Este trabalho investiga os modelos generativos de redes neurais e a chamada
“inteligência artificial” pela perspectiva artística do movimento glitch de música eletrônica
experimental. Pautado pela contestação do poder manifestado nas tecnologias eletrônicas, o
glitch explora a disfunção tecnológica como elemento estético protagonista, negando a
transparência das ferramentas de áudio ao evidenciar a sua opacidade como conteúdo sonoro.
A “inteligência artificial” é discutida como a combinação da tecnologia de redes neurais com a
big data: extração, armazenamento e processamento de dados pessoais em grande escala,
vinculado ao advento da internet e a plataformização da vida. Esse fenômeno é discutido em
relação ao contexto de colonialismo de dados, que socializa a produção de informação na forma
de dados ao mesmo tempo que se apropria de forma privada dos meios de capturar e processar
esses dados, favorecendo o oligopólio Norte global chamado big tech. Uma crítica à concepção
cognitivista da mente é feita a partir da Teoria da Autopoiese, que compreende a cognição pela
integralidade entre cérebro, corpo e mundo, e pelo paradigma da enação, ou, percepção guiada
pela ação e vice-versa. O glitch é investigado como ferramenta metodológica estética para uma
metacrítica da chamada “inteligência artificial”, pautada pela alegoria da Manguetown presente
na obra de Chico Science & Nação Zumbi. A partir de duas peças musicais utilizando redes
neurais pelo modus operandi glitch e seu processo criativo, apresentamos técnicas de disfunção
da rede neural, particularmente em modelos de síntese sonora, além de compararmos dois
métodos composicionais contrastantes e complementares entre as duas — um não idiomático e
experimental e o outro de produção de música eletrônica. As três técnicas, que chamamos de
retroalimentação, prompt smashing, e data poisoning são discutidas na sua eficiência e
profundidade de disfunção. A crítica presente nas duas peças (Li e aceito os termos de uso e
Lama) é discutida como uma negação da transparência e saturação sonora e linguística.