CARTOGRAFIAS PERFORMATIVAS DO FLAMENCO ATLÂNTICO: TRAJETÓRIAS MIGRANTES, ESPACIALIDADES E INTRA-AÇÕES NA CENA DO FLAMENCO EM MADRI

Doutorado em Música
Orientando
Micael Gustavo Pancrácio dos Santos
Orientador
Suzel Ana Reily
Data
Qua, 02 de set de 2026 às 09:00hs
Local
Sala 3 - CPG/IA
Resumo

Esta tese investiga o Flamenco Atlântico como uma dimensão heurística relacional constituída por processos históricos, musicais, migratórios e performativos que atravessam o espaço atlântico e se atualizam continuamente em diferentes territorialidades. Partindo de uma abordagem que articula etnomusicologia, estudos da performance, história cultural e teorias relacionais contemporâneas, a pesquisa analisa como repertórios, práticas musicais, trajetórias migrantes, espacialidades urbanas e acontecimentos performativos participam da produção do flamenco na contemporaneidade, tomando como foco empírico a cena do flamenco em Madri.

A investigação transcende a compreensão do flamenco como uma tradição fixa e territorialmente circunscrita à Andaluzia, argumentando que o gênero emerge como uma prática relacional produzida por circulações de longa duração que conectam Europa, África e Américas. Nesse sentido, este estudo examina tanto os processos históricos associados às danzas atlánticas, aos palos de circulação americana e às redes musicais transoceânicas que participaram da constituição do flamenco moderno, quanto as formas pelas quais essas dinâmicas continuam operando na contemporaneidade por meio de trajetórias migratórias, redes profissionais, processos de aprendizagem e práticas performativas situadas.

Fundamentada nas contribuições do Realismo Agencial (Barad, 2007), da Teoria Ator-Rede (Callon, 1986; Law, 1986; Latour, 2005), das espacialidades relacionais (Massey, 1993), da produção da localidade e dos capitais pós-nacionais (Appadurai, 1996), esta pesquisa investiga como agentes humanos e não humanos – corpos, instrumentos, repertórios, espaços performativos, tecnologias, instituições e regimes de escuta – participam da emergência da localidade em âmbitos locais, translocais e pós-nacionais. Metodologicamente, articula-se análise histórica, etnografia, entrevistas, análise musical e etnografia da performance, incluindo o estudo das trajetórias de artistas brasileiros atuantes em Madri, os processos composicionais que entrelaçam aspectos da música brasileira ao flamenco, bem como o funcionamento dos atos performativos observados nos tablaos flamencos.

Os resultados demonstram que o flamenco contemporâneo se constitui por meio de processos contínuos de circulação, negociação e reinvenção, nos quais tradição e transformação se entrelaçam simultaneamente. A pesquisa sustenta que Madri pode ser compreendida como uma capital pós-nacional do Flamenco Atlântico, configurando-se como um espaço nodal de convergência de fluxos migratórios, redes artísticas e práticas performativas. Ao propor o conceito de Flamenco Atlântico, esta tese contribui para deslocar interpretações essencialistas sobre o flamenco, oferecendo uma perspectiva capaz de integrar escalas históricas, musicais, espaciais, migratórias e performativas em uma mesma estrutura analítica, compreendendo o flamenco como um processo relacional continuamente produzido no espaço atlântico.