Nas entranhas do tecido cultural brasileiro existe uma esquina epistêmica habitada por forças antagônicas que forjaram a história da brasilidade ao longo dos séculos. A umbanda, um de seus vetores mais complexos e sincréticos, é uma importante linha de frente das religiosidades afro-brasileiras contemporâneas, compondo-se através de ritos, apetrechos, adereços e cantares que são, a um só tempo, litúrgicos e teatrais. “Entre o terreiro e a cena” é uma pesquisa de mestrado que se debruça sobre a dimensão historiográfica, contextual, performativa e corporal das umbandas, realizando aproximações teóricas e práticas entre o ritual de umbanda e o rito teatral. Através de revisões bibliográficas, pesquisas de campo com criação de diário de campo e laboratórios corporais de investigação e composição cênica a partir de ferramentas do método Bailarino-Pesquisador-Intérprete (BPI), com produção de um diário de bordo, a pesquisa investiga a realização de uma estética de terreiro na cena, elaborando uma dramaturgia que entrelaça falares, tocares e sentires das umbandas. Partindo-se das reflexões teóricas e dos estudos práticos, tecem-se considerações acerca das implicações políticas e dos limites éticos necessários ao nos aproximarmos das práticas e saberes umbandistas. Faz-se uso também, ao longo deste estudo, de balizas conceituais relevantes para as discussões apresentadas, como a etnocenologia, os estudos da performance e a Pedagogia das Encruzilhadas, que evocam a performatividade tanto das umbandas quanto do teatro. Como resultado, a pesquisa apresenta o espetáculo teatral Café Preto, que elabora dramatúrgica e corporalmente as experiências de convivência com as umbandas e de reflexão sobre elas. Finalmente, o estudo buscou responder à pergunta inicial: como podem as umbandas e seus procedimentos mágico-tropicais se relacionarem com as artes da cena e contribuírem crítica, performativa e dramaturgicamente para uma cena ao sul do saber?