Resumo
A presença de mulheres na música no Brasil se dá majoritariamente no cenário do canto
popular brasileiro, ao contrário do restante do cenário musical onde predominam os homens,
representado por compositores e músicos que executam outros instrumentos que não sejam a
voz. O estudo sobre a improvisação vocal no Brasil vem crescendo recentemente, não sendo
comum, no entanto, a citação de cantoras negras como improvisadoras. Este trabalho é
dedicado a analisar e refletir sobre a improvisação vocal nas obras de Clementina de Jesus e
Tania Maria. O objetivo é apontar para o caráter vanguardista de ambas as cantoras,
dialogando com a tradição, mas ao mesmo tempo vivendo, apreendendo e construindo a
música de seu tempo com muita originalidade. Busca-se também indicar o desenvolvimento
de diferentes estilos de improvisação vocal presentes em suas performances e realizar um
trabalho de pesquisa artística em gravação de álbum, inspirado por esses estilos. Este
desenvolvimento parte tanto de um aprendizado auditivo e intuitivo, no caso de Clementina,
quanto o mais pautado em estruturas musicais formais, com influência do jazz e da
linguagem de outros instrumentos musicais, no caso de Tania. Ambas apresentam em seu
canto o sentimento de anseio de retorno ao seu lugar, a sua origem. É o caráter diaspórico da
obra dessas duas artistas, que se dá tanto pela transmissão cultural África-Brasil, quanto pelo
desejo de marcar seus lugares de atuação, dentro e fora do Brasil, garantindo suas
sobrevivências e reconhecimentos.