Os sapatos de Etienne
Etienne Samain, o antropólogo da Unicamp que resgatou a cultura dos índios Urubu-Kaapor, como antes já o fizera com os Kamayurá do Alto Xingu, pois o muitíssimo bem casado Etienne, belga de nascimento, brasileiro de coração, saibam todos, já foi padre. E dizem que muito bom padre - ele não esconde isso - se é que havia maus padres na fria e chuvosa Louvaine naquele ano santo de 1964.
Escolho 1964 não porque marcou o clímax da interminável guerra lingüística entre flamengos e francófones, da qual Louvaine era uma espécie de epicentro. Mas porque, como regente encarregado do pessoal francês e latino que aportava no Collegium Sancti Spiritus, Etienne protagonizou nessa época uma história digna de figurar num conto de Charles Dickens.
Pelo Sancti Spiritus passavam padres do mundo inteiro, para atualizar conhecimentos ou para fortalecer sua fé. Assim foi que um dia chegou um hóspede raro, raríssimo - o arcebispo de um país comunista. Novo ainda, rosto bem talhado, o visitante trazia nos olhos inteligentes a sombra das sucessivas guerras e invasões que haviam sangrado seu país. De pelo menos uma ele havia participado, quando ainda era civil. Mas agora, mesmo sendo um ícone da resistência cristã num país dilacerado física e espiritualmente, ele era sobretudo um cavalheiro, um homem simples que andava de chapéu de pároco de aldeia e batina preta comum, dispensando os broqueis do arcebispado.
E que cabeça! Dirigia-se aos franceses em francês, aos alemães em alemão, aos italianos em italiano, aos americanos em inglês. Se sua permanência em Louvaine fosse mais longa, era certo que logo estaria falando também flamengo, para que não pairassem dúvidas sobre sua neutralidade no imbróglio lingüístico da região.
Como o quarto de Etienne ficava colado ao quarto do hóspede, não faltou oportunidade de manterem, mais de uma vez, boa e viva conversação. Fizeram ótima camaradagem. O visitante chegou a elogiar o modo convincente como Etienne celebrava a Eucaristia. Em outra ocasião assegurou-lhe que a "igreja do silêncio", abafada pelo comunismo, constituía na verdade o maior espetáculo de fé neste século. Tudo conversa simples e amistosa que Etienne ia transportando para um diário que mantinha nesse tempo - o testemunho de uma época em que ainda estava em paz com suas convicções.
No dia seguinte caiu um temporal. Olhando pela janela, Etienne viu o arcebispo caminhando na chuva. Voltava de um passeio e estava completamente encharcado, com lama dos pés às orelhas. Seus sapatos esguichavam água pelas laterais e tinham-se descolado na altura do bico. Sapatos de país comunista, pensou Etienne. Pouco depois Etienne viu-o entrar e, como que experimentando a extensão de sua fé, indagou dele:
- Pode me dizer qual o tamanho do seu pé?
- Quarenta e dois.
O arcebispo sorriu ao constatar que calçavam o mesmo número.
- Tem mais de um par de sapatos?
Etienne tinha três.
- Pode me emprestar um?
Com imenso prazer Etienne colocou à frente dele os dois pares sobressalentes para que o arcebispo escolhesse o que mais lhe agradasse. O polonês sentou-se na cama de Etienne e escolheu o mais novo, o de cadarços.
Depois disso o destino traçou caminhos diferentes para eles. Primeiro deu a Etienne um vicariato em Châtelineau, depois uma cadeira de professor no seminário de Tournai e, por fim, colocou coisas surpreendentes em seu caminho: o Brasil, a paixão pelos índios e o desligamento da Igreja. E também Godelieve, nome que em bom português significa "amada de Deus", sua alegre e boa esposa.
Nunca mais voltou a ver pessoalmente o arcebispo, embora ouvisse falar dele com freqüência cada vez maior, nos anos seguintes, pois estava se tornando uma pessoa proeminente. Em 1967 fizeram-no cardeal de Cracóvia e em 1981, numa rua de Roma, sofreu um atentado a tiros. Já não o chamavam pelo nome de antigamente, mas sim por um criptônimo escolhido no topo de uma história de 305 papas.
Já vai longe o tempo em que, na pele de Karol Woytila, João Paulo II parou em Louvaine por alguns dias e saiu de lá com um par de sapatos novos, os sapatos de Etienne. Agora que ele volta ao Brasil para uma nova contagem de seu rebanho, acho muito justo que Etienne vá vê-lo e, chovendo ou não, possa dirigir-se a ele com toda a liberdade que se deve aos bons camaradas:
- Pode me dizer, Santidade, qual é o tamanho do seu pé?
Vão achar que Etienne ficou louco. Mas Karol Woytila certamente vai se lembrar e entender. Nesse ponto, é bom esclarecer que, ao emprestar os sapatos ao futuro Papa, Etienne desobrigou-o inteiramente da devolução. Mas, mesmo assim, pode ser que Sua Santidade descalce os sapatos na hora e os devolva a Etienne, como uma retribuição tardia. Espera-se que sejam de boa qualidade.
(Eustáquio Gomes)
Para o aniversário dos 25 anos de Pontificado de João Paulo 2, em 16 de outubro de 2003, enviei-lhe esta mensagem:
Meu amigo, Karol Wojtyla. Era Lovaina em novembro de 1964.Você era arcebispo de Cracóvia. Passava por Lovaina e se hospedava no Colégio do Espírito Santo, rua de Namur, número 40. O seu quarto de hospede confinava com ao meu. Tínhamos conversado longamente no decorrer da semana de tua visita. Entre uma e outra sessão do Concílio de Vaticano 2, você tinha voltado com o desejo de rever alguns velhos amigos da universidade. Não era ainda teu amigo. Creio que, desde então, eu me tornei o suficiente. Na Bélgica, chovia. Chovia muito. Ao final de uma tarde, você voltou ao "Espírito Santo" e os seus sapatos eram como barcos cheios de água. Você me perguntou se podia lhe emprestar um par de sapatos. Por felicidade, calçava uns 42 e tinha um par que lhe lembrava a forma de duas gotas d'água. Você quis, depois, me devolver esses sapatos. Eu os ofereci a você e, além disso, deixei na tua mala os dois volumes do La Pensée Communiste que acabava de publicar o cônego Grégoire [da Universidade de Lovaina]. Dois livros que eram vendidos, por debaixo dos panos, na livraria universitária muito próxima. Você me convidou, depois, à Cracóvia. Nunca consegui chegar até lá. O visto me foi sempre recusado. Os tempos - é verdade - mudaram muito. Temos um e outro viajado, aliás, muito mais do que Ulisses. Chega, assim, a hora de nossos sapatos descansarem um pouco e de tomarmos o tempo, todo o tempo de olhá-los. Que o meu desejo, minha paz e minha amizade possam te chegar.
(Etienne Samain)
Não recebi ainda uma resposta. Pouco importa. Tenho a certeza de que, um dia, deveremos nos reencontrar. Será no paraíso? Penso que não.