O espetáculo, a arquitetura e a cidade
José Canosa Miguez


Publicado no site da ONG Viercidades, 21 de setembro de 2001

Publicado na Revista Lume, edição de novembro de 2001.

Tenho participado com muito interesse do curso de Iluminação Cênica que os lighting designers Eduardo Salino e Ricardo Vianna estão apresentando aqui no Rio. A experiência de oito anos na direção da RIOLUZ - Companhia Municipal de Energia e Iluminação do Rio de Janeiro - estimulou-me a conhecer em mais detalhes o fantástico uso da luz na criação da ambientação cênica, faculdade esta que ainda não foi devidamente explorada pela iluminação urbana e da arquitetura.


Para dar mais sabor ao curso, Salino e Vianna promoveram uma inédita mesa redonda com atuantes iluminadores cênicos que trabalham na cidade - Aurélio de Simoni, Paulo César Medeiros, Rogério Wiltgen, Ricardo Dias e César de Ramires - o cenógrafo José Dias, representantes de fornecedores e de fabricantes - Públio Lima da GE e Teógenes da Rosco - o ator Pedro Osório, indicado ao premio Shell pela peça Trainspotting - entre outros profissionais, todos muito bem coordenados pela competente Claudia Cavallo. Foi interessante conhecer as experiências e pontos de vista destes especialistas tão dedicados ao teatro e ouvir as considerações de cada um sobre a evolução e a qualidade da iluminação cênica no Brasil.


Desta reunião estimulante, com grande interação do público presente, e de um rápido papo com a Cláudia, ocorreu-me fazer algumas observações e procurar identificar os pontos comuns e aqueles divergentes entre a iluminação de espetáculos cênicos e a iluminação de monumentos, fachadas e espaços públicos, atividade na qual descobri e exercitei o prazer de iluminar.


Inicialmente, em comum, a curta história da iluminação com luz elétrica. Os pouco mais de 100 anos da luz elétrica nos levam a concluir que a arte da iluminação é ainda muito recente, principalmente se comparada com as demais manifestações artísticas da humanidade, como a pintura, a arquitetura, a escultura, a literatura, etc. - todas vetustas e devidamente balizadas por cânones e dogmas. Mas a iluminação, depois de um século de convívio com a eletricidade, vive ainda sua pré-história, sem considerações estéticas, sem críticas conceituais, sem passado de referência.


Diversos outros aspectos tornam complexo o ato de estabelecer valores e de julgar a qualidade da iluminação. Indagados sobre como avaliar e projetar uma boa iluminação teatral, os experientes profissionais presentes ao debate, entre uns e outros "causos" muito engraçados, puderam discorrer sobre algumas características da iluminação cênica: Paulo César Medeiros destacou o fantástico poder da luz em criar e recriar ambientes, característica esta que os iluminadores teatrais exploram a perfeição; Dias destacou a permanente busca pela perfeita interação entre luz, cenários e figurinos, obtida por uma competente direção do espetáculo; Aurélio comentou a dualidade arte/técnica, com a prevalência de uma ou de outra refletindo no resultado final da iluminação; e a platéia, muito participativa, contribuiu com perguntas e comentários pertinentes.
De minha parte, gostaria de meter a colher neste caldo de luz para expressar alguns sentimentos e levantar algumas questões que julgo pertinentes.


Em primeiro lugar, confesso a minha grande inveja pelas excepcionais condições de criação com que trabalham aqueles que iluminam o espaço cênico. Podem dispor seus refletores em quaisquer pontos do palco, seja em cima ou em baixo, nas laterais, na frente ou atrás; a liberdade de posicionamento é total, apenas condicionada pelas características do palco, do cenário e pelo mise en scène estabelecido pelo diretor.


Digo isto porque, para iluminar uma obra monumental ou arquitetônica, as opções para posicionar e instalar os equipamentos são tremendamente limitadas pelo entorno e/ou pelas características mais ou menos favoráveis das fachadas e revestimentos. O uso de postes como suporte para os projetores quase sempre é inadequado, obrigando o iluminador a colocar as fontes de luz ao nível do chão ou em saliências das fachadas, gerando - na maior parte das vezes, e quando não se quer comprometer as perspectivas do observador - a luz de baixo para cima. Também os órgãos responsáveis pelo patrimônio cultural limitam em muito as intervenções para executar projetos mais sutis e delicados nos monumentos tombados, restringindo a iluminação a soluções com a luz chapada, fria e uniforme, sobre as edificações. Sobre estas limitações vale a pena citar o projeto de iluminação do Museu do Louvre em Paris, em que o trabalho integrado dos concepteurs lumineux e dos responsáveis pela preservação do patrimônio histórico francês chegaram a uma solução fantástica em que o maravilhoso edifício parece banhado por uma misteriosa luz que incide do alto, sem que se percebam as fontes luminosas.


Por falar em refletores - como são chamados pelos iluminadores cênicos - ou projetores - denominação usual adotada na iluminação pública e da arquitetura - fica demonstrada a falta de uma mesma fonte didática, normativa ou habilitadora dos profissionais de iluminação. Vale lembrar Edgar Moura em seu livro 50 anos Luz Câmera e Ação: "Quanto à confusão de chamar um refletor de projetor é um problema sério. Os profissionais da fotografia chamam um ponto de luz de refletor. É errado. Deveria ser projetor, como em francês... ou português de Portugal".


Em segundo lugar, a grande diferença entre os equipamentos de luz cênica. Por não estarem expostos às agressivas condições de trabalho externo (poluição, maresia, chuva, umidade, vandalismo, etc.) os refletores têm acabamentos menos sofisticados no que diz respeito aos níveis de proteção, pois os projetores utilizados para trabalhar em áreas externas têm carcaças muito robustas e seus componentes óticos e lâmpadas devem ser bem protegidos contra as intempéries e agentes poluidores.


Também em função da dinâmica de luz, obtida pela dimerização, focalização variável, possibilidade de enquadramentos, diversidade de cores dos filtros, desenhos dos gobos e atualmente pelo movimento dos pontos de luz e até dos rigs, os refletores cênicos trabalham com corpos óticos desenvolvidos para explorar estas possibilidades. A exceção é claro, fica para os indefectíveis PAR... Porém é fácil perceber que o vertiginoso desenvolvimento tecnológico das lâmpadas e dos equipamentos, modificando com rapidez o visual dos espetáculos cênicos, às vezes se reflete em discutível exuberância luminosa.


As lâmpadas de uso corrente na iluminação das áreas externas, monumentos e fachadas são principalmente aquelas do tipo de descarga de alta intensidade, sem possibilidades de dimerização precisa (é possível apenas uma redução no fluxo luminoso, alterando-se a condição de trabalho dos reatores). Ainda que, no caso de soluções pontuais, com baixas potências, é viável utilizar lâmpadas halógenas. A cor ainda é empregada com timidez pelos lighting designers da arquitetura. Até porque é necessário imbuir-se do necessário respeito pela obra do artista (escultor, arquiteto ou paisagista) que se vai iluminar, caso contrário ela pode ser descaracterizada em sua cor, textura ou na leitura da forma como conseqüência do uso inadequado da luz.


Também impressionam as cargas elétricas empregadas na iluminação teatral e de shows. Milhares de watts são comprometidos para iluminar pequenas áreas, o que pode soar como desperdício em tempos de apagão urbano. É raro o cálculo luminotécnico preciso na definição da luz efetivamente necessária para os espetáculos, ao contrário dos projetos de luz permanente em áreas exteriores que, não dispondo da condição "dimerizadora", devem sempre ter um consumo de energia eficiente.


Permanentemente seduzidos pelo poder da luz, os iluminadores são sempre tentados a destacar a iluminação. O emprego da fumaça permite incorporar os fachos luminosos ao cenário e aí a luz ganha relevância no espetáculo. Claro que há sempre o risco de retirar a atenção devida ao desempenho dos artistas, mas quando adequadamente incorporada ao mise en scène, torna-se um fantástico elemento cênico. Já na iluminação das obras de arquitetura os fachos dos projetores só são percebidos quando incidindo sobre as fachadas ou nas noites enevoadas.


At last but not least, há que considerar o caráter efêmero da iluminação cênica, que vive apenas durante o curto espaço de tempo das temporadas, ao contrário do caráter institucional e permanente que se dá à iluminação de monumentos e fachadas e também da função utilitária da luz dos interiores.


Estas considerações são feitas apenas como estímulo para uma abordagem mais detalhada do assunto. Fica a minha expectativa de que começa a ser possível, com o uso correto das novas tecnologias e com uma adequada interação profissional entre fabricantes, arquitetos, urbanistas e lighting designers, trazer para as cidades as possibilidades incríveis que a iluminação cênica faculta. Principalmente pela possibilidade de gerar ambiências noturnas criativas, capazes de humanizar os espaços públicos quase sempre tão inexpressivos e impessoais durante as noites urbanas.


* José Canosa Miguez é arquiteto, light designer, consultor em iluminação urbana e da arquitetura da ONG Vivercidades e foi Presidente da Rioluz no Governo Luiz Paulo Conde.