Reflexões de um artista sobre a vida

"As coisas são porque as vemos,
e o que vemos, e como vemos,
depende das artes que tenham influído em nós".
Oscar Wilde (Intentions, 1891)

Ultimamente tenho retomado diversas reflexões sobre a vida. A respeito de como me coloco no mundo, como artista, como indivíduo, que diante dessas minhas reflexões pude constatar, que são partes do mesmo ser.
Sinto-me hoje como parte de um todo, de um universo muito abrangente. Comecei a enxergar melhor o valor do indivíduo, contrapondo uma frase que a vida inteira ouvi, de meu pai, que dizia: "Filha, ninguém é insubstituível".
Sempre me enfureci com ela, e pensava, e dizia como as pessoas podem ser tão substituíveis, me revoltava e esbravejava durante horas de discursos que não convenceram meu pai.
Hoje sei que depois de 10 anos sentindo sua ausência, pude sentir que o seu lugar ninguém ocupa, e ninguém jamais ocupará.
Essas reflexões me fizeram perceber que sou um ser único, importante, insubstituível, e por mais que "lute contra a maré" posso acreditar nisso. Se cada indivíduo se valorizar podemos mesmo que, utopicamente, mudar as coisas. Por começar a me sentir assim uma "pessoa" e por ser pessoa, mereceria valor atribuído a tal.
Confesso que no começo me revoltei com tantas críticas a respeito da subversidade do mundo, que podemos ver a cada esquina. Mas a cada instante pude constatá-las no meu cotidiano e percebi que eu não vou mudar o mundo, eu vou mudar a mim. Para que um eu mais consciente possa, através de meus atos "mudar" o mundo.
Levei essas análises para o universo artístico, de intérprete e criadora, de dança, que sou.
Analisando minhas ações e como as pessoas são tratadas cotidianamente. Como diz João Francisco;

" morar, caminhar, conversar, comer, tocar, ver, cheirar e trabalhar, ações estas comuns a todos nós e cuja qualidade vem se deteriorando a olhos vistos. O que se pretende é tornar evidente o quanto o mundo hoje desestimula qualquer refinamento dos sentidos humanos e até promove a sua deseducação, regredindo-os a níveis toscos e grosseiros. Nossas casas não expressam mais afeto e aconchego, temerosa e apressadamente nossos passos cruzam os perigosos espaços de cidades poluídas, nossas conversas são estritamente profissionais e, na maioria das vezes, mediadas por equipamentos eletrônicos, nossa alimentação, feita às pressas e de modo automático, entope-nos de alimentos insossos, contaminados e modificados industrialmente, nossas mãos já não manipulam elementos da natureza, espigões de concreto ocultam horizontes, os odores que comumente sentimos provêm de canos de descarga automotivos, chaminés de fábricas e depósitos de lixo, e,em meio a isso tudo, trabalhamos de maneira mecânica e desprazerosa até o estresse" (1)

 


Essa citação enfatiza, como atualmente os humanos são tratados como coisas. E, sendo coisas são descartáveis como a maioria dos objetos.
Esse comportamento acaba gerando a solidão da alma humana, e a conseqüente solidão do ser. Levando-nos à um vazio imensurável.
Cheguei a me demitir de trabalho por causa desses novos pensamentos que invadiram minha mente. Pode parecer trágico, mas é serio, e está sendo boa essa virada de página.

hoje, o reprimido está fora de nós, e somos anestesiados e tranqüilizados com relação ao mundo que habitamos o que foi clamado de "entorpecimento psíquico", que se refere não apenas a uma possível catástrofe nuclear, mas a cada detalhe da falta de alma, desde nossas xícaras de café até os sons, as luzes e o ar, o gosto da água e as roupas praticamente descartáveis que colocamos sobre nossas peles, desconfortáveis,porem fáceis de manter. Ao reprimirmos nossas reações aos detalhes básicos e simples, como os tetos, ao negarmos nosso desgosto e nosso ultraje, na verdade mantemos uma inconsciência que aliena e desorienta a alma interior. (2)

 

Foi por demais importante (re) despertar para os nossos sentidos primordiais. A importância e necessidade que deve ser dada aos atos de comer, cheirar, tocar, ver, ouvir e o quanto essa experiências enriquecem o campo da pesquisa artística e a minha vida.
Nós não podemos esquecer nunca, que conhecemos o mundo pelos cheiros, usando o nariz, e pelos sabores, dentro da boca.
A ausência de beleza nas coisas mais corriqueiras e mundanas, esquecendo que os olhos são nossas janelas da alma. E, nos fazem enxergar as coisas feias e belas.
Os estímulos visuais costumam ser bem mais nítidos do que as percepções sonoras. A audição, mais sutil do que a visão acaba exigindo-nos mais esforço para ouvir os barulhinhos bons.
O tato, por fim, pode nos colocar em contato direto com a vida e a arte.
O artista vem buscando uma preocupação nascida no início do séc XX, que é a sua importância como indivíduo atuante. Procurando resgatar a importância do intérprete na cena, e este em relação à própria obra, enquanto um ser humano inteiro, presente, ativo, dinâmico, em movimento, em ação, que cria novas maneiras de perceber o mundo e pensar a experiência humana.
O que (re) aprendo de todas as reflexões realizadas, entre diversas outras que só irei absorver mais para frente, é principalmente que a consciência do aprendizado e o exercício de estímulo sensorial parecem ser caminhos ao aprofundamento da sensibilidade dos indivíduos, que lidam com atividades, artísticas ou não.
Como não tenho o dom da poesia, finalizo esta reflexão com um autor português, mas que também como alguns, possui o Saber Sensível:


Animação, ponto final.


Somos animadores, mas não somos simples palhaços. O circo das nossas vidas é o saber estar, respirar e vivenciar. É o dar a mão a quem precisa, e usar de todas as armas que temos para o potencializar.
Os nossos narizes são feitos de mil cores, de tatuagens pinceladas de várias essências. São a pintura de mil destinos, numa chama que não se apaga, por mais palavras infelizes e comentários jocosos que sejam cuspidos infantilmente.
Utopia ou palavras doces libertadas no amargo febril do Mundo? Pobre inocência juvenil por detrás de um curso ainda não finalizado? Muitas ideologias e filosofias que se poderão perder no calo de um dia a dia que não é assim tão límpido e nítido? Talvez.
Mas por mais punhaladas que sejam desferidas, por mais feridas abertas que sangrem num coração e numa alma sedentas de amor e de brilho, tudo o que me reveste não apodrecerá por intermédio de acção alguma. Porque mais importante do que estar e ser, é senti-lo como parte de nós, é identificar uma essência para nunca mais a esquecer e olvidar em tudo o que fazemos.

Ray Manzarek

Por Carolina Romano

(1) Duarte J.F."Sentido dos Sentidos-a educação (do) sensível". Criar Edições, 2003, P. 18
(2) Idem. Citação da citação- James HilIman, Cidade & alma, p.49


Bibliografia
Duarte J.F."Sentido dos Sentidos -a educação (do) sensível". Criar Edições, 2003,