![]() |
|
UMA LUZ COM GOSTO DE TERRA Nos
dias 23 e 25 de Junho de 2005, foram realizadas, com muito sucesso,
as primeiras apresentações de "Gosto de Terra",
mais recente criação cênica do grupo Matula, o Núcleo
de Pesquisa do Teatro de Tábuas. A grande variedade dos afazeres, porém, permite que os membros da equipe possam atuar em muitas frentes, conforme suas aptidões e desejos. Foi assim que tive a honra de contribuir como iluminador no espetáculo "Gosto de Terra". Muita gente, no entanto, não tem noção de que cada espetáculo tem uma iluminação específica e que isto é resultado de um processo de pesquisa. Não há uma metodologia única, as características dos espetáculos são determinantes e cada iluminador tem seu jeito de conduzir a pesquisa. Aproveito esta oportunidade para apresentar um pouco deste processo de descoberta da luz de um espetáculo. No entanto, por mais que eu tente explicar, sempre ficarão questões em aberto, pois este processo não é tão racional quanto possa parecer neste texto. Uma primeira observação é que, em um espetáculo, nada do que está em cena deve ser aleatório. O discurso artístico das artes cênicas é um complexo conjunto de códigos e signos e quem os organiza, geralmente, é o diretor do espetáculo, neste caso uma diretora: Lara Rodrigues, com quem eu já havia trabalhado em outros espetáculos. Iluminador e diretor precisam "falar a mesma língua" para que a luz colabore com a coesão do discurso artístico. Quanto mais o iluminador acompanhar os ensaios e conversar com os artistas, melhor; é assim que ele mergulha neste universo criativo e colhe o tom da luz, as cores, os focos, os efeitos, o ritmo. Os personagens de "Gosto de Terra" são sertanejos de um passado não muito distante. Assistindo aos ensaios, achei que o "clima" do trabalho alternava entre frio e seco: o frio da solidão humana e o seco da terra e dos homens e mulheres brotados daquele chão. No entanto, quando estes personagens festejavam, dançando o cavalo marinho, o sertão parecia florescer e o passado me convidava para participar da festa, dentro da cena. Era como se o festejo aproximasse os tempos, unindo-me aos artistas e aos personagens, todos nós comemorando a vida. Esta impressão foi minha primeira coordenada para a criação da luz. Nos ensaios, reconheci o "clima" geral do espetáculo e as ações que, a meu ver, deveriam ser recortadas da cena geral por uma luz mais intensa, um foco. Poeticamente,
eu queria escolher cores que remetessem a uma terra seca e a um céu
frio, de tal forma que a fusão entre frio e seco resultasse no
calor da festa. Vocês já ouviram falar em cores quentes
e cores frias? O azul, por exemplo, é uma cor fria, o vermelho
uma cor quente. Pois bem eu queria misturar uma cor fria com uma cor
seca (difícil definir cor seca, mas seria algo como uma cor quente
pouco vibrante) para encontrar um tom de branco que, unindo o frio e
o seco, ajudasse o festejo da terra. Depois de algum tempo, cheguei às cores desejadas, mas elas tiravam a vibração das cenas, tinham pouco brilho. Faltava, portanto, uma luz que destacasse os personagens e as cenas. Esta luz é chamada de contra-luz, uma vez que não tem o objetivo de iluminar a frente da cena, mas sim produzir um contraste com a luz frontal, iluminando as costas dos personagens. A definição destas cores (após novas tentativas) completou esta etapa. Mas isto não era o fim do trabalho. As cores e os focos já haviam sido descobertos, no entanto, ainda faltava definir o formato de cada foco. Podemos ter focos com muitas formas geométricas: quadrados, redondos, ovais, triangulares etc. Além disto, eles podem ser grandes ou pequenos e podem vir de diversas posições, formando ângulos variados. Conforme a luz é posicionada, produz-se uma sensação diferente em relação à cena. Esta definição precisa ser confirmada durante os ensaios, pois só a imaginação não basta, uma vez que a luz imaginada pode resultar em efeitos indesejáveis. Neste momento, o acaso também colabora, foi assim que percebemos a necessidade, por exemplo, de pequenos raios de luz entrando no cenário e iluminando os objetos da casa, como se fossem raios de sol que penetravam por frestas da parede e do teto. Este efeito delimitava, discretamente, o dentro e o fora da casa. Faltava ainda completar a integração da iluminação com o discurso do espetáculo. Percebi que o tema central do trabalho era a desarmonia humana, os conflitos pessoais e a solidão. A diretora e os atores tinham opinião semelhante. Percebi também que, apenas no momento da festa, a harmonia se fazia presente em sua totalidade. Considerei que este seria o ponto no qual a iluminação contribuiria mais fortemente com o andamento do espetáculo. Assim, as cenas estariam sempre manchadas por sombras, por cores, como em um jogo de claros e escuros. A festa seria o elemento que harmonizaria o ambiente, tudo explodindo em luz e acalmando, momentaneamente, os conflitos externados na dança. Esta idéia foi decisiva para o ritmo e a intensidade das mudanças de luz. Feito isto, restava o trabalho braçal: colocar refletores, fazer ligações elétricas, subir escadas, colocar a luz no lugar certo, ensaiar o acender e o apagar dos refletores, etc. Mas isto é outra história. É certo que, com o decorrer das apresentações, o espetáculo irá encontrando novas possibilidades e isto vai refletir, certamente, no projeto de iluminação, afinal este é um trabalho que nunca está acabado e que depende profundamente da sensibilidade de quem o está fazendo. Para encerrar, eu gostaria de comentar que, assistindo ao espetáculo, você pode ter outras idéias, diferentes das que eu apresentei aqui. Não existe uma forma certa e definitiva, sempre é possível fazer diferente e melhor. Acho que o grande prazer do trabalho com arte é experimentar o gosto. E são tantos os gostos que a terra tem!
Obs*:
Texto originalmente publicado na revista "Contra Regra" no.
21 - agosto/2005- publicação do Núcleo
Experimental Teatro de Tábuas
Amauri
Araújo Antunes
Bacharel em Teatro pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP |