luisa paraguai donati
design e criação,
doutoranda no departamento de multimeios,
instituto de artes, unicamp




edson giordani
músico e programador de sistemas de informação,
centro de informática aplicada
às artes prof. paulo de laurentiz,
instituto de artes, unicamp
Website "Intervalo"

Este trabalho poéticamente relaciona a compreensão da presença mediada pela percepção destes 'espaços interpessoais'; o que significa compreender a forma como vêm sendo elaborados, usados, incorporados, e recentemente extendidos pela intervenção de dispositivos tecnológicos. Segundo Hall (1966) existem três tipos básicos de espaço: "… the first is fixed-feature space, which consists of unmovable objects such as walls and rooms in conventional buildings. The second is semi-fixed features; moveable 'objects' such as furniture. The third is informal space that is an individual's personal territory around his/her body."

Em toda comunicação face-a-face o corpo pode ser compreendido como uma interface na qual as pessoas criam 'zonas corpóreas' - diferentes contornos e limites, elaboradas através de comportamentos sutis e específicos para atuarem em distintas situações de interação, íntimas, informais, profissionais, sociais. Pode-se entender estas 'dimensões espaciais corpóreas', territórios não físicos, como interfaces que constantemente se atualizam ao longo da comunicação enquanto movimentos de expansão e contração. Em outras palavras, as pessoas ao criarem estes 'espaços corpóreos' enquanto formas de 'acessar e serem acessados' por outros, constroem filtros e formas de mediação dinâmicas com o mundo - pessoas, objetos, eventos. Estas interações não são reações passíveis entre o ser e o ambiente, mas uma maneira de organizar as relações entre indivíduos, na medida em que a resposta determina por si só significado ao estímulo.

As pessoas usualmente ao estabelecerem esses limites configuram um 'espaço interpessoal' [1], uma 'invisível bolha' determinada por 'confortáveis' distâncias, para interações pessoais e sociais. Este espaço é fundamentalmente relacional, cada indivíduo está constantemente (re)definindo e (re)criando suas distâncias pessoais de engajamento e interação conforme o contexto e pessoas envolvidas. Conforme Boss (1994), "Human bodyhood is always the bodying forth of the ways of being in which we are dwelling and which constitute our existence at any given moment". É possível assumir então que estes 'espaços relacionais' e 'contornos territoriais' diretamente influenciam os indivíduos, seus procedimentos, comportamentos, rituais, e a forma como percebem a si próprios e o mundo.

O website '@interval' poeticamente (re)constrói estes 'intervalos espaciais', não apenas territórios a serem ocupados e defendidos mas uma série de distâncias que elaboram e definem as interações entre os indivíduos. As imagens e sons usados foram captados nas ruas da cidade de Plymouth, UK, e revelam a percepção da autora diante da convivência local de distintas referências de comportamento e comunicação não-verbais.

As pessoas circulam nas ruas da cidade em trajetórias paralelas, que sugerem um fluxo de 'existências' sem qualquer relação; um caos determinado pela congruência espacial de diferentes corporalidades. A proximidade física entre os transeuntes poderia sugerir uma aparente interação e cumplicidade, mas revela no entanto 'não-presenças'. Esta justaposição de sincrônicas existências físicas contrapõe-se por uma 'ausência' de qualquer forma de engajamento ou envolvimento e revela diferentes 'layers de intenções'. Andando nas ruas é possível algumas vezes ter acesso à estas 'outras dimensões' - 'presenças' que se constroem, por instantes apenas, com frases entrecortadas que chegam sem sentido. Alguns sons, risadas, suspiros, palavras, nomes, chegam tão próximos que se poderia até tocá-los... mas esta conexão rapidamente se desfaz sem promover qualquer contato.

As imagens usadas procuram revelar a existência de um espaço, uma permanente distância entre as pessoas, entre corpos que por mais perto pareçam estar jamais se tocam. A proximidade de alguém às vezes desfigura e nada revela sobre a pessoa. Na busca de elementos para a construção de uma memória da passagem das pessoas ficaram as sombras, e reflexos nas vitrines das lojas - dimensões virtuais da presença física.

Este trabalho foi elaborado para Web e envolve uma reflexiva intertextualidade quando se vale da linguagem Java Script e HTML para criar distintos layers e formalizar diferentes espaços de ações e códigos de comportamentos. Conforme Pearson & Simpson (2001) "… Applied to audio-visual practice, reflexivity refers to the capacity of film and television texts to draw attention to their existence as constructs. It is the process by which texts foreground their authorship and production, acknowledging their status as representation." Dentro deste esquema de reflexividade audio-visual este trabalho propõe o uso de diversas janelas com conteúdos imagéticos elaborados por uma série de estratégias de descontinuidades espaciais, fraturas, 'gaps'e fissuras, repetições e interrupções. O conceito espacial da Web é conscientemente enfatizado ao criar frame dentro de frame, janela dentro de janela.

A utilização de várias janelas justapostas e sobrepostas, com diferentes tamanhos e disposições, elabora a tentativa insistente de mapear e reconhecer a interface que delimita 'localmente' a atuação do usuário Web: a tela; e a partir desta experiência sistemática compreender como é o seu espaço de atuação. Metafóricamente, a recorrência exaustiva de diferentes janelas temporárias revela a transitoriedade e fragilidade das 'presenças' de transeuntes na cidade, enquanto conexões que não se estabelecem. Como diz Alberto Giacometti (citado em Hohl, 1971) "... because a person passing by on the street has no weight; in any case he's much lighter than the same person when he's dead or fainted." Esta transitoriedade também se refere ao processo de elaboração e manipulação de paralelas 'identidades' nas comunidades virtuais; um exercício de compor outras 'faces' e incorporar outros corpos e dimensões físicas.

O site foi elaborado pela construção de uma série de pequenas seqüências, individualmente desenvolvidas como núcleos que produzissem sentido. Um programa principal vem sendo implementado para administrar dinâmicamente a seqüência a ser iniciada e consequente tempo de abertura das respectivas janelas e seqüências seguintes. Este tempo é determinado pela leitura individual do usuário e depende do número de hits produzidos por ele a cada página. Assim, cada usuário poderá ter diferentes leituras temporais do site ao imprimir a cada momento uma nova dinâmica para abertura das janelas.

A intenção neste trabalho não é discutir a afirmação destas distâncias enquanto relações determinadas por diferenças culturais, conforme descreve o autor Edward Hall, mas compreender o conceito deste 'espaço interpessoal' enquanto 'dimensões espaciais' a serem moduladas por experiências presenciais mediadas - interações dinâmicas estabelecidas por relações de envolvimento e engajamento, no contexto da Web.

Notas
[1] Edward Hall introduziu o termo "proxemics" para designar as observações interrelacionadas e teorias sobre o uso do espaço do homem, enquanto uma elaboração especializada da cultura. Ele determinou os limites das zonas proxêmicas categorizando quatro áreas distintas para este 'espaço informal': íntimo (distância entre 15 e 46cm que habilita abraços e sussurros), pessoal (distância entre 0,5 e 1,2m que permite o diálogo entre bons amigos), social (distância entre 1,2 e 3,6m que permite o diálogo entre colegas não muito próximos) e pública (distância entre 3,6m e maior usada para discursos públicos).



i n t e r v a l o