No presente trabalho, registra-se e analisa-se o ressurgimento, no Brasil contemporâneo, do lamelofone, família de instrumentos que desfrutou de ampla popularidade nos períodos Colonial e Imperial brasileiros até o final do século XIX sob o nome genérico de “marimba”. Trata-se de um instrumento bastante difundido na África Subsaariana, conhecido por diversas designações como sanza, kisanji, karimba, kalimba, nsansi, malimba e mbira (SILVA, 1995; RICCIARDI, 2000; GALANTE, 2015; NASCIMENTO, 2020). A mbira nyunganyunga, instrumento originário da região situada entre as margens dos rios Zambezi e Limpopo, na África Austral — mais especificamente do povo Shona de Moçambique e Zimbábue —, é hoje o principal vetor no movimento de revitalização dos lamelofones no país. Este fenômeno decorre de fatores como a consolidação de literatura etnomusicológica específica, os fortes movimentos de revitalização na África Meridional que promoveram sua disseminação internacional, a intensificação de projetos de intercâmbio cultural e mobilidade acadêmica de estudantes brasileiros em Moçambique, e o interesse crescente de musicistas nacionais em compreender as influências e cruzamentos sonoros entre África e Brasil. O arcabouço teórico articula os conceitos de "invenção da tradição" (Hobsbawm e Ranger) e "revitalização musical" (music revival, de Tamara Livingston) sob uma perspectiva crítica decolonial. Metodologicamente, a pesquisa de natureza qualitativa combina mapeamento etnográfico em Moçambique e no Brasil, entrevistas com mbireiros/as e uma abordagem autoetnográfica (pesquisa-ação) pautada em oficinas ministradas entre 2023 e 2025 na Bahia e no Tocantins. A tese estrutura-se em cinco capítulos: 1) Historiografia da mbira e seus renascimentos na África Austral; 2) Evidências históricas e a iconografia da marimba no Brasil antigo; 3) Cartografia dos encontros contemporâneos com performers e educadores brasileiros; 4) A cultura material e a agência construtiva da luthieria nacional, com destaque para as ações do projeto Mbiras do Brasil no Museu de Arte Moderna da Bahia; e 5) Os contextos de aprendizagem do instrumento, onde a chancela da UNESCO (2020) valida a mbira como Patrimônio da Humanidade e ancora a discussão sobre a oralidade, o modelo pedagógico do "andaime visual" de Dumisani Maraire e a consolidação de comunidades de prática na universidade. Conclui-se que a indissociabilidade entre a luthieria e o ensino sistemático reconstrói ativamente o elo perdido da musicalidade afro-brasileira, afirmando novas soberanias acústicas, estéticas e pedagógicas na diáspora.