TÓPICOS ESPECIAIS – HISTÓRIA DO CANTO NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
Profa. Regina Machado
Departamento de Música / IA / UNICAMP

Quando se fala em Música Popular Brasileira é impossível pensar numa unidade musical. A pluralidade, essência da nossa cultura e continentalidade, fez surgir, dentro da música popular, diversas expressões características da maneira de pensar e viver de cada povo nas diversas regiões do país. Assim, pode-se detectar a existência de focos de produção musical nos diversos estados, que carregam as características étnicas daquela região, e que muitas vezes sobrevivem no mercado fonográfico local sem nunca extrapolar suas fronteiras.

Dessa forma, como seria impossível tratar a questão da música vocal brasileira como um todo, concentro a atenção na canção urbana produzida no eixo Rio-São Paulo durante o período que vai do final dos anos 20 ao início dos 80 e que registrou os principais acontecimentos da música popular brasileira urbana. Movimentos como a Bossa Nova, a Vanguarda Paulista, o Clube da Esquina, a Tropicália e a base de tudo que reside na Época de Ouro.

Por meio de um estudo aprofundado do repertório disponível em registros fonográficos dos diversos cantores, o aluno entra em contato com as transformações ocorridas na estética vocal na canção urbana brasileira e pode simultaneamente observar o trabalho dos compositores e as técnicas de arranjo e instrumentação que também sofrem transformações através da história.

Através dessas escutas podemos observar os caminhos percorridos pela voz na canção popular brasileira, entendendo que o canto popular possui referenciais estéticos próprios que estão diretamente ligados à sonoridade da língua falada.

CANTO POPULAR

Considerando que a música cantada tem sido a principal forma de expressão da Música Popular no Brasil desde o início do século XX, e sendo esse canto o foco central deste estudo, coloco a seguir alguns parâmetros que explicam e diferenciam o canto popular do canto erudito.

No princípio a abordagem vocal na Música Popular era muito referenciada no canto lírico, e isso produzia uma maneira de cantar que privilegiava a potência em detrimento de outros atributos musicais que foram se estabelecendo com o tempo. Utilizava-se, como na Ópera, uma emissão muito revestida de vibratos, notas longas e ênfase na atitude dramática. Através da escuta de cantores como Vicente Celestino, por exemplo, observa-se rapidamente isso. Com o advento das gravações elétricas, a utilização da potência deu lugar a um canto mais falado e também à realização de dinâmicas mais sutis, mas é importante considerar a questão do estilo levada a cabo por alguns cantores, pois, mesmo antes da transformação dos meios técnicos fonográficos, já existiam alguns cantores que estavam voltando os ouvidos à sonoridade da nossa língua, como é o caso do cantor  e modinheiro Xisto Baia na gravação do lundu “Isto é Bom” de 1902 e também do cantor Baiano na gravação do  samba “Pelo Telefone”  em 1917.

No canto lírico os parâmetros fundamentais são a beleza da voz e  o virtuosismo da execução vocal, o que faz com que códigos de pronúncia dos diversos idiomas tenham sido estabelecidos para favorecer a realização musical por meio da voz, visto que essa por vezes se dá em regiões muito agudas e distantes da fala.

Na canção popular a extensão vocal utilizada é, na maioria dos casos,  menor que  na canção erudita e principalmente na Ópera. Além disso a palavra também é um instrumento de realização musical do cantor, sendo  fundamental  o  atributo da inteligibilidade do texto bem como da exploração rítmica e sonora de cada palavra, o que torna inadmissível a adulteração da sonoridade da língua por questões de facilitação técnica para a execução musical.

Partindo do princípio de que  a canção popular brasileira tornou-se material fundamental de conhecimento e documentação da nossa cultura, conhece-la é  alicerce básico nos processos de compreensão e aprendizado do fazer artístico, e a partir deste, da compreensão do ambiente social do qual ele se torna produto. Dessa forma, estudar esses conteúdos e a maneira como se comportam e transformam-se no tempo, simultaneamente compreendendo a transformação dos meios de gravação, o espaço criativo onde essa arte é gerada e  a inserção da mesma no mercado, parece vital para  a continuidade do processo criativo, seja na transmissão, seja na realização artística. Assim ao estudarmos a canção brasileira enfocando os aspectos técnicos e estéticos referentes a cada momento de sua história, estamos aprofundando o conhecimento da nossa própria cultura, possibilitando também que o futuro profissional formado em nossos cursos tenha real conhecimento da música, da arte e do mercado em nosso país, para que possa exercer o seu papel de cidadão criador, e por vezes formador de opinião, da maneira mais clara e integra.

PROGRAMA DE ESCUTA DO CURSO HISTÓRIA DO CANTO NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

1O SEMESTRE

2o SEMESTRE

3o SEMESTRE

4o SEMESTRE