O uso de softwares no ensino de biologia

Por Márcio Ferreira Avelino

A biologia é uma das áreas fundamentais do conhecimento, tendo vinculado a ela uma gama de especializações, modalidades e profissões bastante extensa. Trata-se de um universo dentro da ciência que possui especificidades singulares, ao mesmo tempo que requer conceitos de muitos outros ramos do conhecimento para ser compreendida e assimilada por completo.

Por tal complexidade e magnitude não é de admirar que encontremos, desde o aparecimento do computador, softwares sendo utilizados dentro da biologia. Programas de computador estão presentes em todos os ramos da biologia, desempenhando as mais diversas funções, quer para armazenar os dados do seqüenciamento genético ou para simular relações em ecossistemas complexos, quer para criar um modelo gráfico de uma proteína ou realizar combinações parcimônicas de sistemática filogenética, ou ainda, para analisar os componentes físicos das ondas sonoras do canto de um pássaro.

Comentar aqui todas as aplicações de softwares na biologia seria impraticável, tamanha é a vastidão de exemplos e possibilidades. Então, vamos concentrar nossa atenção e abordar o uso desta tecnologia no que diz respeito ao ensino de biologia.

Softwares como ferramenta educacional

A questão mais importante que se deve ter em mente quando se pretende utilizar um software dentro de sala de aula ou para promover qualquer processo de aprendizagem é que este é a ferramenta e não o objetivo do que se pretende ensinar. Utilizar um software não é sinônimo de se dar uma boa aula ou garantir o aprendizado.

O software é apenas uma ferramenta que busca facilitar o acesso e contato do aluno com o conhecimento. Isso não quer dizer que todos os assuntos de uma disciplina se adequam satisfatoriamente à utilização de um software.

Porém, quando se emprega um programa de computador em uma aula, o resultado é extremamente interessante e proveitoso, pois, uma vez que a temática da aula permita, o computador torna-se uma interface extremamente versátil e poderosa, no sentido de permitir ao aluno a compreensão e apreensão do assunto tratado.

Além disso, a informatização é um processo irreversível e a não participação neste processo é mais uma forma de exclusão social (Galembeck, 1999).

Retrospecto da utilização de softwares educacionais no Brasil

Antes de abordar os softwares desenvolvidos especificamente para o ensino de biologia, vamos fazer um breve comentário sobre a história dos programas computacionais voltados para o ensino como um todo no Brasil.

Na França, Estados Unidos e outros países, o computador começou a ser utilizado na educação por meio de algumas experiências em universidades no início dos anos 70. No Brasil, em 1971, discutiu-se pela primeira vez o uso de computadores no ensino de física, na USP/São Carlos. A UFRJ foi a primeira na utilização de computadores no ensino, em 1973, usando-o em simulações de experimentos de química. No mesmo ano, na UFRS, foram realizadas algumas experiências com simulações de fenômenos físicos. Em 1974, a UNICAMP desenvolveu um software para o ensino dos fundamentos de programação da linguagem BASIC, usado por alunos de pós-graduação e, em 1975, iniciou-se a colaboração com o Media Lab. do Massachussets Institute of Technology (MIT) (Galembeck, 1999).

Softwares no ensino de biologia

Como em diversas áreas do conhecimento, o estudo da biologia requer em muitas situações um grande nível de abstração para se entender os processos envolvidos. Quer para simular desequilíbrios ambientais dentro de ecossistemas ou visualizar a conformação e ligação de proteínas ou organelas celulares em interfaces gráficas, ou ainda, simular reações bioquímicas e experimentos fisiológicos, as potencialidades gráficas, de interação e de simulação do computador fazem com que os temas das aulas tornem-se claros e facilita o acesso do aluno à informação.

Também em simulações de experimentos o computador pode se mostrar uma ferramenta promissora, pois em geral os “experimentos exigem equipamentos dispendiosos, drogas muitas vezes importadas, matéria biológico (animais, células, etc). Com estas limitações, as aulas práticas habituais são conduzidas por grupos de alunos, diminuindo as oportunidades individuais de manipulação. Outro fator restritivo é o tempo utilizado nos experimentos, limitando o número de experimentos passíveis de serem executados em sala de aula” (Galembeck, 1999).

O ser humano possui como característica uma memória visual extremamente desenvolvida, o que pode ser demonstrado pela força que o universo imagético tem dentro de nossa cultura. Deste modo, o processo de aprendizagem torna-se mais efetivo se estiver aliado ao estímulo visual. Também no âmbito imagético, o computador torna-se uma ferramenta valiosa, uma vez que além de forma e cor ele também pode aliar movimento, tornando a aula mais atrativa e visualmente estimulante.

Grande parte do conhecimento produzido atualmente só é possível graças ao computador, como as técnicas sofisticadas de tratamento da imagem e cálculos estruturais que tornaram possível prever a estrutura tridimensional de uma proteína com base na sua seqüência de aminoácidos. Nada melhor que um computador para ensinar o que foi descoberto com seu uso (Galembeck, 1999).

Porém existe um pré-requisito indispensável para se utilizar um software em sala de aula: o professor deve conhecer minimamente as possibilidades, as limitações e ter alguma familiaridade com o programa que pretende usar. Nem todos os professores, mesmo os universitários, sentem-se confortáveis em utilizar um software dentro de sala de aula. Porém, quando um professor elabora seu próprio programa para a sala de aula, o resultado é extremamente satisfatório, pois o programa segue a linha de raciocínio de quem irá ministrar aquela aula, tornando-se mais eficiente.

Dados sobre softwares no ensino hoje

Atualmente inúmeras faculdades no país estão utilizando softwares em suas aulas e/ou atividades curriculares.

Na Universidade Estadual de Campinas, o Prof Dr. Eduardo Galembeck e sua equipe desenvolvem softwares voltados ao ensino de bioquímica e relatam que universidades como a PUC do Paraná, USP, UNB, UFMG, URGS, Universidade do Algarves dentre outras, adquiriram e utilizam os softwares por eles desenvolvidos.

Na UNICAMP, os alunos dos cursos de enfermagem, educação física, biologia, medicina e engenharia de alimentos, têm em suas aulas de bioquímica, contato com tais softwares. Para a biologia, por exemplo, das 90 horas totais da disciplina, 12 são com utilização de softwares.

Softwares para o ensino de bioquímica também são desenvolvidos na UFRJ e em um CEPID de São Carlos.

Estes dados mostram que realmente a potencialidade do computador para o ensino existe e está sendo cada vez mais procurada e explorada. Professores e alunos somente têm a ganhar com este avanço, no sentido de conquistar facilidades de comunicação e compreensão da ciência.


Bibliografia

Galembeck, E. Desenvolvimento de softwares para o ensino de bioquímica. Tese de doutorado. Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, 1999.

 

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