A tese analisa a formação superior do violonista com o objetivo de compreender de que modo os cursos de bacharelado em violão do estado de São Paulo (Brasil) respondem às demandas contemporâneas relativas à formação e à atividade profissional. A pesquisa, de natureza qualitativa, baseia-se em entrevistas semiestruturadas com estudantes, egressos e docentes, na observação não participante de aulas de violão em diferentes níveis de cinco cursos de graduação em universidades de São Paulo e na análise da normativa curricular vigente, organizando-se em quatro eixos analíticos inter-relacionados.
O primeiro eixo examina os perfis dos alunos matriculados à luz da sociologia de Pierre Bourdieu. Dentro da heterogeneidade de perfis identificada, os dados evidenciam o predomínio de objetivos profissionais orientados ao ensino de violão; formação musical prévia frequentemente marcada por baixo investimento educacional e por aprendizagens em contextos informais; experiência limitada em performance musical; e hábitos culturais, em muitos casos, distantes do âmbito da cultura legitimada no campo acadêmico.
O segundo eixo aborda a inserção profissional do violonista. Partindo da literatura sobre carreiras proteanas e carreiras portfólio na música, a análise dos dados evidencia o predomínio de múltiplas atividades profissionais e atuações diversas, tendo a docência como principal fonte de renda, em contraste com a baixa incidência da performance solista como atividade profissional estável. Os dados também indicam uma série de dificuldades no exercício da docência, diretamente relacionadas à ausência de formação pedagógica e didática.
O terceiro eixo, por sua vez, analisa os currículos dos cursos de violão a partir das teorias críticas e pós-críticas do currículo, revelando a permanência de uma organização curricular centrada no âmbito técnico-interpretativo, com pouca ou nenhuma ênfase em áreas como a pedagogia e didática do instrumento, pesquisa científica e criação musical. Os resultados evidenciam também demandas curriculares concretas por parte do corpo discente, principalmente na área de pedagogia e didática do violão.
Por fim, o quarto eixo dedica-se às práticas pedagógicas nas aulas de instrumento, fundamentando-se nas propostas contemporâneas da Educação Musical Performativa e da Transformative Pedagogy. As análises evidenciam processos de ensino centrados no repertório solista, com dinâmicas pedagógicas pouco orientadas ao desenvolvimento da autonomia do estudante e à transferibilidade de conhecimentos do contexto das aulas para a realidade profissional posterior.
De modo geral, as análises evidenciam contradições entre, por um lado, a permanência de referenciais formativos fortemente associados ao modelo conservatorial e, por outro, as transformações que vêm ocorrendo nos perfis dos estudantes e nos desafios contemporâneos da profissionalização no campo da música. Conclui-se destacando a necessidade de uma formação superior mais ampla, conectada aos perfis discentes e ao mundo real do trabalho, com maior investimento na formação pedagógica e didática; diversificação das práticas musicais; incentivo à pesquisa; bem como uma preparação para a gestão da carreira profissional, articulada a partir da superação das concepções de música e seu ensino que sustentam o modelo vigente.