POÉTICA AUTOCANIBAL: um estudo sobre liminaridade no campo teatral e nas artes performativas

Doutorado em Artes da Cena
Orientando
Flaviana Benjamin dos Santos
Orientador
Eduardo Okamoto
Data
Sex, 27 de mar de 2026 às 14:00hs
Local
Instituto de Artes
Resumo

​​Este trabalho propõe a poética autocanibal como campo prático-teórico no âmbito das artes, teatro e performance. Sua origem reside na investigação das práticas canibais em sociedades indígenas, à luz da antropologia, a partir dos estudos de Eduardo Viveiros de Castro e nas transmutações simbólicas delas derivadas. A partir desse horizonte, emerge o tensionamento da relação entre o “eu” e o “outro”, que encontra sua manifestação mais radical na experiência da morte, compreendida aqui como fenômeno liminar por excelência. Emerge, assim, a compreensão entre o eu e o outro, por meio do bojo que rege o enigma da existência que paira na dúvida da radicalidade da transmutação: a morte. A pesquisa desenvolve-se a partir do conceito de liminaridade (Victor Turner), considerando ritos latino-americanos e suas reelaborações simbólicas, do canibalismo ao autocanibalismo. Nesse sentido, a poética autocanibal configura-se como um dispositivo de investigação em um triplo cruzado entre arte-cultura, aspectos sócio-históricos e antropológicos, que entrelaçam-se na medida em que os trajetos saltam as dimensões do tangível. O estudo estrutura-se a partir de quatro eixos interconectados e não cronológicos: (1) uma digressão histórica que busca compreender a absorção do canibalismo no contexto do Movimento Antropofágico; (2) a análise de ritos canibais em sociedades indígenas; (3) o estudo de performances de artistas contemporâneos cujas obras tangenciam os temas da liminaridade, ritual, canibalismo e autocanibalismo; e (4) a proposição de fotoperformances e performances como síntese prática da investigação. Esses eixos são atravessados por um exercício teórico-conceitual que incorpora, ainda, o pensamento mágico como operador metodológico, por meio da leitura das lâminas XII (“A Enforcada”) e XIII (“A Morte”) do tarot, interpretadas à luz da vivência singular da trama em pesquisa. Com isso, a desconstrução clama por um posicionamento intrínseco com a proposta, na qual, o simbólico emerge a partir de ressonadores implicados no real e atua no campo das investigações performáticas que originam ações como estudos do fazer: “Ego”, “Jejum”,” Beber o próprio rio: autofagia líquida”, “Tipagem”, “Queijo Humano” (reperformance),” Mingau de sêmen ou a gravidez masculina”, “Sopa” e “O útero que chora: todo corpo dá passagem". Tais ações operam como laboratórios simbólicos que investigam à devoração no trânsito autocanibal e canibal que culmina na experiência como modo de enfrentamento da experiência mais radical da vida-morte.