A ERUDIÇÃO AFRO-BRASILEIRA EM ARTE E EDUCAÇÃO

 

Publicado no Jornal "A Tarde", 14/9/1996, p. 2 e 3, Salvador, Bahia, por Marco Aurélio Luz.

 Este artigo enfoca a intersecção dos trabalhos de Mestre Didi e Inaicyra Falcão dos Santos

 

Em 1937, a convite de Edison Carneiro, Mãe Aninha, Sra. Eugênia Anna dos Santos, Iyalorixá Oba Biyi e o Sr. Martiniano do Bonfim, Ojé L’ade; participam do II Congresso Afro-Brasileiro em Salvador, e inauguram com suas comunicações um caminho de afirmação da tradição erudita africano-brasileira no âmbito da chamada sociedade oficial. Desde então muitos frutos resultaram desta participação, especialmente o processo de recriação da linguagem sagrada da tradição desenvolvido por Deóscoredes M. dos Santos, Mestre Didi Axipá, Alapini, considerado o neto de Mãe Aninha.

Mestre Didi, Alapini, sacerdorte supremo do culto dos ancestrais Egungun, através de sua atuação como artista e escritor, desenvolveu o processo de desdobramentos da erudição da tradição nagô estabelecendo novas linguagens estéticas no campo das esculturas e da literatura e também da historiografia.

Como artista, Mestre Didi obtém este ano um merecido reconhecimento, convidado pela 23ª Bienal de São Paulo, realizará uma amostra de 33 peças em sala especial ao lado de outras salas especiais do circuito das artes plásticas internacionais como Picasso, Goya, Andy Wahrol, Paul Klee, Edward Munch, Tomie Ohtake e Louise de Bourgeois. Da sua atuação, resultou o estabelecimento de um novo continente de elaborações e divulgação dos valores da tradição africano-brasileira, do qual o livro Os Nagô e a Morte de sua esposa Juana Elbein dos Santos tornou-se um marco de referência na bibliografia da cultura africano-brasileira. Desde então, outros trabalhos vêm aparecendo neste solo fértil de uma nova forma de percepção do continuum civilizatório negro-africano no Brasil.

Mestre Didi além de tudo destaca-se por sua atuação institucional. É fundador e membro da diretoria da Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil, Secneb (1974), e fundador e coordenador-geral do Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-brasileira Intecab (1987).

Participou de maneira fundamental da experiência piloto de educação pluricultural Mini-Comunidade Oba-Biyi (1976-1986), realizada pela Secneb no Ilê Axé Opo Afonjá.

A atuação de Mestre Didi garantiu a criação de uma nova pedagogia, que se desenvolve a partir dos valores, das elaborações e da estética da erudição religiosa nagô.

As peças teatrais, autocoreográficos por ele recriados dos itans, dos contos, por ele escritos e publicados impulsionavam o currículo pluricultural, e promoviam a adesão e dinamização de todos os integrantes da Mini-Comunidade Oba Biyi. A construção espacial e a ocupação temporal da nova pedagogia valoriza principalmente as formas de comunicação da comunidade, linguagem dramática, dança, música, cânticos, criatividade de múltiplas dimensões de arte e conhecimentos. Na concepção nagô, o técnico e o estético se unem, são um só conceito, Odara, o bom e útil, o bonito e o belo.

A nova pedagogia não se encerra nas limitações da palavra escrita, a sala de aula, a domesticação de corpos inertes, e mentes inflacionadas de quaisquer informações para a formação apenas de sujeitos produtores e consumidores, o "homo economicus" da inspiração positivista. A chamada "modernidade" da "ordem e progresso" geradora de tantas iniqüidades e destruições.

O mundo de conhecimentos da erudição da tradição comunitária que alimenta a nova linguagem pedagógica está muito além da limitação dos discursos segmentados das ideologias positivistas que sustentam os currículos e a forma de aprendizagem das escolas oficiais.

Quando matriculadas na rede oficial a partir dos sete anos, as crianças da Mini-Comunidade Oba-Biyi se sentiam delimitados diante do aquém do além de conhecimentos e possibilidades de expressão que detinham, inclusive em relação à própria escrita. Já naquela época a experiência de Educação Pluricultural repercutiu no MEC e a Secretaria de Assuntos Culturais criou; na gestão do professor Eduardo Portella, o programa Interação Entre Educação Básica e os Diferentes Contextos Culturais Existentes no País, e a Mini-Comunidade Oba Biyi escolhida como uma das experiências-modelo.

Em 1982, a Secneb realizou o seminário Educação, Identidade e Pluralidade Nacional. Mais recentemente, com a experiência que realizei como membro do Grupo de Trabalho em Educação da Secneb, que coordenava a Mini-Comunidade Oba Biyi, promovi na Faculdade de Educação da UFBA a criação das disciplinas Educação e Identidade Cultural e Dimensão Estética de Educação. Na pós-graduação, a criação da linha de pesquisa Identidade e Pluralidade Cultural, gerando diversos trabalhos de dissertações de mestrado e teses de doutorado. Na Universidade do Estado da Bahia - Uneb - , foi criado o NEP, Núcleo de Educação Pluricultural, que vem realizando diversas atividades neste campo de elaborações acadêmicas, onde se destacam os trabalhos de Narcimária C. do Patrocínio Luz, Ana Célia Silva e Jaime Sodré, dentre outros.

Neste momento, queremos registrar sobretudo os êxitos da tese de doutorado da professora da Unicamp e doutora em Educação, Inaicyra Falcão dos Santos, que foi aprovada na Universidade de São Paulo, USP, com o conceito 10 com louvor, o que poucos doutorandos obtêm.

Da Tradição Africana-Brasileira a Uma Proposta Pluricultural de Dança-Arte-Educação se situa no continente epistemológico a que estamos nos referindo. No contexto africano-brasileiro, o imponderável se representa como mistério, como segredo, como silêncio que ocupa momentos preciosos na temporalidade e espacialidade da comunicação estética da tradição, como o vazio, os vazados presentes nas composições artísticas de Mestre Didi. Conforme Muniz Sodré "silêncio é a realidade que engendra o verbo, que dá luz a palavra, por ser a força que conduz o indivíduo à sua própria interioridade e à eclosão de uma verdade. Silêncio é coisa de ‘dentro’, palavra é coisa de ‘fora’ - no jogo ponderado dos dois espaços se faz a comunicação equilibrada com o mundo".

Através do saber acumulado no universo da tradição negro-africana Antônio Olinto comenta: "Diga-se que há uma sabedoria que só a religião consegue captar e guardar. É a que se baseia na busca do autoconhecimento e na união, tão profunda quanto possível, entre cada ser humano e o universo circundante, habitado por múltiplas formas de natureza e por outros seres humanos, seus semelhantes. O grude que junta ser com ser ganha na religião, uma força inesperada, capaz de ligar, de religar, de tornar inconsúteis os tecidos de que as pessoas são feitas..."

E ainda: "No começo era o verbo, mas também o espaço. Neste, tudo se movimenta ou se aquieta, se agita ou se abranda. Espaço tem de ser construído, trecho a trecho, pois nele tudo acontece. Depois da construção, há que haver a sagração. A sagração do espaço. Se a maioria das religiões repousa na palavra e na prédica, a dos Yorubás - a de keto - se expande na dança. Dançar é rezar... O ritmo dos tambores ponteia a dança, os cânticos determinam gestos e marcam a duração dos passos..."

Passamos agora a referir-nos ao conteúdo da tese da doutora Inaicyra Falcão dos Santos, que relata experiência original de educação pluricultural intramuros acadêmicos. Além de relatar seus pressupostos teóricos e metodológicos no início do trabalho, a autora narra sua experiência de dançarina e depois também de pesquisadora da criação e recriação emergente da tradição africano-brasileira o que dá valiosos subsídios para a compreensão da trajetória que envolve sua tese.

Na primeira parte, por assim dizer, do trabalho, ela procura superar os obstáculos ideológicos europocêntricos existentes nas abordagens do sistema educacional em geral que, segundo a autora, desestruturam e diluem uma real percepção da tradição africano-brasileira. Sua estratégia é demonstrar o real significado estético da dança nesta tradição, que por sua vez se combina inexoravelmente com a música percussiva, com os cânticos e poemas sagrados, já que a religião é a fonte da cultura africano-brasileira. Para tanto, ela ilustra a exposição com uma abordagem dos elementos místicos, míticos e estéticos que envolvem o tambor bàtá, presente na tradição Yorubá na Nigéria, e em sua continuidade transatlântica nas Américas, especificamente na Bahia.

Partindo do mito de Ayán; que narra o aparecimento do tambor, através de uma rica exposição, ela procura sublinhar aspectos estéticos do ritual religioso nagô (Yorubá), onde acontece uma combinação contextual entre música, dança, dramatização, poemas, vestuário, parâmetros, etc., que se entrelaçam para magnificar o sagrado constituindo uma linguagem erudita. Desta forma, a autora atinge os propósitos de superar e se afastar das noções europocêntricas e qualificações como "folclore", "terceiro mundo", "restos culturais", etc.

É de grande interesse também quando narra a experiência do processo de recriação artística dos elementos do bàtá por ela desenvolvido, do plano estético religioso para um desdobramento laico. No decorrer dessa exposição, ela desenvolve diversas considerações teóricas sobre a criação artística. Todavia, quando, em determinado trecho, compara a estética da tradição religiosa com a criação artística a nosso ver se confunde, sobretudo quando cita autores que atribuem uma graduação de valor favorecendo esta última; o que faz retroagir o texto à problemática ideológica do europocentrismo positivista.

Na segunda parte, a autora desenvolve uma proposta pluricultural de dança-arte-educação, tendo como referência a regência da disciplina Dança Brasileira. Os exercícios técnicos iniciais explorando novos movimentos corporais emergentes da tradição africano-brasileira se constituem em relação ao grupo de estudantes numa espécie de maiêutica, em que se tem que elaborar um luto pelas referências anteriores de um repertório constituído por experiências vividas. Há uma certa tensão provocada pelo novo que se apresenta e uma perda de referências para a adesão do corpo a um gestual até então desconhecido. Outro dado importante é que as referências da dança emergente da tradição têm de estar combinadas com outros elementos que constituem uma dramatização, uma montagem cênica.

É neste sentido que o curso caminha, isto é, para um exercício coreográfico resultante de uma pesquisa que envolve a própria identidade da aluna, pois que se refere aos seus mais velhos. Desta forma, se trabalham também vivências interiores revestidas de emoção e afeto. Também como uma aplicação maiêutica nasce o exercício coreográfico, gerando um reconhecimento maior da própria identidade e gerando novas perspectivas para aceitação da alteridade, tanto mais que as alunas são de diversas origens étnicas. Percebe-se nos inúmeros depoimentos apresentados o quanto foi gratificante para elas a experiência desenvolvida e as descobertas vivenciadas.

Diferentes formas de expressão corporal apresentadas ampliam a percepção e convivência com a diversidade.

Numa segunda etapa, é proposta uma nova pesquisa culminando também com exercício coreográfico referente à escolha de uma manifestação cultural característica de sua cidade ou bairro. De uma forma ampliada e mais complexa, exigindo uma maior interação com pessoas e instituições comunitárias extramuros universitários, esta proposta promove uma interessante amostra da diversidade cultural dependendo das referências de cada aluna. Os exercícios coreográficos se enriquecem, bem como as reflexões sobre nossa pluralidade étnica e cultural brasileira.

Atravessando essas atividades, o curso é também dinamizado por uma abordagem do samba, gênero de dança hegemônica no contexto brasileiro e expressa de certo modo nossa identidade nacional.

Com as aberturas à alteridade conseqüência de todo curso as resistências dos corpos e mentes à ginga se diluem e há uma maior adesão das participantes apesar das dificuldades características da diversidade da origem das distintas alunas. Pelos depoimentos apresentados em grande quantidade, a autora demonstra os êxitos alcançados para uma proposta adequada da arte-dança-educação no Brasil, país caracterizadamente pluricultural, aliás, como tantos e tantos outros espalhados por diversos continentes.