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Diante
das “impurezas do branco”: um olhar para alguns desenhos de Lúcia Fonseca
E
tempo?
Por debaixo dessa matéria gráfica,
pictórica e plúmbica – o que habita? Qual o limite entre desenhar e apagar,
ou seja - quando cada camada matérica se faz, o que ela faz: reforça o peso
da imagem ou apaga o momento anterior? Como se desenho e apagamento fossem
dois lados do mesmo suporte. Até quando ele suportará essas ações que se
desdizem?
São questões que me enchem os olhos
quando vejo algumas composições de Lúcia Fonseca. Detenho-me aqui nas composições
menores, realizadas em folhas destacadas de cadernos no formato A3. Um caderno
íntegro pode ser lugar para uma narrativa; reforçamos essa suposta linearidade
temporal paginando, ou mantendo a encadernação. Trabalhando o desenvolvimento
de uma forma no espaço/tempo. No desfolhamento desses cadernos, perde-se
tal unidade e narrativa, mas seus vestígios permanecem em desenhos de folhas
duplas.
Em alguns dípticos, os orifícios
da espiral, um fio esguio de luz ou mesmo as bordas retas dos papeis, ao
mesmo tempo em que me dão noção de limite, são impotentes para conter o
extravasamento das nuvens. Talvez seguindo o espalhamento das aguadas, os
gestos insistentes das matérias duras ultrapassam esses obstáculos; um branco-expectativa
parece ser o que detém o movimento.
Principalmente nas duplas com a espiral
ausente, uma recombinação diferente das partes destacadas não é possível,
dando-me a impressão de que cada unidade foi feita quase que em emparelhamento
com a outra; são enantiomorfas entre si. Não que as duas partes sejam “similares”,
mas a velocidade de preenchimento de uma parte é quase simultânea a um olhar
de soslaio para a outra, ainda em branco. E essa é minha percepção - que
desde ali, num olhar que se bifurca, constrói-se uma narrativa: como
atravessar para o outro lado?
Como se o mesmo sujeito que desenha,
já pressentisse a força do espaço intocado. Um futuro ou um passado em branco,
depende da localização da mancha maior. Em um deles, especificamente, a
artista não “atravessa” para o outro lado. Ela dá um salto, e cai na extremidade
oposta do outro suporte. Cria-se então uma composição singular, em que sua
ação parece constituir-se em uma “moldura” para o espaço branco. Espaço
esse que é quase próximo, em área, à extensão do suporte em condição inicial.
Nesse sentido, a composição resultante
me faz perceber a opacidade do suporte. Em muitas das vezes, ao iniciarmos
um desenho, não observamos muito esse momento do suporte intocado; já vamos
projetando (em todos os sentidos) nossas informações sobre o plano. Essa
composição de Lúcia Fonseca me faz perceber aquele plano relativamente retangular
como forma em si, e não somente como “suporte”. Este é um dos momentos em
que percebo o “branco” como acontecimento, que dialoga com os procedimentos
propriamente gráficos. “Por outro lado”, no momento em que a interferência
da direita ocorre bem na extremidade, ela também me informa que poderia
haver um desenho “extra-campo”, algo para além da área trabalhada, como
um não-dito que resvalou para a mesa de trabalho, talvez.
Há outra combinação de espiral ausente,
em que quase todo o espaço foi ocupado pelas intervenções plúmbicas. Neste
desenho, chama-me a atenção o ritmo dos brancos – da direita para a esquerda,
o valor vai penetrando para o interior das formas, conversando em passagens
com outros tons intermediários, até rebater em um minúsculo ponto no centro
desta composição, que rebate no centro cavado, pleno de orifícios, espaço
de respiração para o enfrentamento da mancha maior, cujo ponto mais iluminado
é mais ou menos o rebatimento daquele ponto de luz.
Outras combinações, sem as marcas
da espiral, talvez fossem realizadas isoladamente. A “memória” de uma interferência
anterior poderia ser um dado a constituir um outro desenho; isso então promoveria
o díptico como um “reencontro” de possibilidades autônomas, que guardaram
certa familiaridade entre si. Nelas, também uma outra situação para o branco.
Todas essas composições lembram-me uma “maneira negra”, técnica de gravura
em que a condição da matriz é a escuridão; as formas de luz vão se delineando
pela pressão de um instrumento específico. São produzidas então formas de
grande riqueza tonal, do mais escuro ao mais claro, em uma textura aveludada.
Dessa maneira, alguns desenhos de
Lúcia Fonseca dão-me a sensação de que a condição inicial do suporte era
“escura”, mesmo que clara, fisicamente. Uma escuridão profunda, marcada
por vestígios de camadas e camadas de manchas, de hachuras aveludadas, de
escalas tonais, de um excesso de ações e de matérias, enfim, que enfrentam
momentos de luz silente. Iluminam o suficiente para apenas vislumbrarmos
formas reconhecíveis dentro daqueles blocos de noite.
Algo me diz que a poética desses
desenhos de Lúcia Fonseca relaciona-se ao enfrentamento do branco, de um
silêncio do suporte, silêncio, no entanto, que significa. Silêncio corporificado
pelo branco. Isto me lembra o dito de Mário Quintana: “antes de começar a escrever, eu olho, assustado,
para a página branca de susto”.
Há, pois,
o relato poético deste embate com o suporte intocado. Esta alvura adquire então uma carga
simbólica forte por conectar-se à condição angustiante que todo início possui.
E isto porque não basta deixar o suporte intacto, a poética seria justamente
como “reconstruir” esse branco, sendo nele mesmo, outra coisa. Reativá-lo
numa operação de ausência de ação gráfica ou mesmo de uma ação que, ao aproximar-se
dessa zona, estabelece o embate.
No entanto, há também um outro embate de fundo, pois, se o branco, o “candidus”, simbolizaria
a condição dos inícios, é possível marcá-lo como sendo o início do trabalho?
Quando realmente se origina? Ou ele – seja como breve suspiro de luz, como
descontinuidade do gesto ou como acontecimento emoldurado pela intervenção
plúmbica – atingir o branco seria a finalidade desses desenhos?
Há
um mistério nessas imagens.
Cláudia
França
artista
plástica
Campinas,
outubro de 2009.
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