Esta tese investiga o jogo atoral no cinema brasileiro contemporâneo entre os anos 2000 e 2020, período marcado pela expansão das políticas públicas para o audiovisual, pela diversificação regional da produção cinematográfica e pelo surgimento de novas dinâmicas de circulação ligadas à televisão, ao streaming e às redes sociais. A pesquisa propõe uma taxonomia das principais formas de aparecimento do ator no cinema brasileiro do período, articulando análise fílmica, historiografia do cinema e estudos atorais. O trabalho parte da hipótese de que o cinema brasileiro dos anos 2000 consolidou uma linha de força hegemônica no jogo atoral, denominada “jogo neonaturalista”. Tal modelo é caracterizado pela centralidade da verossimilhança, pela implicação emocional do ator, pela valorização de um corpo patológico e pela construção de personagens determinadas por uma visão pessimista e naturalizada da realidade social. Nesse contexto, o comportamento das personagens é frequentemente apresentado como consequência inevitável do meio ou da própria natureza humana, especialmente em narrativas ligadas à violência urbana e à marginalização social. A tese demonstra como esse jogo atoral se articula a estratégias cinematográficas de transparência narrativa e apagamento da artificialidade da encenação. Em contraposição a essa hegemonia, a pesquisa identifica outras formas de atuação que ganham força sobretudo nos anos 2010. Entre elas, destacam-se o microjogo, baseado na contenção gestual e na valorização do cotidiano banal; o jogo documental, que aproxima ator e pessoa; e o amálgama ontológico entre ator e personagem, em que aspectos biográficos e corporais do intérprete passam a constituir a própria personagem. Essas formas deslocam a centralidade dramática da psicologia individual para relações sociais, políticas e materiais, propondo outras maneiras de construir o real no cinema brasileiro contemporâneo. Outro eixo importante da tese é a análise das personae e dos corpos transmídia. O estudo demonstra como atores oriundos da televisão, da música e da internet transportam suas imagens públicas para o cinema, produzindo um jogo atoral atravessado pela lógica do star system e pelas dinâmicas midiáticas contemporâneas. As comédias comerciais, as cinebiografias e a presença de influenciadores digitais são analisadas como manifestações de uma atuação vinculada à circulação transmídia das celebridades. Metodologicamente, a tese se apoia na proposta de análise do jogo atoral de Pedro Guimarães, articulando cinco eixos: ator e personagem; ator e realizador; ator e mídia; ator e mise-en-scène; e ator e técnica. A pesquisa mobiliza autores dos estudos cinematográficos, da teoria teatral e da performance, como Stanislávski, Brecht, Strasberg, Naremore e Lehmann, buscando compreender como diferentes tradições estéticas e metodológicas se sobrepõem no cinema brasileiro contemporâneo. Ao historicizar o desenvolvimento do trabalho de ator no Brasil, a tese demonstra que o jogo atoral constitui não apenas um elemento expressivo da mise-en-scène, mas também um operador político e ideológico fundamental na construção das imagens do país no século XXI.