Esta tese investiga o álbum Chaos A.D. (1993), do Sepultura, a partir da análise de seis fonogramas — “Amen”, “Manifest”, “Refuse/Resist”, “Biotech Is Godzilla”, “Kaiowas” e “Slave New World” — selecionados por apresentarem características distintas e representativas das transformações musicais, sonoras e temáticas observadas no trabalho do grupo naquele período. O objetivo principal é compreender aspectos da organização musical, sonora e discursiva desses fonogramas por meio de ferramentas desenvolvidas para a análise da música popular gravada e do rock, considerando o fonograma como objeto central da investigação. A pesquisa articula abordagens voltadas à forma, organização das alturas, progressões harmônicas, melodias vocais, relações melódico-harmônicas, ritmo, parâmetros sonoros, produção fonográfica, letras e elementos visuais. Entre os referenciais empregados encontram-se, entre outros, Allan F. Moore, Walter Everett, Richard Middleton, William P. Malm, David Temperley e Nicole Biamonte, cujas categorias são utilizadas de maneira seletiva, de acordo com sua pertinência para cada problema analítico. A contextualização histórica aborda a formação do heavy metal e de alguns de seus subgêneros, o desenvolvimento da cena brasileira, a trajetória do Sepultura e o processo de transformação que conduz a Chaos A.D., incluindo aspectos relacionados à produção de Andy Wallace e à ampliação das referências estilísticas do grupo. As análises evidenciam uma organização fortemente baseada em riffs, recorrência de procedimentos modais e cromáticos, utilização frequente de melodias vocais próximas da recitação, independência variável entre voz e base instrumental, sobreposições e deslocamentos rítmicos, além de uma produção fonográfica decisiva para a construção do peso, da espacialização e da identidade sonora do álbum. As letras ampliam a presença de temas políticos e sociais, abordando questões como violência, repressão, censura, fanatismo, controle e resistência, enquanto a capa participa da construção desse campo de significados. Os resultados indicam que nenhuma ferramenta analítica isolada é suficiente para explicar a complexidade dos fonogramas estudados, tornando necessária uma abordagem metodológica articulada e adaptável às particularidades do repertório. A investigação busca, assim, contribuir tanto para a compreensão de Chaos A.D. quanto para a discussão sobre procedimentos analíticos aplicáveis ao heavy metal e à música popular gravada.