A tese propõe uma reflexão sobre a escrita nas artes da cena a partir da criação e análise da peça EÇA PEÇA PECA, obra inédita de autoria própria. Parte-se da hipótese de que a escrita teatral pode operar para além de sua função representacional ou narrativa, ao afirmar-se como prática relacional, sensível e crítica. O objetivo consiste em compreender de que modo as noções de paisagem e apropriação atravessam a peça e instauram modos específicos de organização do sentido e da experiência estética. A pesquisa, que articula prática artística e reflexão teórica, toma a própria peça como campo de investigação. Sua construção ocorre por meio de procedimentos de montagem e recombinação de letras da música popular brasileira e portuguesa, que mobilizam a apropriação como gesto de deslocamento e reinscrição. Nesse contexto, a análise não se orienta pela busca de significados estáveis, mas pela observação das relações que a escrita estabelece entre linguagem, percepção e experiência. A tese adota uma estrutura sumária inspirada na forma dramatúrgica (prólogo, atos e interlúdio), como estratégia de fricção com os protocolos da escrita acadêmica, e afirma o pensamento como processo exposto. Ao longo do trabalho, retomam-se rastros do percurso artístico e formativo do autor, em articulação com reflexões sobre arquivo e com práticas de outros artistas-dramaturgos. O diálogo com o teatro e a filosofia sustenta a compreensão da peça como espaço de suspensão de finalidades e aproxima a escrita das noções de coralidade, inoperosidade e qualquer. Em seu desfecho, a pesquisa evidencia que a peça se configura como campo de inscrição de rastros, no qual materiais, vozes e fragmentos operam em circulação. O arquivo deixa de figurar como instância de conservação e passa a atuar como operação ativa de seleção e recombinação, enquanto a paisagem se afirma como regime relacional que sustenta a coexistência tensionada entre diferentes noções e práticas, sem reduzi-las a uma síntese. Por fim, a paisagem se inscreve como contribuição para a escrita teatral/dramatúrgica contemporânea, compreendida como um campo de relações no qual rastros, arquivos, palavras, espaço e tempo coexistem sem se fixar, ao tornar visível uma possibilidade de criação que não se organiza como modelo.