REGÊNCIA, PODER E ESCUTA: PRÁTICAS HISTÓRICAS E MODELOS COLABORATIVOS DE LIDERANÇAS NA INTERPRETAÇÃO DA MÚSICA INSTRUMENTAL BARROCA E CLÁSSICA

Doutorado em Música
Orientando
Juliano Buosi dos Santos
Orientador
Angelo Jose Fernandes
Data
Qua, 09 de dez de 2026 às 09:00hs
Local
Sala 03 (CPG)
Resumo

Esta tese problematiza a naturalização da figura do regente na interpretação da música instrumental barroca e clássica, propondo uma reavaliação crítica de seus fundamentos históricos, estéticos e institucionais. A partir da performance historicamente informada e da análise de tratados dos séculos XVIII e XIX, argumenta-se que a condução musical nesses repertórios se realizava predominantemente por meio de práticas colaborativas, nas quais a liderança emergia do próprio fazer sonoro, da retórica musical compartilhada e da escuta coletiva entre os próprios músicos. O estudo reconstrói a formação histórica da regência moderna entre o final do século XVIII e o século XIX, compreendendo-a não como evolução natural da prática musical, mas como resposta a transformações estruturais da orquestra, do repertório e das instituições musicais. Em diálogo com a sociologia da música, a psicologia do trabalho e os estudos organizacionais, analisa-se a orquestra contemporânea como espaço de poder, disciplina e produção simbólica, no qual a autoridade do regente se sustenta tanto por necessidades funcionais quanto por construções culturais e ideológicas. Com base em pesquisa histórico-crítica, revisão bibliográfica especializada e reflexão prático-profissional articulada a teorias de liderança distribuída e cognição coletiva, sustenta-se que a condução musical pode ser repensada como prática ética, relacional e compartilhada. No repertório barroco e clássico, a redistribuição da liderança tende a favorecer maior coerência histórica, engajamento artístico e corresponsabilidade interpretativa dos músicos, indicando a pertinência de arquiteturas de coordenação situadas, definidas em função do repertório e das condições institucionais. Conclui-se que repensar a regência implica também repensar as estruturas de convivência musical, abrindo caminhos para modelos interpretativos que conciliem rigor histórico, vitalidade estética e transformação institucional no contexto orquestral contemporâneo.