Esta é uma pesquisa de natureza prático-teórica que investiga como os processos de criação artística podem encontrar formas de dar corpo e voz ao que não pôde ser dito. O tema poético deflagrador parte das relações entre mulheres de uma mesma linhagem familiar, marcadas pela tentativa de apagamento da memória por meio da separação, da violência e do silenciamento. A investigação parte da compreensão de que experiências traumáticas podem atravessar gerações, mesmo quando não foram vividas diretamente, persistindo como ausências presentes. Ao longo do percurso, corpo e território são compreendidos como arquivos sensíveis, fontes e testemunhas de memórias apagadas, enquanto a prática artística se constitui como espaço de elaboração. Nesse sentido, a dissertação articula pesquisa de campo performativa, Cartografia Sensível (ROLNIK, 2016) e pedagogias e técnicas de atuação do LUME Teatro, especialmente as metodologias do Corpo Multifacetado (COLLA, 2013), da Mímesis Corpórea (COLLA; FERRACINI; HIRSON, 2017) e do Campo Magnético (SIMIONI, 2023), como bases práticas para a escavação do corpo e do território, voltadas à ativação de imagens, sensações e narrativas ausentes dos registros oficiais. Guiado pelo desejo de dar corpo e voz ao que foi enterrado, o percurso investigativo segue um caminho de abertura, da Cova ao Berço, compreendido como tempo de escavação, maturação e cultivo. Esse ciclo leva à formulação de treze imagens-síntese, organizadas como cartas, que compõem o Oráculo Debaixo dos Pés, e de um Berço, entendido como procedimento de criação, abertura ao imprevisível e sintonização entre corpos e território. Esses dispositivos operam como campo simbólico e ativo, tensionam o controle autoral e convocam o Acontecimento, com vistas à criação de uma obra audiovisual. Desse modo, a pesquisa propõe um procedimento de criação no qual o filme é concebido como extensão do corpo, e a matéria audiovisual encontra forma sem perder a vibração que a originou. Ao afirmar a prática artística como produção de conhecimento, o trabalho reconhece nela um campo de elaboração sensível de memórias historicamente silenciadas.