O Hipertexto e suas quebras: uma abordagem do texto não-linear na web

Por Luis Fernando Machado de Carvalho e Silva

O cientista americano Vannevar Bush (diretor do Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento Científico dos Estados Unidos durante a 2º Guerra Mundial), preocupado com a crescente produção de conhecimento e de como ele poderia ser armazenado e organizado de modo a ser achado com rapidez e eficácia, quando necessário, vislumbrou com riqueza de detalhes em seu artigo intitulado "As We May Think", de 1945, o MEMEX (Memory Extension), uma máquina capaz de armazenar grandes quantidades de informações e que ficou conhecida como a precursora da idéia de hipertexto.

O MEMEX poderia armazenar diversos tipos de materiais, incluindo notas manuscritas, registros datilográficos e fotos. Uma "indexação associativa" criaria e manteria links entre itens para facilitar a localização e correlacionamento das informações. O sistema seria composto por uma grande mesa com um sistema de armazenamento de microfilmes operado por alavancas, onde o resultado seria mostrado em apenas uma tela.

O MEMEX idealizado pelo cientista americano Vannevar Bush

A palavra "hipertexto"

O termo "hipertexto", ao contrário do que a maioria pensa, foi usado pela primeira vez pelo sociólogo Theodor Holm Nelson (mais conhecido por Ted Nelson) e não por Tim Berners-Lee. Em 1960, Nelson teorizou um sistema de base de dados e nomeou-o Xanadu Docuverse, considerado a idéia precursora da mídia web. A idéia baseava-se em uma espécie de biblioteca universal virtual onde qualquer um poderia navegar, a partir de textos com vínculos (hipertextos), e pegar livros, enciclopédias, revistas, jornais e imagens. No Xanadu estava previsto que os autores receberiam uma determinada quantia, automaticamente, sempre que alguém copiasse seus textos.


Tim Berners-Lee colocou em prática os pensamentos de seus antecessores para propor seu modelo da web mais próxima da forma como conhecemos hoje. Porém, Nelson diz que Lee simplificou muito as premissas da Xanadu e esta simplificação acabou com a ambição de que o hipertexto substituiria algum dia o papel impresso.

"A Web transformou o hipertexto numa ferramenta unívoca (os links apenas saltam de uma página para outra na programação em HTML) o que, por vezes, nos faz perder o fio da meada", critica Nelson. No sistema Xanadu estava previsto uma funcionalidade que ele batizou de CosmicBook (Livro Cósmico). Esta funcionalidade estruturaria a escrita de um modo que nenhum browser ofereceu até hoje. Os links de hipertexto ficariam visíveis, ligando diretamente páginas diferentes apresentadas em paralelo na tela.

O uso do hipertexto na internet

O hipertexto é usado praticamente em todos os sites disponíveis na Internet, fornecendo uma maneira de se explorar grandes conteúdos textuais em espaços (telas) reduzidos. Por meio desta nova forma de apresentação de informação, livros inteiros podem ser disponibilizados na web para consulta de qualquer pessoa que possua um computador conectado à internet. O hipertexto pode ser visto como um dos maiores recursos das mídias interativas, uma vez que a grande maioria das visitas aos sites existentes na internet, tem como objetivo a busca da informação.

Essa informação, muitas vezes de grande extensão, só pode estar presente na Internet por meio do hipertexto, que a descentraliza em diversos fragmentos de textos menores interligados por links eletrônicos, o famoso "clique aqui para saber mais". Sites como o “Estadão” (http://www.estadao.com.br), “Terra” (http://www.terra.com.br), detentores de uma vasta “massa” de informação, só se tornam operacionais com o uso do hipertexto.

Grandes mudanças ocorrem na escrita quando são utilizados recursos de hipertexto. Nancy Kaplan e Stuart Moulthrop afirmam em seu ensaio “Seeing Through the Interface: Computers and the Future of  Composition” (The Digital Word, p. 264), que este tipo de composição que faz uso de diferentes recursos tecnológicos (hipertexto e multimídia) para apresentação da informação, coloca a língua – falada, escrita e iconográfica – num contexto muito mais rico do que um ensaio escrito pode proporcionar.

A não obrigatoriedade da seqüência de leitura dos "blocos de informação" faz com que o autor perca o “controle” das interpretações que seu texto pode ter. Cada leitor pode passar de um bloco para outro por diversos caminhos, o que por si só implica em diferentes construções do texto. O leitor tem agora a capacidade e, ainda mais, a responsabilidade de desenvolver seus próprios caminhos para a navegação hipertextual. No entanto, qual é o melhor caminho para que a mensagem linear pensada pelo autor não se perca na transição para um texto não-linear?

É necessário que o hipertexto seja organizado em diversos fragmentos, a primeira vista "independentes", de modo que o usuário necessite a qualquer hora apenas do “pedaço” que está lendo para entender a premissa básica do texto.

Outro fator importante é que esses fragmentos devem ser curtos e usar uma linguagem direta, pois a leitura online é cerca de 25% mais lenta do que a do papel impresso. Soma-se a isso o desconforto da leitura na tela do computador e o resultado é que o texto linear inicial deve ser reduzido em até 50% para tornar a leitura online mais agradável para os leitores e, conseqüentemente, fazer com que tenham vontade de permanecer e conhecer todo o conteúdo do texto (Nielsen, 1995).

O hipertexto também possibilita a escrita coletiva, um tipo de texto que permite colaboração e revisão dinâmica. Estes textos quase que acabam com a distinção entre ler e escrever, definindo o autor sempre como produtor e consumidor de informações textuais. Com isto, uma outra questão vem à tona: como ficam os direitos autorais sobre o texto?

Neste contexto, um dado apresentado por Nielsen (1995) se torna relevante. Ele diz que a internet poderá alcançar até 2005 o número de 500 milhões de pessoas online e, em meados de 2010, esse número deve chegar perto de 1 bilhão de internautas, o que implica em grandes mudanças pela frente nas formas da internet apresentar e estruturar a informação, de modo a conseguir atender a essa crescente demanda de novos usuários.

Baseados nestas novas condições existentes a partir do uso do hipertexto, estudos sobre as mídias interativas são essenciais para se alcançar um maior grau de compreensão sobre como elas podem influenciar e modificar o conhecimento que armazenamos até hoje.

Linha do tempo da Internet

1957

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos forma a Arpa (Advanced Research Projects Agency).

1960

O grupo de pesquisa Rand Corporation, especializado em assuntos militares, desenvolve estratégias em caso de ataque nuclear.

1963

J.C.R. Licklider, da Arpa, Larry Roberts, do Lincoln Labs, em Massachusetts iniciam projetos para uso comunitário da internet

1969

Um grupo de consultoria norte-americano Bolt Beraneke Newman (BBN) propõe um protocolo de controle de rede para transferência de dados e comunicação entre servidores. A Arpanet permite a troca de informações entre usuários.

1971

A Arpanet cresce para 23 servidores conectando universidades e centros de pesquisas.
1972

Primeira demonstração pública da Arpanet conectando 40 máquinas e o Terminal Interface Processor (TIP), organizada por Robert Kann em Washington, D.C. Primeiro programa de e-mail criado por Roy Tomlinson, da BBN. O International Network Working Group (Grupo de Trabalho da Rede Internacional ou INWG) é a primeira entidade a controlar a rede em expansão.
Aos 29 anos, Vinton Cerf é eleito o primeiro presidente do INWG. Mais tarde, seria conhecido como o pai da internet.

1973

A comunidade da computação começa a discutir abertamente uma rede mundial.

1974

A BBN abre a Telenet, primeira versão comercial da Arpanet. Vinton Cerf e Robert Kahn publicam estudo sobre os TCP (Transmission Control Protocol) e IP (Internet Protocol), linguagem utilizada pela rede. Usam o termo internet (Interconnected Networks) pela primeira vez.

1976

Mike Lesk, da At&t, desenvolve o software UUCP (Unix - to - Unix - CoPy), permitindo que duas máquinas se comuniquem por meio de modem e linha telefônica. Um ano depois surge a UUnet, primeira rede mundial baseada no uso de linhas telefônicas. Nasce a Satnet, primeira rede de satélites, ligando os Estados à Europa.
1977 O correio eletrônico é fornecido a mais de cem pesquisadores em ciências da computação.
1978 O futuro vice-presidente dos EUA, Albert Gore, lança a expressão "superestrada da informação".

1979

Especialistas da Universidade Duke e da Universidade da Carolina do Norte estabelecem os primeiros grupos de discussão da Usenet, que tratam de diversos assuntos. Compuserve, primeiro serviço de informação on line, inicia com apenas 1.200 assinantes e oferece somente correio eletrônico e alguns bancos de dados.
1980 A Darpa (Defense Advanced Research Projects Agency) decide abrir a todos os interessados sobre os protocolos TCP/IP, gratuitamente.

1981

A Arpanet tem 213 servidores. A rede universitária, Bitnet ("Because It´s Time"), oferece o sistema listserv, permitindo que mais de 4.000 fóruns virtuais sejam criados.

1982

A Eunet (European Unix Network) é criada para fornecer e-mail e serviços de Usenet. São estabelecidas conexões iniciais entre Holanda, Dinamarca, Suécia e Reino Unido.

1983

A Arpanet se divide em Milnet (fins militares), e nova Arpanet com propósitos de pesquisa. O termo Internet começa progressivamente a substituir Aparnet.

1984

O romancista Willian Gibson cria o termo "ciberespaço", em seu livro "Neuromancer". Passa de mil o número de servidores da internet. É estabelecida a Junet (Japan Unix Network).

1985

Fundada a America Online, maior provedora de acesso à internet do mundo.

1987

O número de servidores da internet supera os 28 mil. Estabelecido o serviço de e-mail entre a Alemanha e a China.

1988

A internet começa a se preocupar com privacidade e segurança. Surgem palavras como "hacker", "cracker" e "arrombamento eletrônico". Em 1º de novembro, Robert Morris, estudante da Universidade Cornell, cria o vírus "Internet Worm" que paralisa temporariamente 6.000 dos 60 mil servidores então conectados à rede. A equipe Computer Emergency Response Team (Cert) é formada para solucionar o incidente criado pelo Worm. É fundado o Prodigy, serviço on line.

1990

Clifford Stoll escreve o best-seller "Cuckoo´s Egg", contando a história real de ciberespiões alemães que se infiltraram em diversas conexões norte-americanas. O número de servidores na internet supera os 150 mil. O britânico, Tim Berners-Lee, começa a desenvolver o projeto World Wide Web, em Genebra, concluído um ano mais tarde. WWW é a parte multimídia da rede, permite compartilhar e trocar grande volume de informações.

1991

Na Universidade de Minnesota, uma equipe liderada por Mark McCahill lança o navegador Gopher, que permite que os usuários "surfem" na rede. A NSF suspende a proibição ao uso comercial na rede, abrindo para a era do comércio eletrônico. Uma solução Archie para o Gopher, chamada Veronica é desenvolvida e se torna um banco de dados com mais de 1 milhão de itens.

1992

Mais de 1 milhão de servidores estão conectados à internet. É criada, com Vinton Cerf na presidência, a Internet Society (Isoc), uma ong internacional para administrar as questões tecnológicas.

1993

Marc Andreessen e outros estudantes desenvolvem o Mosaic, um navegador fácil de usar que torna possível utilizar os recursos multimídia da Web. Mais de 1 milhão de cópias, em um ano. Surge em abril, a revista "Wired" , uma publicação sobre internet. A Casa Branca e as Nações Unidas inauguram página na internet.

1994

A Arpanet/Internet celebra seu 25º aniversário, com mais de 3 milhões de servidores conectados. Mark Andreessen e Jim Clark fundam a Netscape Comunications e lançam um novo browser, "Netscape Navigator 1". O programa de busca "Yahoo" é criado por Jerry Yang e David Filo.

1995

A NFSNet volta à pesquisa, deixando a internet nas mãos do comércio. Bill Gates desenvolve o browse "Microsoft Internet Explorer", para plataforma "Windows 95". O Vaticano entra na Web. Sun Microsystems lançam a linguagem "Java" para
programação na internet. Cerca de 10 mil pessoas, em Hong Kong, ficam sem acesso à Internet, durante ação policial na caça a um hacker. A operação Home Front conecta soldados nos campos de batalha às suas famílias em casa, via internet.

1996

Aproximadamente 80 milhões de usuários, em cerca de 150 países do mundo. O número de servidores conectados chega perto dos 10 milhões. A Microsoft e a rede de TV NBC inauguram a MSNBC, primeira organização noticiosa na rede. A lei norte-americana sobre a Decência nas Comunicações, proíbe a distribuição de materiais indecentes via internet, sendo considerada inconstitucional em 1997.

1997

O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, propõe a criação de transações sem barreiras e sem regulamentos. A Guerra entre o browsers da Netscape (70%) e da Microsoft (30%).

2000

Segundo Vinton Cerf, haverá mais de 180 milhões de computadores ou 700 milhões de usuários, ligados a Web.

 
Bibliografia

Landow, George P. e Delany, Paul. The Digital Word: Text-Based

Computing in the Humanities. Cambridge, MA: The MIT Press, 1993.

362 p. (The MIT Press Series).

Nielsen, Jakob. Multimedia and Hypertext: the Internet and beyond.

USA: AP Professional, 1995. 479 p.

Magalhães, João. Xanadu: a web de um gênio esquecido.

http://busca.estadao.com.br/magazine/materias/2002/dez/27/70.htm

consultado em 17/06/2003.

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Revisão dos textos: Mayla Yara Porto