A Mostra Unificada apresenta a síntese das produções artísticas de alunos e professores do Instituto de Artes, sempre marcada pela diversidade de estilos, pluralidade de gêneros e uma patente interdisciplinaridade entre seus cursos.

Envio feito por: Sarah Victória Santibanez Migliori
A escolha desses materiais é como uma mistura de várias sensações, um amálgama que se desenvolve continuamente, do início ao fim da composição. O conceito poético que sustenta a obra – estabelecendo uma relação direta com seu título – busca explorar o ideal de dor; não uma dor necessariamente de origem física, mas psíquica, subjetiva, interna, íntima, que parte da manifestação de perturbações que sofremos ao longo da vida.
Algumas pessoas para as quais mostrei a peça perguntaram se tratava de alguém com sintomas de esquizofrenia, se havia alguém sofrendo algum tipo de abuso ou se eu me referia a alguém com muita dor. Por isso, cabe perguntar-nos, haja vista o contexto da peça: o que é a esquizofrenia? O que é o abuso? O que é a dor? As respostas a essas perguntas, de fato, são da ordem da complexidade – e eu nem considero a racionalização metalinguística o objetivo da performance - e é exatamente por isso que sua manifestação musical representa o que penso sobre essas respostas. Partindo da liberdade que a criação artística possibilita, elaborei algumas respostas poéticas a estas questões, sem nenhuma pretensão de elaborar um método metalinguístico.
Partindo da criação musical, consideremos que a esquizofrenia seja uma doença mental provocada pela nossa forma de vida. Afinal, é a nossa mente gritando por saúde. Ela também pode ser, porém, uma possibilidade de fuga para saúde da nossa vida, a depender de como fazemos o processo de leitura da esquizofrenia. Já o abuso é o estupro da nossa sanidade, daquilo que chamamos de são. Sempre nos foi colocado um conceito de sanidade, formalidade, e um padrão comportamental durante a nossa vivência, e isso nos aprisiona em um contexto em que a nossa capacidade de invenção é sempre delimitada a um certo espaço, assim como a nossa potência vital é violentada moralmente de diferentes formas.
Partindo das imposições sociais à nossa intimidade, eu me pergunto o que seria a destruição da nossa sanidade, senão a destruição para ser são? Nós estamos sendo corrompidos e tentamos também corromper a nossa própria sanidade para viver dentro da racionalização imposta. Para estarmos sãos temos que expurgar tudo aquilo que pode nos ferir, todo o nosso delírio, todo o nosso grito; esse é o processo que eu, Sarah, preciso expor para poder estar sã, preciso entrar em um estado de loucura, para poder procurar a melhor forma de viver minha vida.
A interpretação da obra e a criação dela foi feita pela mezzo-soprano e compositora Sarah Migliori.
FICHA TÉCNICA:
Essa peça foi composta a partir de um improviso, através de uma gravação feita no LaMuSa (Laboratório de Música, Sonologia e Áudio dentro da Universidade estadual do Paraná), com materiais sonoros pré-escolhidos, tendo em vista que todos os materiais sonoros foram feitos por mim, dentro de uma forma que também foi pré definida. Desta forma, a improvisação surge como método de criação, que busca organizar a estruturação formal da obra, distribuindo o repertório de sons previamente escolhidos em um fluxo intuitivo de proporções e relações entre aspectos espectro-morfológicos dos gestos vocais, estrutura esta que resulta da percepção de desenvolvimento temporal estabelecida no contexto performance. Dentro da gravação do TAPE, se contém dez materiais sonoros, dentro deles, quatro materiais que são sempre falados de maneiras balbuciadas, e também temos as respirações tranquila e ofegante, engasgo, fry e grito e a voz cantada improvisada. Dentro da improvisação foi feito um patch no PD (Pure Data), onde usamos um Pitch- Shifter em quatro canais para transposições das vozes e Delay. A performance da obra foi feita dentro da minha própria casa por conta da pandemia que ainda acontece no mundo inteiro que começou no final de 2019 na Europa. A interpretação, a edição e a composição foram feitas por mim mesma, Sarah Migliori, aluna do mestrado em música do Instituto de Artes da Unicamp.
Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=A9IpE6dNAdE&t=217s