A virada ecossistêmica: assembléias cognitivas entre sistemas vivos e tecnológicos em obras de bioarte

Doutorado em Artes Visuais
Orientando
Claudio de Melo Filho
Orientador
Cesar Augusto Baio Santos
Data
Qua, 18 de mar de 2026 às 09:00hs
Local
Sala de Defesa - PPG/IA
Resumo

Em um momento de policrise planetária, em que degradação ecológica, aceleração tecnológica e tensões epistemológicas se intersectam, a pesquisa em artes reforça a necessidade de reavaliar as relações humanas com sistemas vivos e tecnológicos no contexto do Antropoceno. Ao situar a teoria da arte dentro do amplo quadro das transformações ecológicas, tecnológicas e epistêmicas inauguradas por esse período, esta tese o considera como uma chave crítica que direciona a pesquisa em artes à uma virada ecossistêmica. Não apenas de pensamento, mas das práticas e modos de interação entre sistemas vivos e tecnológicos, compreendendo os outros-que-humanos como partes constituintes das estruturas que regem nossas ações na biosfera.

Nesse contexto, as categorias e classificações que tradicionalmente estruturaram a produção artística, foram moldadas por uma visão de mundo que já não corresponde à experiência contemporânea. Essa disjunção entre estruturas teóricas herdadas e as práticas atuais de produção e pesquisa em arte expõe a necessidade de renovação conceitual. Assim, torna-se cada vez mais necessário um enquadramento teórico capaz não apenas de revisitar práticas artísticas, mas também de reexaminar como poéticas em coexistência com o vivo foram historicamente contextualizadas e situadas a partir de um sistema de pensamento dominante Europeu-ocidental.

Ao adotar uma postura crítica em relação à predominância de paradigmas ocidentais de arte, especialmente aqueles historicamente destinados à controlar e encenar organismos vivos, este estudo introduz a noção de agência outra-que-humana como uma chave interpretativa para compreender como entidades não antropomórficas e tecnologicamente mediadas operam em assembleias cognitivas capazes de direcionar processos artísticos rumo a modos não alternativos de conhecer, ver e ser.

A hipótese central propõe que agências outras-que-humanas, antes tratadas apenas como meios ou objetos de intervenção artística, passam a ser reconhecidas em critérios de sua performatividade. Capazes de influenciar e reorganizar os sistemas construídos pelo artista. Para se investigar a hipótese, esta pesquisa concentra-se na Bioarte (Arte biológica) como ponto crucial de convergência entre arte, ecossistemas e desenvolvimento tecnológico, particularmente no que diz respeito à forma como entidades não humanas tornam-se agentes em práticas artísticas.

A pesquisa emprega uma metodologia histórico-teórica, combinando análise crítica e estudos de caso, e organiza-se em dois segmentos principais. O primeiro segmento apresenta um panorama da teoria da arte relacionada às discussões do Antropoceno. A partir de um rastreamento das relações entre arte e seres-vivos (que vão da objetificação à relações ecológicas), se revisita momentos-chave da arte ecológica e ambiental. Tal análise revela como a arte historicamente mediou as relações entre tecnologia, ecologia e estética, refletindo um afastamento gradual das tradicionais conotações humano-cêntricas na relação com a natureza.

O segundo segmento direciona-se ao estudo das transformações da relação com os seres-vivos em práticas da Bioarte. Se distinguem duas categorias para examinar as transformações na agência artística: trabalhos de bioarte de primeira ordem e de segunda ordem.

Ao propor uma distinção baseada em ordens, não pretendo estabelecer uma relação linear ou hierárquica de práticas. Em vez disso, a distinção funciona como um dispositivo de análise, um meio de investigar como as relações de agência artística em relação com sistemas vivos e tecnológicos são reconfiguradas no contexto do Antropoceno.

Trabalhos em Bioarte de primeira ordem caracterizam-se por práticas laboratoriais centradas no controle, manipulação e contenção dos seres-vivos. Representam a epítome de um modo de engajamento com sistemas vivos ancorado nas estruturas dominantes de poder e tecnologia incorporadas pela epistemologia moderna ocidental, frequentemente alinhado aos protocolos procedimentais das ciências da vida.

As de segunda-ordem, ao contrário, deslocam-se para além de ambientes laboratoriais estéreis para engajar em assembleias cognitivas. Neste ponto, a inteligência artificial e a matéria viva exercem sua própria maneira de pensar/agir, tornando a própria obra de arte uma junção desses sistemas cognitivos. Em última instância, esta tese argumenta que a Bioarte não deve ser exclusivamente compreendida como um campo dedicado à manipulação do vivo e, à luz das teorias do Antropoceno (...)