Esta dissertação busca resgatar, ampliar e revisar a biografia musical inicial de Dinorá de Carvalho (1895–1980), investigando sua formação como pianista no Brasil, sua circulação pública e o surgimento de suas primeiras composições para piano solo. A pesquisa toma como ponto de partida as contribuições de Flávio Cardoso de Carvalho (2022), especialmente sua compreensão da indissociabilidade entre a trajetória pianística e a atividade composicional de Dinorá, e procura expandi-las por meio da localização, do confronto e da análise de novas fontes documentais. O recorte biográfico compreende o período entre seu nascimento e a viagem para aperfeiçoamento musical na Europa, em 1921, enquanto o estudo da produção composicional concentra-se principalmente nas obras associadas aos anos de 1915 a 1921. De caráter qualitativo e documental, a investigação reuniu partituras, programas de concerto, periódicos, cartas, fotografias, documentos escolares, registros civis e religiosos, dedicatórias, catálogos, listagens de obras e documentação parlamentar. As fontes foram analisadas segundo sua procedência, autoria, data, finalidade e proximidade com os acontecimentos, distinguindo-se informações relativas à composição, à cópia, à publicação, à execução, à estreia e à catalogação. Ao longo da pesquisa, foram revistos diferentes aspectos da biografia de Dinorá. O confronto entre o assento de batismo de “Maria”, o registro civil de “Dinorah”, a matrícula de “Maria Dinorah” e a biografia de 1961 revelou camadas distintas da construção de sua identidade e problematizou as datas de nascimento transmitidas pela própria compositora e pela bibliografia. Também foram localizados indícios do deslocamento da família de Uberaba para São Paulo e confirmada sua presença no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo em 1908. Programas e notícias permitiram acompanhar sua passagem de aluna a pianista formada, concertista, professora e compositora, reconstruindo repertórios, apresentações, avaliações críticas, vínculos institucionais e redes de sociabilidade. A pesquisa documentou ainda os recitais realizados em Belo Horizonte, sua circulação entre representantes da sociedade e da política mineira e o processo parlamentar que resultou na concessão de auxílio público para seus estudos na Europa. No campo composicional, o confronto entre a listagem preparada por Dinorá em 1961, o catálogo de Paulo Affonso de Moura Ferreira, as partituras, os programas e os periódicos comprovou ou antecipou a circulação de obras como Nocturno, Meditação, Dança das Bonecas, Pirilampos e Polonaise Militar. Outras peças permaneceram vinculadas a diferentes graus de segurança documental, cópias posteriores ou referências sem fonte musical localizada. Conclui-se que a viagem a Paris não inaugurou a trajetória artística ou autoral de Dinorá de Carvalho. Antes dela, a musicista já havia construído uma carreira pública como pianista e professora, fazia circular composições próprias e mobilizava relações artísticas, sociais e políticas em torno de seu projeto de formação. O trabalho não encerra sua biografia ou seu catálogo, mas oferece uma reconstrução crítica de seus primeiros anos e da situação atual das fontes relativas à sua produção inicial para piano solo.