Da relação mimética à ontológica: formas do jogo de ator no cinema brasileiro contemporâneo

Doutorado em Multimeios
Orientando
Eduardo Bordinhon de Moraes
Orientador
Pedro Maciel Guimaraes Junior
Data
Ter, 30 de jun de 2026 às 14:00hs
Local
Modo híbrido (à distância pelo link e presencialmente na Sala 03 da CPG/IA)
Resumo

Esta tese investiga o jogo atoral no cinema brasileiro contemporâneo entre os anos 2000 e 2020, período marcado pela expansão das políticas públicas para o audiovisual, pela diversificação regional da produção cinematográfica e pelo surgimento de novas dinâmicas de circulação ligadas à televisão, ao streaming e às redes sociais. A pesquisa propõe uma taxonomia das principais formas de aparecimento do ator no cinema brasileiro do período, articulando análise fílmica, historiografia do cinema e estudos atorais. O trabalho parte da hipótese de que o cinema brasileiro dos anos 2000 consolidou uma linha de força hegemônica no jogo atoral, denominada “jogo neonaturalista”. Tal modelo é caracterizado pela centralidade da verossimilhança, pela implicação emocional do ator, pela valorização de um corpo patológico e pela construção de personagens determinadas por uma visão pessimista e naturalizada da realidade social. Nesse contexto, o comportamento das personagens é frequentemente apresentado como consequência inevitável do meio ou da própria natureza humana, especialmente em narrativas ligadas à violência urbana e à marginalização social. A tese demonstra como esse jogo atoral se articula a estratégias cinematográficas de transparência narrativa e apagamento da artificialidade da encenação. Em contraposição a essa hegemonia, a pesquisa identifica outras formas de atuação que ganham força sobretudo nos anos 2010. Entre elas, destacam-se o microjogo, baseado na contenção gestual e na valorização do cotidiano banal; o jogo documental, que aproxima ator e pessoa; e o amálgama ontológico entre ator e personagem, em que aspectos biográficos e corporais do intérprete passam a constituir a própria personagem. Essas formas deslocam a centralidade dramática da psicologia individual para relações sociais, políticas e materiais, propondo outras maneiras de construir o real no cinema brasileiro contemporâneo. Outro eixo importante da tese é a análise das personae e dos corpos transmídia. O estudo demonstra como atores oriundos da televisão, da música e da internet transportam suas imagens públicas para o cinema, produzindo um jogo atoral atravessado pela lógica do star system e pelas dinâmicas midiáticas contemporâneas. As comédias comerciais, as cinebiografias e a presença de influenciadores digitais são analisadas como manifestações de uma atuação vinculada à circulação transmídia das celebridades. Metodologicamente, a tese se apoia na proposta de análise do jogo atoral de Pedro Guimarães, articulando cinco eixos: ator e personagem; ator e realizador; ator e mídia; ator e mise-en-scène; e ator e técnica. A pesquisa mobiliza autores dos estudos cinematográficos, da teoria teatral e da performance, como Stanislávski, Brecht, Strasberg, Naremore e Lehmann, buscando compreender como diferentes tradições estéticas e metodológicas se sobrepõem no cinema brasileiro contemporâneo. Ao historicizar o desenvolvimento do trabalho de ator no Brasil, a tese demonstra que o jogo atoral constitui não apenas um elemento expressivo da mise-en-scène, mas também um operador político e ideológico fundamental na construção das imagens do país no século XXI.