Partindo da análise da vida e obra da atriz e cineasta brasileira Norma Bengell, esta pesquisa investiga os diálogos entre sua arte, sua vida, sua sexualidade e sua resistência política com a memória social do cinema brasileiro. Considerando o apagamento histórico de mulheres, baseio-me principalmente nos estudos de autobiografia para compreender como ela se constrói por meio do contar-se e se posiciona na História, buscando preservar sua memória e driblar o esquecimento a que foi relegada. Interessa-me também analisar como suas experiências enquanto artista e mulher moldaram sua subjetividade, orientaram seus caminhos, sua arte e sua militância política. Embora tenha sido considerada uma grande musa do cinema brasileiro - designação que tentou aprisioná-la a um tipo específico de cinema e feminilidade - uso o conceito de parresia, de Foucault, para discutir seus modos de viver e atos de rebelião que recusaram essa alcunha em busca de uma construção autônoma da arte. Utilizando documentos de seu acervo pessoal, hoje sob os cuidados da Cinemateca Brasileira, além de recortes de jornais, dossiês e relatórios da ditadura militar, analiso seu envolvimento político com movimentos de esquerda e de artistas contra a censura, e a violência do terrorismo de Estado. Perseguida, sequestrada e presa pela polícia, exilou-se na França, onde participou de redes de apoio e do Grupo Latino-Americano de Mulheres de Paris, além de estabelecer contato com intelectuais feministas como Simone de Beauvoir e Delphine Seyrig - esta última incentivou-a a enveredar pela direção cinematográfica. Estudo seu trabalho como atriz em filmes como O Homem do Sputnik (Carlos Manga, 1959), Os Cafajestes (Ruy Guerra, 1962), Noite Vazia (Walter Hugo Khouri, 1964), Os Crueis (Sergio Corbucci, 1967), Fedra West (Joaquin Luis Romero Marchent, 1968), A Casa Assassinada (Paulo Cesar Saraceni, 1971), Mar de Rosas (Ana Carolina, 1977), Abismo (Rogerio Sganzerla, 1977) e A Idade da Terra (Glauber Rocha, 1980). Analiso também sua produção como cineasta e seu projeto de um cinema sobre e entre mulheres, com filmes como Maria Gladys: uma atriz brasileira (1978), Eternamente Pagu (1988), além de obras de arquivo inéditas como Devassa, Brincadeira de Medico e Eu Nua. Por fim, discuto a problemática da prestação de contas do filme O Guarani (1996) e as consequências disso em seus últimos anos de vida.