A formação do violonista profissional: um estudo sobre os bacharelados em universidades públicas do estado de São Paulo

Doutorado em Música
Orientando
Guilherme Luis Bassi Arce
Orientador
Gilson Uehara Gimenes Antunes
Data
Ter, 25 de ago de 2026 às 09:00hs
Local
Instituto de Artes
Resumo

A tese analisa a formação superior do violonista com o objetivo de compreender de que modo os cursos de bacharelado em violão do estado de São Paulo (Brasil) respondem às demandas contemporâneas relativas à formação e à atividade profissional. A pesquisa, de natureza qualitativa, baseia-se em entrevistas semiestruturadas com estudantes, egressos e docentes, na observação não participante de aulas de violão em diferentes níveis de cinco cursos de graduação em universidades de São Paulo e na análise da normativa curricular vigente, organizando-se em quatro eixos analíticos inter-relacionados.

O primeiro eixo examina os perfis dos alunos matriculados à luz da sociologia de Pierre Bourdieu. Dentro da heterogeneidade de perfis identificada, os dados evidenciam o predomínio de objetivos profissionais orientados ao ensino de violão; formação musical prévia frequentemente marcada por baixo investimento educacional e por aprendizagens em contextos informais; experiência limitada em performance musical; e hábitos culturais, em muitos casos, distantes do âmbito da cultura legitimada no campo acadêmico.

O segundo eixo aborda a inserção profissional do violonista. Partindo da literatura sobre carreiras proteanas e carreiras portfólio na música, a análise dos dados evidencia o predomínio de múltiplas atividades profissionais e atuações diversas, tendo a docência como principal fonte de renda, em contraste com a baixa incidência da performance solista como atividade profissional estável. Os dados também indicam uma série de dificuldades no exercício da docência, diretamente relacionadas à ausência de formação pedagógica e didática.

O terceiro eixo, por sua vez, analisa os currículos dos cursos de violão a partir das teorias críticas e pós-críticas do currículo, revelando a permanência de uma organização curricular centrada no âmbito técnico-interpretativo, com pouca ou nenhuma ênfase em áreas como a pedagogia e didática do instrumento, pesquisa científica e criação musical. Os resultados evidenciam também demandas curriculares concretas por parte do corpo discente, principalmente na área de pedagogia e didática do violão.

Por fim, o quarto eixo dedica-se às práticas pedagógicas nas aulas de instrumento, fundamentando-se nas propostas contemporâneas da Educação Musical Performativa e da Transformative Pedagogy. As análises evidenciam processos de ensino centrados no repertório solista, com dinâmicas pedagógicas pouco orientadas ao desenvolvimento da autonomia do estudante e à transferibilidade de conhecimentos do contexto das aulas para a realidade profissional posterior.

De modo geral, as análises evidenciam contradições entre, por um lado, a permanência de referenciais formativos fortemente associados ao modelo conservatorial e, por outro, as transformações que vêm ocorrendo nos perfis dos estudantes e nos desafios contemporâneos da profissionalização no campo da música. Conclui-se destacando a necessidade de uma formação superior mais ampla, conectada aos perfis discentes e ao mundo real do trabalho, com maior investimento na formação pedagógica e didática; diversificação das práticas musicais; incentivo à pesquisa; bem como uma preparação para a gestão da carreira profissional, articulada a partir da superação das concepções de música e seu ensino que sustentam o modelo vigente.