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Educação à distância e o longo caminho para a experiência
do aprendizado efetivo
Por Márcio Tonelli - Mestrando Depto Multimeios - Unicamp
A
nova ordem econômica imposta pelo processo de globalização
trouxe consigo transformações sociais em ritmo fortemente
acelerado, especialmente visíveis no âmbito dos avanços tecnológicos
dos sistemas de informação e comunicação.
Através da aplicação destas tecnologias o mundo viu-se virtualizado,
com a ausência de barreiras geográficas tradicionais e uma
troca relativamente livre de informações, antes restritas
a grupos menores de pessoas. A relação tempo e espaço mudou
radicalmente. A sociedade passou a exigir dos indivíduos comportamentos
que traduzam uma maior autonomia, maior mobilidade e uma capacidade
de gestão de uma grande quantidade de informações.
Dentro deste contexto, a transmissão de conhecimento passa
a contar com as tecnologias do ambiente Internet, a grande
rede mundial de computadores, um forte aliado para a democratização
das informações. O termo educação à distância, ou simplesmente
EaD, ganha as ruas e as mídias.
Conceituando…
Antes de mais nada, alguns conceitos relacionados ao tema.
Existe uma grande ambigüidade nos termos relacionados ao assunto
EaD na literatura internacional, tais como e-learning, online
learning, web-based learning, entre outros. Embora alguns
textos generalizem a educação à distância como e-learning,
os cenários seguintes nos auxiliam na diferenciação destes
termos.
Assim como um e-mail é uma mensagem transmitida através de
uma rede de computadores, o e-learning é qualquer atividade
de aprendizagem que envolva uma rede de computadores, sem
no entanto ser necessária a transmissão de material através
da rede. Uma atividade de pesquisa na internet - coleta de
informações para trabalhos escolares, acadêmicos e profissionais
é uma forma de e-learnig, já que as atividades principais
são pesquisadas através da rede internet.
Web-based learning necessariamente inclui a entrega
de conteúdo didático através de um Web browser, tais
como o Internet Explorer ou Netscape.
Online learning, por sua vez nos leva às atividades
de acessos a tutoriais de um software aplicativo específico
para dúvidas online. A rede é somente um meio para o acesso.
Distance learning é um termo mais antigo do que as
tecnologias baseadas em redes de computadores, e geralmente
está associado a tele-cursos (televisão), CBT's (Computer
Based Training ou treinamento baseado em computador) e
cursos por correpondência. Os instrutores devem necessariamente
receber feedback dos alunos. No contexto da Internet, a educação
à distância inclui video-conferências, transmissões ao vivo,
chats, grupos de discussões ou cursos por email.
Assim sendo, para os dois exemplos abaixo, temos que:
Jogos na WEB - os jogos educacionais em rede podem
ser considerados e-learning, mas somente serão WEB-based se
forem construídos de modo a depender da Internet. Sistema
para ensino de música ou finanças - trata-se de um aplicativo
com conteúdo específico para o aprendizado através da Internet.
Será considerado online, e-learning, WEB-based e à distância,
pois foi desenvolvido para uso através da rede Internet, requer
transmissão de material didático e interação (feedback) entre
instrutor e alunos.
A primeira e a segunda onda em EaD
Como qualquer nova tecnologia e os produtos e serviços originados
a partir dela, as ferramentas EaD também tiveram (e continuam
tendo) sua fase de experimentações. O advento da Internet
comercial, nos meados da década de 90 fez surgir uma série
de novidades tecnológicas, todas prometendo mudar os modelos
de negócios vigentes à época, incluindo-se ali as técnicas
de ensino e aprendizagem.
Muita criatividade, grandes idéias, experimentações, tentativas-e-erros,
culminando na maior parte dos casos por grandes doses de frustrações
e desapontamentos.
Atualmente delineia-se uma segunda onda em EaD, onde escolas,
universidades, empresas, alunos e professores encontram-se
em um estágio mais maduro sobre as potencialidades do ensino
e aprendizagem à distância, na utilização das tecnologias
disponíveis (e futuras) e no foco em sua efetividade, diretamente
relacionada ao tratamento do público-alvo e suas motivações,
bem como o tratamento do conteúdo e sua usabilidade.
Falta de planejamento e possíveis consequências em Sistemas
EaD
Observa-se frequentemente vários problemas de implementação
de sistemas EaD, dentre eles:
1. Pouca qualidade de conteúdo em detrimento do formato
2. Problemas de infra-estrutura e de tecnologia
3. Utilização inadequada de plataformas de software
4. Conteúdo inadequado ao propósito do curso e de seus objetivos
de aprendizado
5. Ausência de foco em técnicas de usabilidade
A primeira onda em EaD mencionada anteriormente, apresenta
pelo menos um dos cinco problemas acima e resultam de uma
visão onde os objetivos e a metodologia aplicada são de certo
modo impostas pela instituição proponente.
Refletem ainda o fato de que os designers dos cursos EaD não
estão comprometidos com a aprendizagem do aluno, mas sim com
o formato tecnológico de sua plataforma. Indo de um extremo
a outro, muitas "pirotecnias" e animações gráficas ou simplesmente
textos aborrecidos literalmente "colados" na tela do computador.
Público alvo e efetividade em Sistemas EaD
O sucesso de uma aplicação EaD está diretamente vinculado
ao público alvo e aos objetivos de ensino e aprendizagem.
Um curso efetivo deve aprimorar a base de conhecimento de
um aluno, alterar seu comportamento ou ainda ser uma conjunção
de ambos.
Sob este prisma, o fator de motivação ao uso do sistema deve
ser uma das etapas mais importantes na criação e desenvolvimento
de uma plataforma de EaD. Podemos então dizer que o design
e a apresentação de um curso EaD deve estar estritamente vinculado
aos objetivos de aprendizagem dos alunos.
Estes objetivos são muito difíceis de serem atingidos, uma
vez que os alunos de um curso EaD utilizam tal ferramenta
para diferentes propósitos pessoais e profissionais.
Chegamos então ao campo da efetividade. Como saber se a experiência
do aprendizado é efetiva em EaD?
Efetividade em Ead implica, conforme mencionado, na mudança
de atitudes, pensamento e comportamento do aluno.
Após a entrega eletrônica do conteúdo, como comprovar se houveram
mudanças em seu comportamento?
O método a ser utilizado para a transmissão das informações,
seja por apresentações do tipo "slide show", seja por utilização
de áudio e vídeo (streaming ou download), acesso a tutoriais
e lições, jogos, modelos de simulações, chats com o professor,
fóruns de discussões, etc, devem possibilitar a criação desta
experiência do aprendizado.
Ainda, os mecanismos de acompanhamento do progresso do aluno,
a serem implementados na estrutura da plataforma EaD devem
apontar nesta direção, utilizando-se recursos tais como testes
de certificação, chat privado aluno/professor, feedback do
aluno, discussões em grupo e lições individuais.
Os dois lados: aluno e professor
Professores e alunos são pessoas reais ocultos por ID's,
login e senha. As dúvidas dos alunos são respondidas manualmente
e não por softwares automatizados. Parte da responsabilidade
do professor é garantir o suporte ao aprendizado.
No entanto, no campo de EaD, o professor passa a ter um papel
de tutor, atuando como consultor, guia, provedor de recursos
(e conhecimentos), diretor social, gerente do conteúdo e responsável
técnico.
Os alunos esperam um alto grau de acessibilidade do professor,
para auxiliar em suas dúvidas. Por outro lado, deve ter bastante
disciplina durante o aprendizado.
Um sistema EaD implica em focalizar o aluno. Portanto, motivá-lo
passa a ser um fator crítico de sucesso. A experiência do
aprendizado passa necessariamente por sua capacidade em receber
as informações e não as respostas, construindo seu conhecimento
a partir delas.
O professor deve portanto:
1. Transmitir informações
2. Sugerir idéias e estratégias de aprendizado
3. Auxiliar o aluno na conexão do conteúdo do curso com seu
conhecimento prévio
4. Gerenciar métodos, procedimentos e tarefas
5. Auxiliar em dúvidas técnicas quanto ao sistema EaD utilizado
6. Incentivar o aprendizado colaborativo e a socialização
dos alunos
7. Receber o feedback dos alunos e implementar melhorias
Sistemas EaD em blocos
O desenvolvimento de uma plataforma EaD é geralmente dispendioso
e de longo prazo.
As instituições de mercado têm trabalhado no conceito de padrões
no desenvolvimento de softwares de EaD, denominados internacionalmente
SCORM (Shareable Courseware Object Reference Model),
que é basicamente uma plataforma de desenvolvimento de software
cujos blocos de aprendizagem (ou LO - Learnig Objects)
podem ser reutilizados para diversos cursos a serem ministrados
a partir daquela plataforma genérica de EaD.
Assim sendo, um sistema EaD pode ser pensado para funcionar
em blocos que se unem para gerar um conteúdo adequado às necessidades
de um determinado curso.
A construção do conhecimento será efetivada através da adição
de novos blocos, que representam um novo conteúdo - como capítulos
de um livro - a serem incluídos no sistema.
Esta construção lógica deve ser pensada em termos de design
e programação, bem como da própria dinâmica do ensino, possibilitando
ao sistema EaD crescer em termos de informação, sem altos
reinvestimentos no mesmo e com prazos de execução compatíveis.
Sistema de Gerenciamento de Conteúdo (SGC) em plataformas
EaD
Costuma-se dizer que o conteúdo é soberano, tornando-se a
peça principal para o sucesso de ensino à distância para um
público-alvo definido.
No entanto, o sistema de gerenciamento e publicação de conteúdo
é o responsável por apresentar ao aluno textos, imagens e
sons que possibilitem uma experiência motivadora durante o
aprendizado.
O sistema SGC (ou LMS - Learning Management System)
deve ser desenvolvido para possibilitar:
1. Rápida publicação e edição de conteúdo
2. Ser interativo, de modo a possibilitar experiências motivadoras
no aluno
3. Possuir vários templates de estilos, para que o sistema
seja constantemente renovado
4. Regras automatizadas de navegação e geração de templates
5. Organizar o conteúdo em diferentes níveis hierárquicos,
como módulos, capítulos e lições
Áreas de aplicação de um sistema EaD
O ensino à distância pode ser aplicado a praticamente todas
as áreas do conhecimento humano. Entretanto, em algumas destas
áreas o sistema EaD deverá ser um complemento às atividades
presenciais e práticas.
Tome-se o exemplo da medicina. Atualmente pode-se implementar
uma video-conferência na qual o instrutor está em uma ambiente
físico distinto, procedendo ou simulando uma operação através
de instrumentos cirúrgicos robotizados, tendo como alunos
médicos-assistentes. Porém, a medicina, assim como a área
de saúde em geral, exige um grande conhecimento teórico associado
a uma grande habilidade manual (prática).
Neste sentido, sistemas EaD resultam em ótimas estratégias
complementares ao processo de ensino-aprendizagem presencial.
Por outro lado, o ensino de funções matemáticas em calculadoras
científicas, história da arte, línguas, ensino corporativo,
etc, pode utilizar-se largamente de plataformas EaD.
O ponto de equilíbrio entre educação presencial e à distância
deve ser discutido pela instituição proponente, de acordo
com os objetivos de seu público alvo.
Conclusão
Os sistemas de educação à distância representam um passo importante
para a transmissão de conhecimento e são um forte aliado para
instituições, professores e alunos no processo de ensino e
aprendizagem.
As tecnologias envolvidas caminham para uma maior facilidade
de uso (user friendly), o acesso às informações, no
que se refere à infra-estrutura, apresenta uma tendência de
melhoria e crescimento com o barateamento da Internet em
banda-larga e a conseqüente democratização dos processos
será inevitável, possibilitando-se assim o processo de aprendizagem
sem fronteiras geográficas, sem barreiras culturais e com
tempo de execução definido pelo usuário.
O centro das discussões não deve ser qual o nível de influência
de cada uma das dimensões envolvidas nos processos de EaD
- tecnologia, acesso, conteúdo, padrões de desenvolvimento
de software. A principal discussão deve ser como tais dimensões
podem trabalhar em sinergia para propiciar uma excepcional
experiência de aprendizagem nos alunos e, num movimento em
forma espiral, nos sistemas EaD, professores e instituições,
caracterizando um círculo contínuo de melhoria do processo
de ensino-aprendizagem.
Terminologias utilizadas
1. Tecnologia IP - protocolo de comunicação
para ambiente Internet.
2. Web browser - aplicativo de software que possibilita a
visualização de páginas Internet. Os mais comuns são Internet
Explorer e Netscape.
3. ID, Login, Senha - Um ID é um identificador (em geral um
número sequencial gerado pelo sistema) do usuário, que deverá
adicionalmente digitar seu login e senha personalizados para
utilização segura do sistema EaD em um ambiente Internet.
4. Acesso em banda larga - acesso é o procedimento de conexão
à Internet. Um exemplo de acesso é a conexão via linha telefônica,
através de um modem. Outro modo possível é a conexão em banda
larga, através de ADSL.
5. ADSL (Asymmetric Digital Subscriber Line) - serviço digital
por assinatura cuja conexão trabalha com uma maior banda de
dados para transmissão e recepção de informações.
6. Download e streaming audio / video - processos de descarregamento
de arquivos de audio e video para o usuário. No modo download,
o arquivo necessita primeiramente ser descarregado no computador
do usuário para depois ser executado. No modo streaming, os
arquivos são executados em tempo real, diretamente a partir
do servidor Web onde o site está hospedado.
7. Chat - aplicativo de conversação (de fato, escrita) em
tempo real via Internet.
8. Templates de estilo - templates são os modelos gráficos
de visualização em um web site na Internet. Cada área de navegação
de um site pode assim ter uma aparência em termos de botões
de acesso, cores, áreas do conteúdo, etc, que juntas formam
o template.
9. User-friendly - aplicações orientadas à facilidade de uso
por parte do usuário.
Bibliografia
1. Lori Mortimer - The Devil is in the Details:
Converting Classroom Courses to E-Learning
2.
Joan Flynn Fee, Ph.D. - Go Slow with e-Learning: Are You Kidding?
3.
Michael Feldstein - Developing Your e-Learning for Your Learners
4.
Ed Hootstein - Wearing Four Pairs of Shoes: The Roles of E-Learning
Facilitators
5.
Amy Finn - Trends in E-Learning
6.
Soren Kaplan - Building Communities--Strategies for Collaborative
Learning
7.
Debbie Folaron - Taking an E-Learning Project Across Borders
8.
http://europa.eu.int/comm/education/programmes/elearning/index_en.html
9.
www.learningcircuits.com
10.
www.elearnmag.org
11.
www.e-learningcentre.co.uk
12.
http://www.unesco.org/education/portal/e_learning/index.shtml
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