A ILUMINAÇÃO E O ESPETÁCULO

A descoberta da eletricidade por Thomas Edison, foi o grande motor da civilização, junto com o petróleo. E o teatro não ficou fora desta revolução. A transformação foi radical, como aponta Jean-Jacques Roubine, pois com a luz foi possível ver melhor os cenários, figurinos e até mesmo os próprios atores, bem como a música que foi amplificada. A complexidade que foram adquirindo essas artes tornou necessária a presença de um profissional que as coordenasse. Deste modo, surge, ao redor de 1850, a figura do diretor. Essa profunda alteração nos bastidores é claro, foi responsável por uma nova relação do ator com seu papel e com o público, uma nova relação deste último com o espetáculo. Creio que não seria exagero dizer que estabeleceu uma nova arte, que se assemelhava com o teatro anterior quase que exclusivamente por ser artesanal e pela presença do ator. Em grande parte a iluminação é responsável pela crescente valorização do espetáculo. Dentro de uma montagem, funciona muitas vezes para destacar ou esconder os aspectos de uma cena. É utilizada também para criar um clima, o que faz com que sua função intrinsecamente lírica, possa criar um efeito dramático. E de alguns anos para cá, tem sido usada muitas vezes como elemento cenográfico e em outras tem feito as vezes de cenário. Quem for assistir a "O falcão e o Imperador" com luz de Maneco Quinderé, a "Os Solitários" de Beto Bruel, ou mesmo a "Um Porto Para Elizabeth Bishop" de Wagner Freire, todas em cartaz em São Paulo, atualmente, (primeiro semestre de 2002) poderá ter a comprovação de que nos três casos, em diversos momentos, a luz funciona como cenário. São invenções da segunda metade do século XX, quando as técnicas de desenho de luz e o trabalho dos operadores ganharam enorme desenvolvimento. Simultâneo é claro à evolução fantástica dos equipamentos, tais como mesas de luz, ou mesmo efeitos mais artesanais com projeções de slides fazendo as vezes de cenografia e assim por diante. A ponto de que um espetáculo sem iluminação seja algo a princípio impensável e mesmo quando é concebido desse modo, como se vê em "Hysteria" atualmente em cartaz também em São Paulo, há um uso dos reflexos da luz do dia e o espectador tem uma sensação diferente: ou parece que viajou no tempo, de volta para o passado (o que nos parece ser a intenção do diretor, já que o enredo se passa no século XIX e o elenco veste trajes da época) ora tem a impressão de estar assistindo só a um ensaio. Ou seja, sem luz, seja natural ou não, não há teatro. Sem luz elétrica, dificilmente um teatro moderno.

Maria Lúcia Candeias

Professora do Departamento de Artes Cênicas da Unicamp e crítica teatral