Internet: novos formatos na geração e disseminação de conteúdo

Por Daniele Basanela

Dentre os formatos multimídia criados pelo homem, a internet, foi o que mais se massificou, transformando-se em um verdadeiro fenômeno na era da informação. Em seu surgimento a rede mostrou imenso potencial como meio eficiente na busca e disseminação de dados, tendo em vista milhares de home pages[1], criadas para tratar de todo e qualquer assunto.

Devido a sua rapidez, toda informação que a web carrega precisa ser constantemente ou até momentaneamente atualizada, para não perder seu caráter de fonte instantânea de notícias. Esse fator aliado à grande popularização da rede, gerou um mercado direcionado a produção de conteúdo para a internet.

Segundo Fernanda Romano, uma quantidade muito grande de portais de notícias foi criada para suprir a demanda de usuários sedentos por informação eletrônica, essas pessoas no entusiasmo da procura, se perdiam dentro da diversidade de assuntos dispostos na Internet. Porém, findado o encanto inicial o internauta passou de um individuo curioso, para um consumidor seletivo, fiel a algumas fontes de informações muito bem selecionadas.

Portais como UOL[2], AOL[3], Globo.com, entre outros, especializaram-se em oferecer alta qualidade em conteúdo jornalístico e se estabeleceram no mercado dessa forma. Mas a promessa que a Internet parecia ser - novos negócios com retorno alto e garantido - durou pouco tempo, muitas empresas que apostaram na venda de produtos on-line fecharam suas portas virtuais, as que permanecem tiveram que buscar outras estratégias para se manterem ativas.

A concorrência entre os portais de notícias e o novo posicionamento do Internauta, muito mais exigente, também agravou a situação, mas, talvez, o verdadeiro motivo tenha sido a descrença pela publicidade na Internet, afirma Ana Kelner. Sendo assim, novas estratégias comerciais surgiram para contornar a crise, alguns provedores que ofereciam, além de notícias, acesso à rede, passaram a restringir seu conteúdo aos assinantes na tentativa de aumentar o número destes (Portal Exame, 2003).

Caio Túlio Costa, executivo do Grupo UOL, afirma que “no mundo virtual só sobreviverão às empresas capazes de gerar conteúdo de qualidade”, mas isso custa caro e seu fornecimento gratuito pode acabar com uma grande editora em pouco tempo, como é o caso da Abril, que ainda no ano de 2003 vai oferecer o conteúdo das suas revistas em seu próprio site, o acesso terá vários níveis de restrição e só poderá ter o conteúdo completo das matérias, os assinantes daquele periódico ou do portal Abril, serviço que estará disponibilizado em breve (Fernandes, 2003).

Outros portais, como é o caso da Globo.com, resolveram explorar um segmento em tímido crescimento, o de usuários da rede banda larga, geralmente pessoas das classes mais favorecidas economicamente que buscam um diferencial na Internet. A estratégia foi a criação de conteúdo áudio-visual exclusivo, contento a programação da Rede Globo para assinantes de pacotes do Portal (Hungria, 2003).

Elisa Araújo, os EUA são campeões em estratégias para fornecimento de informação. Lá, alguns Sites de empresas que provém somente conteúdo, como a Salon.com[4], passaram a oferecer o conteúdo do seu Site sem propaganda nenhuma ao usuário que for seu assinante, pessoas externas continuam a ter acesso à informação, porém são submetidos a uma quantidade absurda de Banners[5] e páginas publicitárias.

Soluções simples, como aumentar a venda de publicidade, também dão resultado quando bem aplicadas. A divisão on-line do New York Times é exemplo disso, recentemente superou uma das crises do setor tornando a venda de espaço no seu portal mais atrativa, fornecendo ao anunciante um perfil exato do seu Internauta e novas formas de atuar junto à visita do mesmo ao site, como a compra de toda a navegação do usuário (Romano, 2003).

Estratégias estão sendo criadas a todo o momento para tentar superar a crise no setor da Internet, porém muitas empresas ainda estão com as contas no vermelho. Casos como da American On Line, que em 2003 perdeu um número muito grande de assinantes para outros provedores de acesso de custo menor ou para provedores de banda larga das próprias empresas telefônicas, como é o caso do Terra, do grupo português Telefônica (Salles, 2003).

O UOL, um dos pioneiros como provedor de acesso à internet e conteúdo de qualidade, também enfrenta a crise. Propriedade do grupo Folha da Manhã e da Abril, a empresa fechou o ano de 2002 com prejuízo e a situação não é diferente no primeiro trimestre de 2003. Ela ainda aposta no modelo: venda de anúncios mais assinatura de acesso para se manter, porém, o mercado publicitário está abalado pela crise na América Latina, o que não permite a retomada do crescimento (Blue Bus, 2003).

Outro caso a ser analisado é o do site da CNN em português, que em atividade desde 1998, foi desativado; segundo os administradores, isso aconteceu porque a situação econômica no Brasil inviabiliza o negócio. Quando uma empresa do porte da CNN é obrigada a tomar uma decisão como esta, verificamos a fragilidade do mercado on-line no Brasil (Balieiro, 2003).

Quanto à produção de conteúdo informativo para a internet, Fernanda Romano afirma, que a forma como o mesmo é colocado na rede difere e muito dos formatos impressos convencionais, isso acontece devido à mobilidade e atualização constante da web; noticiários minuto a minuto são a grande sensação do momento, onde não importa a profundidade com que determinado tema é tratado e sim a essência da informação, fazendo com que os textos se pareçam mais com manchetes do que com matérias. As pessoas ainda preferem o formato papel para se dedicarem a um grande texto de informação, como o jornal, talvez por isso, empresas como a Folha de São Paulo, consigam se manter no espaço real e virtual.

Conforme Ângela Marsiaj, o formato hipertexto na rede tem muita força e não é somente em textos informativos como a publicidade feita via rede. Tornou-se praticamente uma regra o fato de que todo banner ou pop-up [6], deve encaminhar o internauta para um outro site, onde esse terá um contato mais direto com o produto ou serviço anunciado, isso aproxima o fabricante do consumidor, criando um elo de fidelidade.

Na internet, além de empresas especializadas em conteúdo, muitos dados se espalham por sites pessoais, que abordam os mais diversos assuntos. No início, para uma pessoa colocar suas idéias e pensamentos na internet, era preciso ter conhecimentos básicos de programação, mas o surgimento de uma nova tecnologia batizada de blog[7] mudou o rumo dessa história.

Sérgio Teixeira Jr, em um artigo da revista virtual “Negócios Exame”, define o blog da seguinte forma: é um diário virtual no qual o internauta fala de sua vida, expõe ensaios fotográficos ou escreve sobre assuntos variados em um programa padrão de simples uso, onde o usuário coloca seus pensamentos para o mundo. Esse novo sistema tem alterado a forma do conteúdo na Web, já que todos podem expor suas opiniões e serem repórteres do seu cotidiano (Poloni, 2003).

Bruno Rodrigues, em sua análise sobre os blogs, constata que já existem os mais diferentes tipos, como os blogs pessoais, que são a grande maioria da rede. Eles são diários abertos da vida, com fotos, experiências contadas abertamente por pessoas que na maioria das vezes se tornam anônimas na imensidão da Internet, esses tipos de blog estão começando a criar uma nova cultura na sociedade, as pessoas passam a “espiar” a vida alheia da janela do seu computador.

Nos blogs de opinião são discutidos abertamente, às vezes por vários internautas, assuntos diversos como botânica, astronáutica, cultivo de flores e engenharia genética. Blogs de opinião estão mudando a forma de pesquisa na internet, sendo que dados técnicos sobre determinado assunto são encontrados em sites de empresas que provém conteúdo, e as “entrevistas” - opiniões sobre esses mesmos assuntos - são encontrados nos blogs.

Blogs de caráter profissional revelam segredos que nunca seriam publicados por qualquer jornal, como impressões de um jornalista ao cobrir uma guerra, críticas de funcionários às políticas internas das empresas na qual trabalham, opiniões das mais diversas sobre assuntos muitas vezes de sigilo profissional são abertos em rede mundial nos blogs (Rodrigues, 2003).

Partindo do ponto que a internet comercial brasileira “nasceu” em 1995, vemos que muita coisa mudou em sua existência. Segundo Edson Vara, em entrevista para a revista “Exame”, no surgimento da internet várias “profecias” e “promessas” foram anunciadas como parte da revolução que ela causaria em todos os segmentos do mercado, a maioria dos palpites não foram válidos e muitas empresas que acreditaram neles acabaram fechando as suas portas virtuais; o que sobrou disso tudo foi o aprendizado e a constatação de como a rede mundial de computadores pode modificar empresas, negócios e a vida das pessoas (Rebouças, 2003).

Em sua entrevista, ele continua a análise, desmistificando algumas falsas verdades que a web prometia. Ao final desses 8 anos de existência no Brasil, pode-se constatar algumas mudanças que permaneceram no mercado, como o fato de que as empresas se tornaram mais ágeis e produtivas, as vendas on-line ajudaram no seu faturamento, mas não extinguiram a existência do varejo no mundo real; culturalmente a rede muda a estrutura das empresas que a utilizam como uma nova ferramenta, atingindo resultados antigos com mais eficiência (Vieira, 2003).

Ao final, pode-se constatar que os mitos e verdades sobre a internet mudam a todo instante, é impossível profetizar qual será seu futuro, o que sabemos é que só será capaz de entender a web quem for capaz de acompanhar suas mudanças, quem for maduro o bastante para enfrentá-la como um mercado virtual, com regras não muito diferentes das do real, mas de imensa capacidade de adaptação e características próprias. Pessoas que acreditarem nisso vão construir o tão sonhado futuro da internet.



Bibliografia

ARAÚJO, Elisa. AOL fecha conteúdo de revistas por AOL. Blue Bus, 27 de março de 2003. [on-line]
Disponível na Internet: http://www.bluebus.com.br/busca

BALIEIRO,Silvia. CNN.com.br sai do ar. Info Exame, 29 de maio de 2003. [on-line]
Disponível na Internet: http://www.infoonline.com.br

BLUE BUS. UOL ainda registra prejuízo. 23 de junho de 2003. [on-line]
Disponível na Internet: http://www.bluebus.com.br/busca

FERNANDES, Manoel. O importante é o conteúdo. Veja Vida Digital. Edição Internet 2000. Acessado em maio/2003. [on-line] Disponível na Internet: http://www.veja.abril.com.br/especiais/vidadigital2/16entrevista.html

HUNGRIA, Júlio. Globo.com quer ser líder na banda larga. Blue Bus, 16 de janeiro de 2003. [on-line]
Disponível na Internet: http://www.bluebus.com.br/busca

KELNER, Ana. Sem publicidade, só para assinantes. Blue Bus, 23 de janeiro de 2003. [on-line]
Disponível na Internet: http://www.bluebus.com.br/busca

MARSIAJ, Angela. Unir os pontos é tudo. Blue Bus, 04 de junho de 2003. [on-line]
Disponível na Internet: http://www.bluebus.com.br/busca

POLONI, Gustavo.Ei, blogger, isso é com você.VEJA ONLINE - Edição 1 705 - 20 de junho de 2001. [on-line]
Disponível na Internet: http://www.uol.com.br/negociosexame/complementos/revista0006_12c.html

PORTAL EXAME. Portal Abril estréia e reúne todo o conteúdo do grupo na web. São Paulo, 03 de junho de 2003. [on-line] Disponível na Internet: http://www.portalexame.com.br

REBOUÇAS, Lídia.Para que, afinal, serve a Internet?. Revista Exame, E.conomia. Acessado em 10 de junho de 2003. [on-line] Disponível na Internet: http://www.uol.com.br/negociosexame/revista/revista0012_17.html

RODRIGUES, Bruno.Para quem não entende os blogs.Webinsider, 18 de fevereiro 2003. [on-line]
Disponível na Internet: http://www.webinsider.com.br/vernoticia.php?id=1616

ROMANO, Fernanda. Demora mais chega lá. Blue Bus, 16 de janeiro de 2003. [on-line]
Disponível na Internet: http://www.bluebus.com.br/busca

ROMANO, Fernanda. Eu não sou jornalista. Blue Bus, 06 de junho de 2003. [on-line]
Disponível na Internet: http://www.bluebus.com.br/busca

SALLES, Joana. Independent decide fechar parte do conteúdo. Blue Bus, 24 de abril de 2003. [on-line]
Disponível na Internet: http://www.bluebus.com.br/busca

SALLES, Joana. AOL já perdeu 1 milhão de assinantes. Blue Bus, 04 de junho de 2003. [on-line]
Disponível na Internet: http://www.bluebus.com.br/busca

VIEIRA, Eduardo. Os Bastidores da Internet no Brasil. 1ª Edição. Manole, São Paulo 2003.


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[1] Página inicial de um Site ou Sinônimo de Site.
[2] Universo On Line: www.uol.com.br
[3] American On Line: www.aol.com.br
[4] Revista on-line de política e cultura
[5] Formato das propagandas na internet, “linkáveis” aos sites dos anunciantes.
[6] Janela que abre na tela do computador sem a solicitação do usuário contendo informações ou publicidade.
[7] Página da Internet atualizada freqüentemente, composta por pequenos parágrafos em formato cronológico.

 

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