Esta tese investiga as relações entre arte contemporânea e arqueologia a partir de uma perspectiva situada no campo das poéticas em artes visuais. O estudo tem como ponto de partida a coleta de um conjunto de fotografias e documentos familiares encontrados em um cofre, pertencentes ao bisavô do autor, que passam a ser compreendidos como objetos materiais atravessados pelo tempo, pela memória e por lacunas narrativas. A pesquisa articula prática artística, reflexão teórica e especulação arqueológica, buscando compreender como os vestígios do passado podem ser ativados poeticamente no presente.
No plano teórico, a pesquisa examina debates transdisciplinares que aproximam arte e arqueologia, mobilizando noções como transdisciplinaridade, “visões paralelas” e “arte/arqueologia”, bem como reflexões sobre memória, arquivo, materialidade e fabulação. A fotografia é abordada não apenas como imagem, mas como objeto, portador de inscrições, marcas de uso e camadas temporais, aproximando-se das discussões da cultura material e da arqueologia.
No âmbito da produção prática, o estudo apresenta e analisa um conjunto de proposições artísticas autorais desenvolvidas a partir do arquivo familiar, organizadas em três séries de trabalhos — “Ex locum”, “Informantes” e “Lâminas”. Para fundamentar esses processos, é proposto o conceito de escavarquivações, cunhado pelo autor, entendido como um dispositivo poético-operatório que articula gestos de observação, coleta, montagem, classificação e fabulação, em diálogo com procedimentos arqueológicos. Ao assumir as lacunas e descontinuidades da memória como matéria de trabalho, a pesquisa busca contribuir para os debates transdisciplinares entre arte e arqueologia, propondo a produção artística como espaço de interpretação, fabulação e reinscrição dos vestígios do passado no presente.