Esta pesquisa investiga a relação entre voz e tambor através do desenvolvimento de uma abordagem pedagógica afrodiaspórica, aqui denominada: MetodoloGira, não inspirada, mas expirada, pelo samba e candomblé, espaços que moldaram a personalidade artística e a carreira da pesquisadora-autora. O presente trabalho emerge da necessidade de ampliar a compreensão sobre o cantar e sobre a técnica vocal enquanto fenômenos codependentes e entretecidos à cultura, subtraindo abordagens exclusivamente fisiológicas que fortalecem a dicotomia voz x corpo, voz x psiquismo, bem como o problemático binômio natureza x cultura. A pesquisa ainda analisa empiricamente a oficina Voz-Tambor: Escuta e Imaginação, uma experiência pedagógica desenvolvida pela pesquisadora, que reuniu 19 estudantes em duas turmas (cantores profissionais e não profissionais) durante 10 encontros, com o propósito de investigar e observar suas performances corpo-vocais sem a mediação de instrumentos cordofônicos e sem o piano, mas na interação com tambores e sempre de forma coletiva, destacando a noção de solista dentro deste contexto. As práticas foram conduzidas por elementos pilares da cultura negra: a noção de encontro, o diálogo em roda, a dança ritmada pelos tambores, os cantos improvisados e o coro. A presente tese apresenta ainda o neologismo MetodoloGira enquanto método não lógico, mas gírico, numa pesquisa auto etnográfica de caráter interpretativo, dialogando com os saberes e conceitos de intelectuais negros, especialmente. O estudo também apresenta a análise de 19 relatórios entregues pelos participantes da oficina Voz-Tambor: Escuta e Imaginação, somados às entrevistas com o cantor, sambista e pai da pesquisadora, Oswaldo dos Santos, mãe Zezé de Oxum, ialorixá (mãe de santo) da cantora e a vivência da própria artista. A pesquisa apresenta o tambor como um ente central na revelação da singularidade vocal, como elemento nucleador do trabalho coletivo, que permite a instauração de territórios de acolhimento, descoberta, encorajamento e ética comunitária. Neste sentido, o tambor foi percebido não apenas enquanto instrumento de condução, mas como entidade que se alimenta daquilo que é comunal e se manifesta no gesto vocal dos corpos que, mesmo que solistas, sabem que nunca cantam sós.