Esta tese investiga como a prática de caminhadas em territórios marcados por mineração, monocultura e projetos de inundação pode engendrar uma produção artística multidisciplinar, realizada a partir de variadas linguagens tais como pintura, desenho, instalação, entre outras, como forma de elaboração da experiência própria da práxis contemporânea. A reflexão emerge desse fazer, a partir de uma perspectiva fenomenológica em diálogo com Merleau-Ponty, na qual o corpo em relação com o espaço sustenta esta construção conceitual e poética. A tese se organiza em quatro capítulos, que partem da caminhada e se desdobram nas séries de pintura, desenho e instalação, articulando práxis e teoria. A caminhada como prática de pensamento é entendida dentro das questões levantadas por Frédéric Gros e Henry Thoreau, se faz por meio da aproximação do conceito de deriva em Guy Debord, mais tarde expandida em novas derivas por Jacopo Crivelli Visconti, relacionada ainda ao extramuros de Sylvia Furegatti. Por esse fio condutor é vascular, delongado e visa-se entender a prática artística instigada para fora e além do contexto urbano. Este fora está em diálogo com Anna Tsing, dentro da noção de margens indomáveis compreendida como territórios sob pressão do capitalismo, o que nos leva para a leitura da paisagem orientada pelo pensamento-paisagem de Augustin Berque. As relações de território e temporalidade desenvolvidas em projetos de instalações e intervenções trazem conceitos como desterritorialização, em Deleuze e Guattari, e entropia, a partir de Clausius e Prigogine. O trabalho dialoga ainda com práticas artísticas relacionadas ao deslocamento e ao território, como o Coletivo Vaga-mundo, Maria Eugênia Matricardi, Raisa Curty e Carmela Gross. Os resultados poéticos autorais alcançados materializam-se em séries como Extravio ou do Ouro ao Pó (2024) e Imerso até os olhos, escuto o silêncio da terra (2025), no campo da pintura; Vertigem (2020), no desenho; À terra ofereço minha pele (2025), que mobiliza a tatuagem em relações coletivas; e a intervenção Desterro aos Resíduos (2025), que articula caminhadas, coleta e desterritorialização. Ao articular prática e reflexão, a pesquisa propõe uma produção artística implicada nas problemáticas socioambientais contemporâneas e na construção de outras formas de relação com a terra.