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A MULTIMíDIA COMO CAMPO HÍBRIDO DE INTERAÇÕES ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
DESDE AS ARTES PLÁSTICAS
Por
Fernando Gómez Alvarez
No que diz respeito aos pontos de contato, isto é, as áreas
de convergência ou de influências recíprocas entre os diversos
campos do conhecimento englobados no abrangente conceito de
Multimeios, acredito que, tomando como base as suas particularidades,
tanto os processos de interação quanto o resultado dessa miscigenação
ou mistura são válidos. No entanto, continuamos a tentar uma
generalização do termo Multimeios segundo o tradicional paradigma
da lógica cartesiana: apenas construímos modelos e mecanismos
únicos. Iguais e invariáveis para todos por também serem iguais
as nossas estruturas e mecanismos psicofisiológicos. Ora,
dito paradigma vigora de forma ininterrupta e crescente em
todas as áreas vinculadas à tecnologia, e em especial, na
informática. Assim, a pretensa unicidade do paradigma, em
termos da extensão da globalização e da unidade[1]
psicolingüística (a universalidade dos códigos, ícones, programas,
interfaces e ferramentas da linguagem empregadas) sustenta-se
num simples pressuposto lógico, reducionista e também etnocêntrico.
Os atuais apóstolos da tecnotrônica vaticinaram a morte do
livro enquanto suporte tradicional – o que os apresentava
como a indústria politicamente correta do futuro, por serem
ecológicos – embora, contraditoriamente, na atualidade lucram
com a progressão geométrica das vendas de um novo filão editorial
impresso sobre celulose: os manuais e apostilas dos programas
de computação. Isto é, as novas cartilhas de alfabetização
dos analfabetos tecnológicos que é constituída pela grande
maioria dos habitantes do planeta. É um fato comprovado inúmeras
vezes pela história, que os divulgadores das novas tecnologias
sempre declararam –com ampla cobertura da mídia – o óbito
das tecnologias precedentes, numa espécie de evolucionismo
industrial a cada nova invenção. Dentre os obituários destaca-se
em particular o das artes, tantas vezes enterrada, assim como
o do rádio, da Tv, do cinema, etc. Em geral, as mortes anunciadas
nem sempre aconteceram. Os augures esqueceram-se de mencionar
os papeis protagonistas do acaso e do inconsciente coletivo
na história das descobertas humanas. De fato, cada nova mídia,
técnica ou tecnologia que foi incorporada ao fazer artístico
da humanidade, passou por um período relativamente longo (em
termos de tempo biológico, natural) de divulgação, familiarização
e assimilação, até poder ser desenvolvida de forma criativa
e independente por gerações posteriores. Tal os casos da invenção
da litogravura no século XVIII, da fotografia[2]
e do cinema no século XIX, e mais recentemente, da arte eletrônica.
Enquanto dito período não transcorre de forma orgânica, a
nova mídia deverá usufruir e se apropriar esteticamente dos
modelos imagéticos das mídias precedentes. Devido a que a
velocidade das novas descobertas aumenta em progressão geométrica
desde a II e, principalmente, a III Revolução Industrial,
diminuem por conseguinte os períodos de apropriação. A mídia
detém um papel fundamental neste processo, ao determinar e
interferir tanto na forma, quanto nas imagens e conteúdos
que são apreendidos. Diversos autores, dentre os quais Mc
Luhan, Eco, Kossoy e Pignatari, alertaram sobre a forma como
o referido bombardeio icônico acelera tanto a imposição de
estereótipos, quanto o processo de aculturação globalizada,
assim como incide na reelaboração do imaginário coletivo.
Num artigo dedicado à arte e a tecnologia no Brasil, Zanini[3]
salientava o caráter transitório de algumas destas experiências
pioneiras nas artes plásticas (como por ex. a reprografia),
pois a novidade convidava à experimentação sem que fossem
abandonados, de forma generalizada, os outros meios. Ora,
o surgimento de um novo meio de expressão, ou de uma técnica
a eles vinculada não implica num lembrete de obsoleto ou démodé
para todo o precedente. Aliás, o conceito de ultrapassado
não faz sentido no campo das artes, no qual o sujeito experimentador
tem que se identificar, ao nível de empatia, tanto com a matéria,
quanto com os materiais e técnicas utilizados, a fim de poder
fazer delas o veículo expressivo da sua individualidade.
Por um lado, tecnologias de ponta foram e continuam a ser
descartadas por serem demasiado econômicas e portanto, potenciais
concorrentes. Por outro, existe toda uma tradição no Ocidente,
e em particular nos Estados Unidos – atual modelo pragmático
e bem sucedido de globalização – em patentear e fabricar uma
infinita quantidade de produtos e tecnologias que não tem
utilidade ou, no melhor dos casos, resultam supérfluos. Basta
dar uma olhada nas revistas de divulgação das tecnologias
entre as massas, como por exemplo, Popular Mechanics, para
constatar que desde os anos cinqüenta do século XX, existe
um bombardeio imagético da banalidade junto a um crescente
culto da imagem falsificada – como naquele artigo sobre bricolagem
dedicado a ensinar ao norte-americano médio como criar um
armário com aparência de biblioteca colando lombadas de livros
às tábuas. Partia-se do princípio geral de que possuir uma
biblioteca era um símbolo de status social desejável. Conseqüentemente,
existia uma produção direcionada a um mercado de falsos leitores
que ostentavam, ou melhor, compravam o “conhecimento”. Posteriormente,
Eco se referiria à continuação desta tendência como “a indústria
do falso absoluto”, numa demolidora série de artigos sobre
os parques temáticos, os museus de cera, e a arquitetura de
Las Vegas. Para o autor, desde os anos 70 a mídia está investindo
para validar o substituto, e, inclusive, nos leva a acreditar
que a réplica é mais verdadeira que o real. Idéia que hoje
é uma constante na indústria do entretenimento. Autores como
Baudrillard, aprofundaram-se no apelo que o simulacro tem
na pós-modernidade. Desta forma, noções como a aura do objeto
artístico, tão cara à modernidade, passaram a ser reavaliadas
à luz de determinados modelos representacionais. Enquanto
técnicas de longa tradição na arte ocidental, como o sfumatto
(a passagem gradual de um tom ou de uma cor para outra, com
independência da textura e do material da superfície representada),
passaram a ser um sinônimo de acabamento da imagem computadorizada,
a ponto de, por sobre-saturação, interferir culturalmente
na percepção e na representação imagética do que denominamos
como o modelo do “real”.
Retomando o ideal positivista de unicidade mediada pela linguagem:
A interface do computador parece ser, hoje, uma espécie de
substituto on line do Esperanto – aquele sonho de uma língua
universal – só que, na atual versão não contamos com a bagagem
dos lingüistas e filólogos, mas com a parca linguagem especializada
e padronizada dos engenheiros programadores. Cuja escrita
poderíamos chamar de tridimensional, pois tanto a espacialidade,
quanto a interação constante entre as partes e o todo são
aspectos preponderantes no hemisfério direito do cérebro -
o mais desenvolvido em arquitetos, artistas plásticos e engenheiros
como comprovam inúmeras pesquisas. Com a subseqüente dificuldade
na redação de manuais para usuários de computador, tão obscuros
quanto muitos dos manifestos e escritos teóricos redigidos
por artistas. Em ambos, a ênfase em estabelecer um elo entre
as partes e o todo, compromete a lógica lineal do discurso
escrito segundo a secular tradição européia. Nesse sentido,
os novos manuais de alfabetização tecnológica estariam a criar,
embora de forma confusa, uma aproximação diferenciada à escrita
(não seqüencial, não lineal, etc).
Podemos vislumbrar o retângulo da tela do computador como
uma nova versão da janela renascentista. Só que agora, o fragmento
do mundo real fixado sobre a tela digital não é mais estático
nem obra única do saber e da tecnologia de uma determinada
época, sendo refletido pelo indivíduo[4].
A nova janela computadorizada, ao contrário, é o resultado
de um fluxo de interação dinâmica entre diferentes especializações
e inovações desde uma óptica predominantemente tecnológica.
Na qual, tanto o simulacro quanto o modelo do mundo real adquiriram
status de verdade inamovível ou paradigmática, subvertendo
inclusive o conceito do que é a realidade, ao tempo que a
essência econômica e monetária do processo passa desapercebida.
Um exemplo extremo da encarnação do mito contemporâneo do
autômato (sucessor dos antigos monstros), nos fala da insatisfação
– mediada pela tecnologia – do homem com o caráter efêmero
da sua própria essência biológica, o constitui o manifesto
e a obra do artista australiano Sterlac. Nele se combinam
em perfeita harmonia: Por um lado, o artista que visa expandir
os limites da sua arte por intermédio da interação entre seu
corpo e a tecnologia (em particular a nanotecnologia e a mecatrônica).
Assim, pela objetivação dos seus medos (o caráter efêmero
da vida) e dos seus anseios (a possibilidade de se transformar
num misto de homem e máquina com peças substituíveis) ele
representa ao indivíduo alienado da pós-modernidade. Por outro,
a tecnologia de ponta está disfarçada de mecenas da vanguarda
artística. Pois, o referido artista resulta numa cobaia ideal
para os seus patrocinadores, tendo em conta as discussões
e os regulamentos bioéticos que ainda vigoram na área das
ciências.
A arte eletrônica como uma arte limpa, mediada pela lógica
matemática, versus o artesanato ou a arte empírica com base
na intuição. Suportes da arte tradicional relegados a um segundo
plano embora com caráter massificado na forma da arte terapia.
O que até pouco tempo era o interregno sagrado da arte, transforma-se
cada vez mais sob a pressão dos fabricantes de softwares e
de hardwares. Assistimos à permeabilidade dos júris e das
bienais de arte, em especial as da gravura e fotografia (técnicas
por tradição e natureza) às novas tecnologias. O fino, frio
e impessoal acabamento da máquina contraposto ao selo indiscutível
do acaso e do inconsciente por intermédio do impressor ou
do quarto obscuro. A abolição do trabalho individual em nome
do falso coletivismo (dos programadores) e do anonimato (a
serialização). Bueno cita três forças motoras da arte contemporânea:
as instituições, o mercado de arte e a mídia especializada.
Sendo que os intermediários intelectuais que controlavam as
primeiras também influenciavam o desenvolvimento das outras[5],
numa espécie de cadeia de produção artística. Moles, por sua
vez, referia-se ao dito processo como um mecanismo psicoeconômico
num micromeio intelectual fechado[6].
Ora, parece que aconteceu uma deslocação desse círculo para
os representantes das novas tecnologias, ou que estes simplesmente
irromperam nesse nicho devido a que as enormes riquezas geradas
pelo boom tecnológico digital que transformou muitos engenheiros,
programadores e companhias em colecionadores e patrocinadores
com grande poder de barganha.
Na minha opinião, como na de muitos artistas, o computador
é mais uma ferramenta, um suporte imagético, no processo criativo,
não aquela ferramenta única, que possibilita a criação de
uma arte total. Secular anseio que se remonta ao barroco[7]
e que fora retomado pelas vanguardas artísticas do século
XX com grande persistência[8].
O que são as mídias eletrônicas contemporâneas (rádio e TV
incluídas), se não mídias dramáticas que continuam a aunar
linguagens diferentes na busca dessa arte total, para o qual
retomam, inclusive, linguagens ancestrais que, como a oralidade,
têm um caráter polissêmico, não-lineal[9].
Para alguns teóricos como Boone, citado por Hirschberg, L.,
hoje em dia pretende-se criar uma imagem total do artista
por intermédio do marketing: colocando-o em certas mostras,
procurando uma certa atenção por parte da mídia especializada,
e dando as festas certas no lugares certos.
A história da arte, do bricoleur das cavernas ao bricoleur
das vanguardas contemporâneas, continua a ser a de um objeto
artístico híbrido, que se pretende objetivar como total, seja
na forma como é criado ou como é veiculado.
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[1] Uma apurada
explicação destes conceitos pode ser encontrada na obra do
geógrafo Milton Santos, em especial: Por uma nova geografia
e Técnica, espaço, tempo. Ambas publicadas em SP, pela Hucitec,
em 1986 e 1996, respectivamente.
[2] Resulta curioso que o anúncio oficial da sua descoberta
fosse duplamente feito ante as academias de artes e de ciências.
Esta duplicidade matizou a fotografia durante anos a fio.
[3] Zanini, W. Primeiros tempos da arte/tecnologia
no Brasil, em Domingues, D. (org.) Arte no século XX. SP:
Unesp.
[4] Ora, Pignatari chega a epitomar como agrárias todas
as artes pré-industriais, às que equipara ao artesanato no
intuito de dessacralizá-las, pois ele considera agonizantes
ambas as formas. Para o autor, está acontecendo uma readaptação
do conceito arte, mediado pela tecnologia. Para maior informação
ver Pignatari, D. Semiótica & literatura. SP: Cortez Moraes,
1979.
[5] Em Bueno, Maria Lúcia, Artes plásticas no século
XX: Modernidade e globalização. SP: Unicamp, 1999.
[6] Em Moles, A. Teoría de los objetos. Barcelona:
Gustavo Gili, 1974.
[7] Bernini sintetizou as bases da arte total ao trabalhar
com uma equipe multidisciplinar onde a arquitetura era o pano
de fundo (ou plano do quadro) e a fonte de luz da escultura
transformada em relevo. Lembrar também a influência da ópera
nas artes plásticas.
[8] As predições sobre a arte da era da reprodutibilidade
de Benjamin e Mc Luhan se estruturaram como tendência artística
na Transvanguarda italiana dos anos 80 embora se pré-anunciassem
desde o surgimento da arte Pop e o seu uso da serigrafia e
a fotomecânica.
[9] Ver o que diz a respeito, Carpenter, E. The new languages
em Explorations in communication. Boston: Beacon, 1968.
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