Esta tese investiga o projeto estético e o processo criativo da Orquestra Popular de Câmara, grupo de música instrumental popular em atividade na cidade de São Paulo entre 1997 e 2005. Idealizada pelo pianista e produtor Benjamim Taubkin, a Orquestra reunia músicos de destaque da cena instrumental paulistana e brasileira em uma formação inusual, que combinava instrumentos ligados à cultura cosmopolita urbana – piano, violoncelo, contrabaixo, flauta, saxofone – com outros associados ao universo rural e tradicional – viola caipira, bandolim, acordeom, pífanos e percussões –, além da voz sem texto de Mônica Salmaso. Esse pareamento instrumental intencionalmente híbrido visava promover uma interação entre linguagens e musicares capaz de criar pontes entre universos culturais distintos, produzindo, nos termos de seus próprios integrantes, “uma nova sonoridade a partir do encontro do mundo contemporâneo com o tradicional”. A pesquisa articula duas dimensões analíticas complementares: de um lado, o projeto estético do grupo, examinado a partir de seu diálogo com a tradição modernista brasileira, especialmente as concepções de Mário de Andrade e Guimarães Rosa, e com o contexto cultural e identitário da metrópole paulistana, descrita por Nicolau Sevcenko na chave da metáfora da “Babel invertida”; de outro, o processo criativo da Orquestra, caracterizado por uma tensão produtiva entre improvisação coletiva e predeterminação composicional. Configura-se, assim, uma forma singular de “musicar local” cujos significados estão intimamente ligados à estrutura de sentimentos da São Paulo contemporânea e ao seu cosmopolitismo periférico. A metodologia combina entrevistas semiestruturadas com integrantes do grupo, análise de transcrições musicais e investigação bibliográfica em musicologia, etnomusicologia, estudos culturais e teoria musical.