Apresentação

Já foi dito que o jornalismo — o palco onde se desenrola a polêmica central deste livro — é um delicioso passeio pela superfície das coisas. De fato, cabe-lhe proceder a um inventário dos acontecimentos em geral. Entretanto, ao fazê-lo, o jornalismo produz, também, um registro mais ou menos minucioso dos diferentes interesses e mentalidades que permeiam a sociedade enfocada num determinado momento.

Às ciências sociais, por sua vez, cabe reunir, sistematizar e problematizar todo esse material — que constitui parte do seu campo de trabalho —, buscando produzir uma reflexão sobre como os indivíduos e os grupos sociais organizam e classificam suas experiências enquanto seres sociais.
São tarefas distintas, mas contíguas, por assim dizer. Normalmente, são desempenhadas por profissionais diferentes, cada um com uma formação específica e com propósitos diversos. Aqui, no entanto, encontramos o fotógrafo, com sua experiência de repórter-fotográfico, que se junta com o antropólogo para transformar aquele delicioso passeio pela superfície em uma apaixonante viagem pelas profundezas do mundo do candomblé, das suas dimensões sagrada, mediática e ética.

A partir da própria polêmica gerada pela sua exposição jornalística, são apresentados e analisados os preconceitos que o candomblé despertava naquela época no Brasil e no exterior, como também os interesses menores dos seus adeptos ao lado de toda a sua dimensão humana e força social. Bastam os títulos das reportagens em questão para se ter uma idéia da problemática que essa polêmica pôs em evidência. De um lado, a revista francesa Paris Match publica “Les possédées de Bahia”, reportagem marcada pelo sensacionalismo do exótico. De outro, ferida em seus brios de líder inconteste do mercado editorial brasileiro e exemplo mais bem sucedido das revistas ilustradas na América Latina, O Cruzeiro contra-ataca com “As noivas dos deuses sanguinários”, levando ao extremo o equívoco e o preconceito que marcavam a primeira reportagem.

A revista O Cruzeiro tinha um impacto na sociedade brasileira de norte a sul somente comparável ao das grandes cadeias de televisão de hoje. A sua reportagem, mais do que a da revista francesa, mexeu profundamente com a representação do candomblé enquanto culto religioso e agitou perigosamente seus seguidores, principalmente em Salvador. E como ficaram os adeptos nessa polêmica? Como se produziram essas reportagens, que interesses representavam, dentro e fora dos terreiros de culto? Quem eram os protagonistas, e por que colaboraram com essas reportagens? Eis algumas das perguntas que este livro responde, e aí reside um dos seus méritos.

Fernando de Tacca levantou as fontes originais dos jornais da época e foi procurar os seus protagonistas, diretos e indiretos, no próprio Bairro da Plataforma. Ouviu quem carregava ainda as lembranças da polêmica pelo seu lado de dentro, como Sissi, da Fundação Pierre Verger, e Mãe Cutu, da Casa Branca. Encontrou as mesmas imagens que foram sentidas como pejorativas agora habitando o universo das iaôs, ressignificadas em álbuns familiares. Aqui aparece, de volta, a personagem central de Mãe Riso, mãe-de-santo da periferia, de tradição banto, que foi duramente rechaçada pelo candomblé, mas que teve uma vida inteira dedicada somente a essa religião. Sua história de vida, por si só, enriquece enormemente a releitura desses fatos. Essa polêmica, naturalmente, envolveu a intelectualidade da época e aqui estão, também, Pierre Verger, Édison Carneiro, Paulo Duarte, Alberto Cavalcanti, Leão Gondim, Accioly Netto, Odorico Tavares e Roger Bastide (inclusive com o artigo específico sobre a revista O Cruzeiro, excluído dos seus compêndios), entre outros.

Imagens do sagrado — Entre Paris Match e O Cruzeiro nos traz, ainda, uma significativa contribuição para a construção de uma metodologia de trabalho que alia técnicas de reportagem jornalística às melhores práticas de pesquisa de campo da antropologia. Partindo de um conflito de interesses e disputas jornalísticas que abrangeram tanto questões éticas quanto comerciais, Fernando de Tacca colocou na boca da cena, com status de atores principais, personagens que até então funcionavam apenas como objetos de curiosidade. De seres exóticos, esses personagens e, através deles, o próprio culto passaram a sujeitos e interlocutores graças às entrevistas e, sobretudo, à leitura acurada das imagens publicadas.

MILTON GURAN

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