram apenas um cabo para
a conexão. Mesmo se o usuário fizer a conexão errada, este
não danifica o instrumento, apenas o circuito não funciona.
A especificação do MIDI é de domínio público, então qualquer
empresa pode usá-lo em seus produtos. Essa padronização que
o MIDI trouxe e seu custo zero, revolucionou a música digital.
Com sua utilização o músico passou a poder controlar mais
o instrumento e passou a manipular sua música com rapidez
e precisão. Com o surgimento do MIDI, o novo mercado começou
a existir com softwares de variados tipos, houve a intercambialidade
musical, ou seja, aproximação maior entre os fabricantes por
usarem o mesmo padrão. Com a introdução da linguagem
MIDI (1983), as possibilidades de utilização dos instrumentos
musicais em geral expandiram-se em escalas ilimitadas. A grande
novidade foi o uso do computador como auxiliar do músico ou
mesmo como instrumento musical. O computador, através de programas
(softwares) especiais, pode simular um sintetizador, seqüenciador,
sampler e tudo ao mesmo tempo. O
MIDI até propiciou o surgimento de músicos de computador,
antes incapazes de fazer música utilizando instrumentos musicais
convencionais e suas respectivas ferramentas. O que se critica
nesse caso é a profissionalização ou não destes, como vimos
anteriormente. Como tudo em informática é rápido, atualmente
já se pensa em um aperfeiçoamento da conexão MIDI, a
empresa belga ‘Digital Design and Development’ apresentou
uma proposta para o que seria uma forma de se "vencer
as limitações do sistema MIDI atual", o chamado XMIDI.
Tom White, atual presidente da associação de fabricantes MIDI,
acha que o MIDI atual, continua ótimo até hoje. Segundo ele:
é uma tecnologia de extremo sucesso, que foi aplicada muito além da concepção
original (conectar instrumentos musicais), e tem sido usada
para conectar computadores, equipamentos de estúdio, de iluminação,
e até mesmo controlar eventos em parques temáticos. Ele
afirma que as óbvias limitações do MIDI já foram superadas
pelos fabricantes e acredita que o próximo desafio, é transformar
o MIDI de ferramenta em meio de distribuição.
A
linguagem MIDI realiza a comunicação entre os softwares de
música e os sintetizadores, “uma linguagem que ao mesmo tempo em que manipula
informações musicais , o faz sem ser capaz de traduzir todas
as nuances de dinâmicas e articulações que compõem o discurso
musical.”[6] Paiva aponta
para a necessidade de que o usuário precisa saber aproveitar
ao máximo da nova tecnologia, segundo ele não se pode limitar
o potencial dos instrumentos. Não se pode pensar nesses equipamentos
apenas para um determinado fim, as possibilidades são variadas,
“tais equipamentos são
novos instrumentos que necessitam uma nova abordagem para
seu ensino, que faça com que as pessoas percebam seus verdadeiros
potenciais como novos instrumentos e não reduzindo-os a uma
versão eletrônica dos instrumentos que emulam”.[7]
Atualmente,
há variados recursos que o computador dispõe para a música.
Estes permitem ao “músico usuário” criar, modificar, manipular,
grafar, executar, reproduzir, gravar; enfim, uma série de procedimentos
que há uma década atrás por exemplo não acontecia. O que devemos
deixar claro, é que não se pode pensar em música por computador
se não existir o músico que opera e cria através dele. Os softwares
são muito específicos e somente um músico pode compreendê-los.
Portanto, não há atualmente, condições de se operar programas
de computador para música, se o usuário não possuir um conhecimento
musical. Notamos, é que esse grau de conhecimento é variável
e afeta o resultado final do trabalho proposto, ou seja, quanto
mais competente e especializado o músico, melhor o resultado
final. A idéia de que o computador faz música sozinho, é errônea
e ultrapassada - embora em alguns casos ele possa até fazer
com comandos específicos do músico -
porém, precisamos ter em mente que o computador apenas
disponibiliza as ferramentas necessárias para criação da obra
musical, o artista é quem cria e o opera, sem ele, isso tornaria-se
inviável. O computador é apenas mais uma ferramenta que o músico
dispõe para sua música.
A
multimídia é a linguagem mais completa ligada a tecnologia da
produção musical, pois apresenta recursos de interatividade
e convergência das mídias. É importante ressaltar que além de
todo conhecimento musical, o usuário depende de certas informações
técnicas, próprias da linguagem computacional, para poder prosseguir
seu trabalho como por exemplo, manipular um arquivo, configurar
uma impressora, ajustar os canais de MIDI corretamente e outros.
Então, além da execução musical o músico precisa dominar novas
ferramentas para seu trabalho. Sobre a necessidade do músico
em aprender uma nova técnica, Paiva comenta que “a música e a tecnologia caminham juntas desde muito cedo, pois todo instrumento
musical encerra em si uma tecnologia específica utilizada para
seu desenvolvimento e construção e toda técnica musical ...
somente materializa-se através dessa tecnologia”[8]. Paiva
compara Beethoven a Jimmy Hendrix, no sentido em que ambos necessitaram
de uma tecnologia específica para compor suas obras, – Beethoven
necessitava de um piano para compor e Hendrix dispôs de uma
gama de guitarras e outros instrumentos eletrônicos – ele considera
que antes da tecnologia existe a necessidade da técnica, que,
muitas vezes “operacionaliza o indivíduo no correto manuseio das tecnologias”[9]. Em música,
é oportuno lembrar que para sua existência, ela necessita de
composição, execução e meios que permitam sua difusão e seu
registro. Sendo assim a tecnologia está presente desde sua concepção
até sua recepção pelo ouvinte. E o que é mais interessante é
que o uso do computador para a música, possibilita o encontro
entre o homem e a tecnologia através da criação artística em
um determinado meio, como aponta Paiva:
“O encontro
entre o humano e o tecnológico, o ato de criação e execução
musical materializado através da tecnologia e de uma interface
específica”[10]
O
que o músico precisa é saber aliar, o nível teórico musical,
o nível teórico de computação e a criação musical a essa nova
interface, a esse novo código de acesso para sua arte se materializar.
Um
conceito bastante interessante que podemos analisar é o de interface.
Lévy define interface como: um
dispositivo que garante a comunicação entre dois sistemas informáticos
distintos ou um sistema informático e uma rede de comunicação
[11].
A
partir dessa afirmação, podemos transpor esse conceito também
para música. Pois, todo instrumento é uma interface, um local
no qual, através da troca do código musical por um gesto, se
produz o som. Paiva concorda com Dertouzos a respeito da interface,
segundo ele a interface é um local de trocas, onde as linguagens
são convertidas em sons, sons em imagens, códigos em outros
códigos. Dertouzos define a importância da interface
“são importantes, pois
no colocam em contato com as máquinas do mercado de informação,
... são o ponto de encontro entre o humanismo e a tecnologia”[12].
A
interface permite troca de informações. É interessante ressaltar
que em informática, as interfaces gráficas atuam como conversores
de informações para que os usuários compreendam melhor cada
, como veremos a seguir sobre os programas que são oferecidos
ao usuário musical.
Nos
últimos anos houve uma sensível transformação na prática musical
a partir da aparição dessas novas tecnologias. A música por
computador está intimamente ligada a novas formas de criação
musical, como podemos notar na citação abaixo em que Paiva
compara aos estúdios e aos sintetizadores, o uso do computador
para inovação da criação musical.
“O estúdio
de gravação, os sintetizadores e os computadores revolucionaram
boa parte dos modos tradicionais de criação musical”.[13]
Complementando o pensamento de Paiva, podemos afirmar que a
junção do seqüenciador, sampler e o sintetizador, como vimos,
revolucionaram a música. Lévy também aponta para esse caminho.
Compara essa mudança no novo modo de se pensar música às grandes
invenções no campo musical. Sobre a junção dessas três novas
tecnologias a serviço da música comenta:
“A maior parte dos observadores, está de acordo
quanto a ver, no surgimento dos instrumentos digitais que
acabamos de descrever (seqüenciador, sampler e sintetizador),
uma ruptura comparável à da invenção da notação ou ao surgimento
do disco”.[14]
O
estúdio, os sintetizadores e o computador estão muito ligados
a um aspecto da música por computador que podemos destacar,
o áudio, ou seja, a parte da música ligada à manipulação do
som. Os programas de áudio são dotados de recursos gráficos
para a visualização da edição e gravação das músicas. Esse
procedimento ajuda o técnico de som a executar seu trabalho.
Há vários tipos de programas para esses fins, e eles variam
conforme seu custo. Partindo desse princípio há dois tipos
de usuários: os amadores e os profissionais. Os amadores ou
semi-profissionais são usuários que possuem seu próprio estúdio
em casa e utilizam programas mais baratos. Atualmente, esses
usuários contam com a facilidade de se obter softwares. Muitas
revistas vêm com CDs cheios de programas e também pela Internet
há acesso a uma infinidade de versões de demonstração de softwares.
Vale ressaltar também, que cada vez mais, os custos dos instrumentos
digitais estão caindo, graças ao barateamento da tecnologia
digital, isso proporciona aos usuários maior poder de compra.
Os profissionais são operadores de grandes estúdios que utilizam
programas altamente especializados e portanto, onerosos. Muitos
estúdios profissionais atuais já estão substituindo toda sua
tecnologia analógica pela digital, devido a alta precisão
dos programas disponíveis no mercado. O uso do disco rígido
do computador também atrai, pois consegue armazenar uma grande
capacidade do som digitalizado e isto é feito relativamente
rápido. Entretanto, é necessário que o músico conheça as particularidades
de todos os instrumentos se quiser trabalhar com a edição
perfeita do som. Pois cada instrumento tem sua especificidade
e apenas um músico é capaz de compreendê-las. Para o perfeito
aproveitamento houve a necessidade de encontrar um profissional
que aliasse a técnica, a estética e a música. Esse profissional
é denominado de o produtor musical, um misto de engenheiro
de som, músico e planejador de marketing.
É
oportuno notar que existe uma similaridade entre os instrumentos
que participam do processo da música feita por computador, os
teclados e sintetizadores. Por exemplo, os drives de disketes
são compatíveis tanto nos instrumentos musicais como no computador
e a linguagem usada também é a mesma para os dois tipos. Essa
padronização além de baixar os custos, acaba facilitando a manutenção
e a obtenção dos dispositivos. O inverso também ocorre, os computadores
também se aproximam dos instrumentos musicais. É possível também
gerar som no computador denominado de multimídia, através das
placas de som desenvolvidas para esse fim. O que ocorre é que
a qualidade sonora ainda não é superior ao som dos sintetizadores
e ainda ficam a dever aos instrumentos acústicos.
Com a maior utilização dos computadores multimídia na vida cotidiana,
também o campo de trabalho para o músico aumentou, além de atuar
em estúdios de gravação, pode atuar também no setor de composição
de trilhas para internet e cd-roms. A maioria dessas mídias
apresentam músicas em seus sites e/ou links. O problema que
existe para esses compositores de trilhas para multimídia é
a limitação sonora dos sintetizadores que existem na placa de
som. Algumas já estão caindo em desuso em sinal da má qualidade
de seus timbres. Entretanto existem placas que possuem timbres
sampleados e executam músicas com timbres melhores, mas sempre
lembrando que o custo também é mais elevado. Mesmo assim, às
vezes compositor precisa
de um timbre que não está disponível e acaba adaptando esses
timbres à sua idéia, o que às vezes limita a capacidade de compreensão.
Entretanto, também a pesquisa com relação a essa incapacidade
de geração de timbres com qualidade superior já se encontra
em expansão.Em
maio deste ano, a MMA (MIDI Manufacturers Association) anunciou
a criação de um grupo de trabalho para o desenvolvimento de
um novo padrão para áudio em equipamentos multimídia. Pode-se
usar também os samples conjugados ao sistema MIDI. A vantagem
deste uso é que as gravações são feitas no formato Wave, que
mantém 100% de fidelidade dos sons sem perda da qualidade. Contudo
é necessário para se usar, dominar a linguagem MIDI e também
a linguagem dos samplers.
Outro
campo em que o músico pode atuar é o de edição de partituras.
Além de escrever seu próprio trabalho no editor, pode ainda
oferecer serviços de digitação de partituras como copista e
trabalhando em editoras musicais. Existem muitos softwares que
servem para a notação musical (Encore, Finale, Personal Composer,
QuickScore e outros), porém cada um usa seu formato de arquivo,
o que impede o intercâmbio de arquivos de música. Embora o padrão
Standard MIDI File já seja uma realidade há quase dez anos,
ele não contém informações gráficas de notação o que dificulta
o intercâmbio de partituras. Porém como as pesquisas nessa área
não cessam e recentemente foi criado um padrão para arquivos
de notação musical bastante flexível. Este padrão é chamado
de NIFF ("Notation Interchange File Format")
e permite o intercâmbios de softwares de edição de partituras
e de softwares tipo Midiscan. Ele pode representar desde partituras
simples, com poucas informações gráficas, até descrições bem
mais elaboradas, como layout de páginas e informações MIDI,
como a transferência de uma partitura scanneada com informações
MIDI.
Podemos
pensar que o músico dispõe de outros recursos que o computador
oferece para composição de sua obra. Estamos nos referindo ao
tipo de composição muito utilizado atualmente que se refere
à digitalização do som como amostragem, os samplers. Essas composições
têm como príncipio a inserção de trechos – pequenos ou não –
organizados de acordo com a criatividade do músico operador,
vindos de gravações já pré-existentes. Esses trechos podem ser
manipulados com distorções, repetições e outros recursos, e
também podem ser usadas como foram concebidas primeiramente.
Compondo dessa maneira cada música é gerada a partir de outras
e apesar de estar se transformando em uma única composição advém
de outras composições já pré estabelecidas e não deixa de ser
uma composição coletiva, já que cada autor concebeu sua obra
anteriormente. É como se não existisse um músico só, graças
a criação coletiva foi possível a composição final. A informática
apresenta dispositivos que permitem esse tipo de composição.
Esse tipo de composição coletiva - chamado de música tecno -
é o mesmo princípio apontado por Pierre Lévy no seu conceito
de cibercultura. Segundo Lévy, cibercultura
significa o conjunto de técnicas materiais e intelectuais, de
práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que
se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço.
Por sua vez, o ciberespaço é mais conhecido por rede, significa
novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos
computadores. Lévy aponta para o significado cultural da cibercultura,
segundo ele, cada pessoa torna-se uma emissora de informações,
como vemos:
“O
espaço cibernético é um terreno onde está funcionando a humanidade,
hoje. É um novo espaço de interação humana que já tem uma
importância enorme sobretudo no plano econômico e científico
e, certamente, essa importância vai ampliar-se e vai estender-se
a vários outros campos, como por exemplo na Pedagogia, Estética,
Arte e Política...O interesse é pensar qual o significado
cultural disso. Com o espaço cibernético temos uma ferramenta
de comunicação muito diferente da mídia clássica, porque é
nesse espaço que todas as mensagens se tornam interativas,
ganham uma plasticidade e têm uma possibilidade de metamorfose
imediata. E aí, a partir do momento que se tem o acesso a
isso, cada pessoa pode se tornar uma emissora, o que obviamente
não é o caso de uma mídia como a imprensa ou a televisão.”[15]
Através
da internet, a troca de arquivos musicais tem se expandido.
O usuário da internet também pode criar e manipular o som
que chega até ele em sua casa. Sabe-se que atualmente há grupos
que produzem músicas a partir de retalhos transmitidos pela
rede. Nesse caso o que é mais complicado é a questão do direito
autoral, entretanto de acordo com as pesquisas, os usuários
não se intimidam com esse problema, ao contrário, é justamente
pela não legalização que estão dispostos a criar e compilar
as obras. Para esses o processo de criação é o mais importante,
como vemos:
“Eles rejeitam a filosofia da propriedade intelectual, do
copyright, a que opõem o "copyleft" e o uso de programas
de código aberto. A música não é de ninguém e é de todos:
trocando pedaços das canções, eles remixam, adicionam gravações
e trocam andamentos... ‘Os participantes têm um interesse
em comum’, explica o coletivo no site, que é ‘a produção de
obras livres das amarras da propriedade intelectual’.”[15]
Como
conclusões observamos que a informática em música está em constante
desenvolvimento. Notamos a cada dia inovações, e também aperfeiçoamento
dos dispositivos já existentes. Percebemos também, que o músico necessita de
uma gama de informações para que a música seja veiculada ao
computador. Em contrapartida, essas informações permitem
novas formas de criação da sua arte. Ainda notamos, que as novas
possibilidades tecnológicas colaboram para o surgimento de novas
profissões que podem ser exercidas por ele.
GLOSSÁRIO:
MIDI,
(Musical Interface for Digital Instruments) – é um código
desenvolvido em 1982 pela Roland e pela Sequencial Circuits,
com a finalidade de permitir que sintetizadores, samplers,
computadores, sequencers, baterias eletrônicas e demais equipamentos
equipados com interface MIDI, possam comunicar-se entre si.
MIDI não transmite sons, e sim informações sobre o som. A
interface MIDI é instalada no computador e raliza a comunicação
entre o computador e o sintetizador externo.
MOOG
- Na década de 60, o engenheiro Robert Moog iniciou a construção
de novos equipamentos denominados de sintetizadores. Ele foi
o responsável pela invenção dos primeiros sintetizadores modulares
Moog que foram mundialmente difundidos através dos primeiros
tecladistas que utilizaram sintetizadores em suas gravações
e performances como Keith Emerson (Lucky Man) e Wendy Carlos
(Switch on Bach).
SAMPLER
– é um instrumento capaz de gravar qualquer som em sua memória
digital, através de sinal de áudio direto. Possuem complexos
parâmetros de edição que permitem copiar, mixar, combinar em
sequência, deletar, filtrar e transpor as formas de onda amostradas.
SEQUENCIADOR
- Gravador digital, capaz de armazenar informações digitais
em diferentes canais de gravação digital. Geralmente apresentam
diversas pistas de gravação, memória para armazenar as informações
gravadas, sincronização, diferentes formas de gravação. Tipos
de informações registradas como: notas tocadas, ataque e duração
da nota, variações de sensibilidade das notas tocadas. variações
dos controles de PITCH, volume, velocidade.
SINTS
– abreviatura de sintetizador.
SINTETIZADOR
- Instrumento musical eletrônico, que dá ao seu usuário a
capacidade de manipulação do som. É possível criar novos timbres
(sons) e editar (modificar) timbres prontos de fábrica (presets).
Nos
sintetizadores, as formas de ondas sonoras são produzidas por
osciladores eletrônicos. Misturando e dosando harmônicos, controlando
a afinação, ataque e desintegração dos sons obtidos pelos osciladores,
o usuário pode criar timbres simulares de instrumentos acústicos
ou timbres inéditos só possíveis de conseguir através dos sintetizadores,
como é o caso de efeitos sonoros que ouvimos na música eletrônica,
principalmente no trance e no techno.
SINTETIZADOR
ANALÓGICO E DIGITAL - Os analógicos, que são os primeiros sintetizadores
cujo princípio é baseado de que todo o som que produzem são
criados a partir de osciladores analógicos que produzem mudanças
constantes de tensão elétrica, produzindo diversos tipos de
formas de ondas. Geralmente os analógicos não possuem memória
de timbres, ou seja, não é possível armazenar o que foi criado.
Os digitais, processo que consiste em osciladores (ou operadores)
que produzem formas de ondas digital, ou seja, estas ondas são
produto da combinação de números binários, sendo que as ondas
seriam apresentadas como um conjunto de pequenos pontos. Possuem
memória para armazenar o que foi criado e memória com timbres
já gravados vindo de fábrica.
WAVE
– formato que designa os sons digitalizados de qualquer espécie.
O formato WAVE ao contrário do MIDI é o som propriamente dito,
amostrado de qualquer fonte sonora: microfone, toca-discos,
cds, cassetes e outros.
BIBLIOGRAFIA
Revistas
especializadas em áudio:
Computer
Music Journal
Revista
Backstage
Revista
Cérebro e mente
Revista
Música e tecnologia e Jornal “Folha de São Paulo”
Livros
e teses:
ALTEN,
Stanley R. Audio in media.
EUA: 3ª edição, 1990. LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência – o futuro do pensamento da era da informática.
Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1990.
LÉVY,
Pierre. Cibercultura.
São Paulo: Ed.
34, 1999.
PAIVA,
José Eduardo Ribeiro de. Uma análise crítica da relação música/ tecnologia
do pós-guerra até a atualidade. Campinas: Tese de mestrado,
Unicamp, Instituto de Artes, 1992.
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José Eduardo Ribeiro de. Sonorização em multimídia: técnicas específicas
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Instituto de Artes, 2002.
[1]
MOORE,
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Computer Music Journal. vol. 20. nº 1 pp 25-41. 1996.
Segundo Moore, a síntese de música computacional foi pela
primeira vez realizada nos Bell Laboratories, os quais também
nos trouxeram o cinema sonoro, o som estereofônico, a fala
sintetizada por computador, o transistor, o laser e alguns
tipos de satélites de comunicação. As primeiras experiências
de programas de computador para composição de música foram
escritos por Lejaren Hiller na University of Illinois nos
meados da década de cinquenta. Max Mathews, trabalhando
com John Pierce, escreveu nos Bell Laboratories os primeiros
programas de síntese de som por computador em 1957. Mathews
desenvolveu um programa de música por computador em 1957,
em um computador de grande porte. O programa era chamado
Music I e apresentava uma única voz, uma forma de onda triangular,
não possuia ADSR e só controlava a afinação, intensidade
e duração. O Music I deu origem a uma série de programas
musicais como Music II, Music III e o Music IV. Nos meados
da década de sessenta, John Chowning montou a primeira instalação
universitária de música computacional na Stanford University.
Desde aquela época, a música computacionalvem sendo amplamente
praticada nos Estados Unidos, Suécia, França, Canadá, Austrália,
Itália e Áustria.
[2]
SABATTINI,
Renato. Tomografia
PET: uma janela para o cérebro.
Artigo da Revista Cérebro & Mente 1(1), 1997.
[4]
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[8]
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José Eduardo Ribeiro de. Sonorização em multimídia: técnicas específicas para a música digital.
Campinas: Tese de doutorado, Unicamp, Instituto de Artes,
2002.
[11]
LÉVY,
Pierre. As tecnologias da inteligência – o futuro do pensamento
da era da informática. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1990.
[14]
LÉVY,
Pierre. As tecnologias da inteligência – o futuro do pensamento
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