Este texto é parte integrante de um projeto de pesquisa desenvolvido em 1997 por Luiz Rodrigues Monteiro Júnior sobre a história dos palhaços brasileiros, através de Bolsa de Pesquisa do Prêmio Estímulo "Memória da Atividade Circense no Brasil", e publicado pelo DACH – Departamento de Artes e Ciências Humanas da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

O MESTRE BRASIL JOSÉ CARLOS QUEIROLO: PALHAÇO TORRESMO

Nasceu em Espírito Santo do Pinhal, no dia 04 de abril de 1918, quando o circo Irmãos Queirolo, de propriedade de seu pai e tios, itinerava pelo o interior do Estado de São Paulo. Filho único de Jose Carlos Queirolo, Palhaço Chicharrão e de Dona Graciana Cassano Queirolo, atriz. Ele uruguaio e ela Argentina. Desde a mais tenra idade (3 anos), tomou parte nos atos de seu pai, com o  nome de Chicharrãozinho, a sua infância e adolescência estudou, inicialmente no colégio Caetano de Campos e depois no Colégio Ginásio Ipiranga. Juntamente com seu pai e sua mãe, excursionou por todo o Brasil e alguns países estrangeiros.

Foi cantor de tangos e melodias mexicanas, compositor e poeta. Após formar-se em 1938, seguiu com seus pais para excursionarem com o “Circo Cine Mundial”, uma mistura de circo e cinema, pelo o Estado de São Paulo, permanecendo nessa excursão por 10 anos.

Torresmo toca saxofone, marimba, violino. “Eu sou um artista de verdade e hoje ninguém quer pagar artistas de verdade. Mas as crianças gostam de nós, dos verdadeiros palhaços. A cada risada delas, quando me vêem, tenho certeza disso”.*

* Jornal Folha de São Paulo. 1975

 Aos domingos, ele sempre repete a mesma frase: “Assim não agüento” e a criançada grita: “Guentaaaaá”.

Torresmo foi um bebê bonito e rechonchudo, cantava tangos lindamente aos 7 anos, e tem, aos 69 anos, a disposição de 50 anos. Foi equilibrista, trapezista, malabarista, aramista e domador de muitos bichos.

Torresmo estreou seu palhaço, em Juiz de Fora, juntamente com seu pai e seu tio, o Palhaço Harres. Torresmo fazia parte de uma cena cômica dos dois; dentro do roteiro, tinha uma mala e os dois falavam de pegar a mala, daí surgia um palhaço bravo de dentro da mala. Era o Torresmo, com os olhos azuis e corpo esbelto. Antes de ser Torresmo, foi Bombonzinho, Berimbau, Fubeca e Catatau.

Torresmo, afirma ser uma pessoa bem-humorada e que pretende chegar até o ano 2000. Vaidoso, confessa que já pensou em dar uma retocada no rosto, mas o filho Pururuca, não gostou da idéia. Esta casado há 43 anos com Otília. Além de Pururuca, tem um filha, Gladismary, cinco netos e dois bisnetos. Lembranças têm muitas, mas prefere não viver de recordações. Aos domingos, quando se veste de Torresmo e anima o pequeno circo, montado junto ao restaurante, na Serra da Cantareira, a criançada morre de rir, quase caindo das cadeiras.

Em 1943, o Brasil estava na 2ª Guerra Mundial e eles foram para o Rio de Janeiro, a chamado do Revistógrafo Jardel Jercolis, onde na sua Companhia de Revista, no Teatro Recreio, ocupou o lugar de 1º Ator Cômico. Voltando ao interior de São Paulo, em 1944, casou-se na cidade de Ibirarema, com Otília Piedade, nascendo uma filha Gladismary eum filho: Brasil José Carlos. Foi locutor das rádios de Adamantina e Lucélia, de 1948 a 1949.

Trabalhou no Circo Alcebíades, do pai de Fuzarca, amigo e dupla cômica. Realizou apresentações no circo dos famosos palhaços: Piolim e Arrelia. Entre os circos que se destacou, constam: Norte-Americano e os Irmãos Queirolo, situados na cidade de Curitiba. A Família Queirolo, também marcou época no sul do país, através do famoso Palhaço Chic-Chic, Otelo Queirolo e seus filhos artistas.

Torresmo fixou residência em São Paulo, no bairro de Mandaqui. Em 1950, tendo conhecimento da Tv, acreditou no sucesso desse meio de comunicação. Participou do programa de Luiz Gonzaga, no Cine-Teatro Odeon e foram vistos pelo “olheiro” da TV Tupi, canal 3, no programa do artista Humberto Simões (famoso ventríloquo brasileiro). Humberto  apresentou Torresmo ao diretor Cassiano Gabus Mendes – 1º diretor de TV no Brasil. No dia 12 de outubro de 1950, dia das Crianças, Torresmo estreou no canal 3, TV Tupi Difusora, às 20:00hs, desde então, dedicou-se a programas infantis, na TV brasileira, tendo atuado em todos os canais da TV de São Paulo, nos mais variados programas: Calouros Mepacolan, Gurilândia, com o famoso artista Homero Silva; Zás-Trás, na Globo; Recreio do Torresmo, no canal 2; Torresmolândia, no canal 9, TV Excelsior; Tic-Tac e Pururuca , na TV bandeirantes; Gincana Kibon, na TV Record e muitos outros no período de 1950 a 1964. Aposentou-se da TV e, “agora só faço free-lance e se o cachê interessar”, diz ele. A dupla Torresmo-Fuzarca fez um sucesso na TV brasileira. Através de seus espíritos revolucionários, na figura de seus palhaços, mostraram para o Brasil o circo, suas origens, suas tradições e seus símbolos poéticos.

O Sr. Brasil José Carlos Queirolo – Palhaço Torresmo, foi funcionário da Delegacia do Tesouro Nacional, durante 14 anos. No ano de 1960, decidiu trabalhar somente com a atividade circense. No programa “O Grande Circo”, junto com Pururuca – seu filho, Chupeta, Chupetinha, Pimentinha e outros excêntricos, desenvolveu um trabalho que marcou a presença do circo na televisão brasileira (TV Bandeirantes), no ano de 1973 a 1982. Foi feito um vídeo, lançado em todo o Brasil com grande êxito.

Nos anos de 1983 a 1987, retirou-se para o seu sítio, em Mairiporã, para tratamento de saúde, sendo pequena sua atividade artistica. Nesse período, seu filho abriu um restaurante na Serra da Cantareira.

Torresmo fez diversas atividades para as crianças e adultos, no restaurante do seu filho. Recuperado da enfermidade, voltou para São Paulo e trabalhou no Programa Bombril, da TV Bandeirantes.

Torresmo foi considerado pela Câmara Municipal de São Paulo, como um ser em plena peregrinação artística e recebeu a Medalha Anchieta e um diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo. Em 1982, foi-lhe conferido o Título de Pinhalense Emérito, outorgado pela Câmara Municipal do Espírito Santo de Pinhal, onde nasceu.

Torresmo revive, aos domingos, a garotada. Sem pintura no rosto longe das roupas extravagantes e do sapato enorme, ele não é “Torresmo” – “Não consigo fazer palhaçadas, sem estar pintado e vestido, até ando diferente”, comenta.

Albano Pereira, companheiro de palhaçadas de Torresmo, faleceu no ano de 1964. Daí em diante, forma dupla com seu filho, o Brasil José Carlos Queirolo – “Pururuca”, ele com 15 anos de idade.

Possui inúmeros troféus e diplomas de agradecimentos, pelo seu trabalho para a comunidade brasileira e a TV Bandeirantes concedeu-lhe o Troféu Bandeirantes, Torresmo gravou 80 discos infantis e trabalhou 30 anos na TV. No ano de 1993, faleceu o Sr. Brasil José Carlos Queirolo – Palhaço Torresmo, na época tinha 76 anos de idade. Sua história continua viva através de seus filhos e netos.

Em depoimento prestado no 1º Encontro de Artistas Circenses da UNICAMP,  no ano de 1989, Torresmo fala:

Ao pisar pela primeira vez em um picadeiro, aos três anos, logo vi que seria um artista. Fui o primeiro Queirolo a nascer no Brasil, em Espírito Santo do Pinhal. De picadeiro em picadeiro, fui chamado de Fubeca, atuei com muitos palhaços e sempre fui atento as nomenclaturas de cada tipo. No mundo circense, há o palhaço que pinta o rosto de branco e sabe de tudo um pouco. É o Clown – o excêntrico que erra as palavras e faz trapalhadas. O outro é o Tony ou Suarê – este entra no picadeiro somente nos intervalos dos números do circo.

No Brasil, quem introduziu o palhaço tradicional, que usava o sapato grande, o nariz que brilhava e muito mais, além de ter sido o mestre do Palhaço Piolim, foi meu pai Chicharrão.

Graças a Deus, me aposentei bem e consegui com a televisão, o meu nome; o que meu pai  levou 10 anos para fazer, em nome do seu reconhecimento, eu fiz em 1 ano de TV. Pude mostrar a história das famílias circenses voltadas para a alegria.

Antigamente eram os palhaços que chamavam o público, eles eram a atração principal. Os de hoje não sabem nem se pintar sozinhos e se pintam com cara de engraçado, como dizia Fuzarca. Não passam nenhuma emoção para o público. Nós somos a tradição e a memória que o Brasil não tem. Os inovadores não acrescentaram nada (...)”

Com a morte de Fuzarca, em 1964, Torresmo passou a fazer dupla com seu filho, o Palhaço Pururuca e continuou entre o palco e a lona. Ele recordava o passado e guardava suas palhaçadas ou excentricidades, para teatros e residências.

“O picadeiro cansa muito, mas ainda estou preparando minha maquiagem para o ritual de transformação de Brasil Queirolo em Torresmo”.

Torresmo não se arrepende da vida dedicada a circo e vê, eterno, o futuro da lona. De tristeza, apenas de saber, que mesmo com veteranos palhaços, ensinando sua arte a TV pouco aprendeu do picadeiro. “Não me queixo da televisão, que me deu nome, mas ela não aproveitou nada do circo, em troca de efeitos e luzes”.

AS VONTADES DE TORRESMO

Torresmo, artista, segundo ele desde eu nasceu, está começando a transformar em realidade, um velho sonho: “Quero morrer debaixo de uma árvore, vendo as crianças brincarem”.

TORRESMOLANDIA: lugar que inventou, é uma espécie de conto de fadas para a criançada. Construiu uma casa de brinquedo – do seu tamanho: 1,50m e diz que já começou a colecionar bichos. Por enquanto, a Torresmolândia têm dois periquitos, vários canários da terra; mas numa dessas manhãs, amanheceu  fungando e ao por do sol, todos com lágrimas nos olho, participaram de um pequeno funeral.

O velho palhaço continua com a disposição de sempre. Diz que a Torresmolândia será bastante ampliada. Hoje ela já conta com um velho Ford 1915, que está mais novo do que um zero quilometro. No futuro, haverá locomotivas com vagões com altura não superior a 1,50m e no imenso parque que Torresmo imaginou, cada Estado do Brasil estará representado com suas danças, lendas e pratos típicos.

Na Torresmolândia, todos os sábados e domingos, às 15:00hs têm show especial. O importante é que tudo é de graça, fala Torresmo, com um sorriso de orelha à orelha, que deixa muito adulto envergonhado.

Brasil Jose Carlos Queirolo -  Palhaço Torresmo – faleceu em maio de 1992.

CARACTERIZAÇÃO DO PALHAÇO TORRESMO

Uma figura de tamanho excêntrico: 1,50m de altura usava uma casaca de retalhos coloridos e um laço, também colorido, sapatos grandes e um guarda-chuva completamente desmembrado e um sorriso que vai de ponta à ponta do seu rosto. A sua pintura bastante alegre revelava os traços do cômico excêntrico que estava presente na figura do Brasil José Carlos Queirolo e considerava-se um cômico do picadeiro tradicional.

página Palhaços Brasileiros página de Luiz Monteiro Jr. Instituto de Artes