VESTÍGIOS DO COTIDIANO

Pedaços de Mim #2
Impressões sobre voil.
dimensões variadas.

Pedaços de Mim # 1
Plotter adesivo sobre pvc e plotter de recorte com texto extraído do poema Heráclito de Jorge Luís Borges.
60 x 180 cm

 

OS LIMITES DO RESGATE

Uma das características mais elementares de toda manifestação artística é colocar o espectador frente ao imaginário, seja ele coletivo, quando são ressaltados traços comuns a um grupo determinado de pessoas, ou individual, revelando pontos intransferíveis devido a quase absoluta singularidade de cada indivíduo. Espera-se que após a experiência da fruição estética proporcionada por uma obra de arte, o sujeito em questão saia, se não melhor, pelo menos enriquecido pelos sentimentos suscitados. E é isso, em parte, o que diferencia um trabalho com qualidades inegáveis de outros cuja beleza fica apenas na pretensão do artista.

     A artista plástica Suzie Signori, com as obras denominadas “Pedaços de Mim”, busca, através do resgate de sua memória e a de seus antepassados, uma (re) aproximação com um real que não mais existe e, assim, a discussão do próprio real, do simbólico e do imaginário, tão caros à psicanálise lacaniana, faz-se presente nestas obras. E, por falar em psicanálise, não devemos esquecer que ela se configura como o terreno fértil por excelência do desejo, outra constante nesses trabalhos.

     A retenção de imagens familiares se dá ou através de slide sobre parede ou com impressões sobre voil branco. No slide, a cena de uma mãe que observa os dois filhos no quintal passaria despercebida não fosse o fato de a mãe assumir, com a ajuda de uma luminosidade inesperada, uma expressão de sacralidade, nos remetendo às lembranças de um período (perdido) de inocência, quando ainda não estávamos contaminados por um senso crítico e acreditávamos (acreditamos) que a felicidade era (foi) possível.

     As imagens impressas no voil, mais do que as outras, nos colocam frente a frente com o caráter fugidio do tempo. O próprio tecido, com sua transparência e maleabilidade, parece querer nos defrontar, o tempo todo, com o evanescente, com o que nos escapa, com aquilo que coloca em xeque a nossa ilusão de sujeitos centrados e donos do nosso destino.

     O desejo, aqui, se coloca como irrealizável uma vez que o que foi vivido não pode ser resgatado em sua inteireza. Ficaram as impressões de um tempo, a nostalgia de uma época relembrada com um misto de alegria e pesar. Mas será que a satisfação de qualquer desejo foi completa algum dia? Por que vivemos o tempo todo desejando? Por que o desejo é parte constituinte de todo sujeito? Simplesmente porque sempre falta algo e, toda vez que o desejo retorna, é essa falta que nos fisga.

     Em relação ao real que se procura resgatar em vão, é mister perguntar se alguma vez vivemos o real em toda sua intensidade. Não, porque o real não existe, o real é intangível, assim como tempo. O real, como concebemos, é interpretado o tempo todo, de maneiras diferentes por cada indivíduo e, por isso, nunca o atingimos integralmente. E é devido a essa constante interpretação, a essa contínua simbolização, que somos passíveis de representações imaginárias, que somos capazes, inclusive, de produzir e consumir arte.

     Suzie Signori nos presenteia na mostra, com a possibilidade para fruir, refletir, sentir, pensar, repensar, confrontar certezas, instigar, sangrar velhos conceitos.

Texto de Pedro Roberto da Silva

Jornalista e crítico, maio 2003

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